O Seminário Batista Maranatha, do estado de Wisconsin – EUA, publicou, em janeiro de 2013, um interessante artigo escrito por Timothy Miller1.

O autor esboçou sua preocupação diante do texto de Mc. 13.32, pois considerando o que está textualmente dito, Jesus é desconhecedor do dia de sua própria volta. Se Jesus não é Deus, está tudo ok! Não há problema algum nessa declaração. Ele não seria onisciente e não teria, realmente, obrigação de saber. Mas, se existe alguma proposta de defender que ele seja o mesmo Deus que o Pai é, então, as coisas se complicam, e muito, diante da afirmação de Mc. 13.32.

Miller admite que muitos pastores evitam fazer comentários, sejam pregações ou exames exegéticos sobre esse texto bíblico dada a clareza embaraçosa de que está dito ali, e apresenta sugestões de soluções colhidas ao longo da história. Ele aborda aquilo que seria considerado “Soluções antibíblicas”, “Soluções de crítica textual”, “Soluções exegéticas”, “Soluções semânticas” e a “Solução das duas Naturezas”.

Soluções antibíblicas

Para ele, reconhecer que Jesus não sabe porque não é Deus, como faz o arianismo, é uma solução antibíblica, ou seja, admitir o que está escrito não é a solução que ele prefere, mas, claro, isso acontece por causa do fundamento de sua fé trinitária.

Uma outra opção que ele considera não bíblica, e concordamos com ele, é conhecida como “não essencialismo”. Via pela qual não se veria qualquer problema em Mc. 13.32, porque a onisciência não seria algo essencial a natureza de Deus. Curiosamente, o paradigma para estabelecer a existência do “não essencialismo” é muito semelhante ao usado para se tentar estabelecer a trindade. Para a trindade se usa muito o fundamento: A bíblia diz que Jesus é homem, mas o apresenta, também, com qualidades divinas, por isso ele deve ser Deus e homem. Para o “não essencialismo” o paradigma é: Jesus afirma que é ignorante da data, mas o a Bíblia o apresenta com qualidades divinas, logo, a onisciência (onipresença e onipotência também) não deve ser essencial à Deidade. É apenas uma conclusão alternativa para o paradigma trinitário. Nesse sentido onisciência seria uma qualidade contingente de Deus, e não algo ligado essencialmente a sua própria natureza.

O próprio Miller identifica o “não essencialismo” como decorrente do que se defende no kenotiscimo. Doutrina surgida no século XIV, que ensina o esvaziamento completo de Jesus; onde ele teria deixado de possuir todos os atributos divinos, mas continuado a ser o mesmo Deus de antes. Porém a própria afirmação bíblica de que Deus não muda, impede que se admita que Deus perca alguma coisa que lhe caracteriza como Deus, o fazendo diferir das criaturas. Isso põe óbice a ideia do “não essencialismo” e, por isso, é rejeitado por trinitários ortodoxos, que não admitem a perda, em Jesus, de qualquer coisa relativa a natureza de Deus, e também rejeitada por não trinitários, mas não por considerem Jesus Deus, mas porque não se pode admitir que Deus possa perder alguma coisa atribuída a sua própria natureza.

Soluções de Crítica Textual”

Ele apresenta as sugestões de crítica textual, começando por Ambrósio, seguido por Jerônimo, que defendia que a expressão “nem o Filho” foi acrescida nos manuscritos, mas não fazia parte do original. Tal afirmação, porém, perde completamente a força pelo fato de que o acréscimo pode ser dito ter existido nos manuscritos de Mateus, mas não no de Marcos, cuja crítica textual tem opinião unânime de sua autenticidade. Miller nos informa que segundo Vincent Taylor, no texto de Marcos somente um códex do séc. IX e um manuscrito da Vulgata omitem a frase. Logo, não se pode defender como ausente do original, ao menos em Mc. 13.32 é autêntico.

Soluções exegéticas”

A busca de soluções exegéticas são apresentadas a partir de Basílio de Cesaréia, um dos padres capadócios, famoso pelas formulações trinitárias ocorridas pelos idos de 379 d.C. Basílio, na carta 236 a Amphilochius, sugere que o texto foi mal interpretado e “εἰ μὴ ὁ πατήρ” deveria significar “se o Pai não sabe”, dando a entender que “se o Pai não sabe”, então, Jesus não saberia, mas como o Pai sabe, Jesus saberia. O problema é que Basílio fica praticamente ilhado nessa exegese e não encontra apoio do próprio contexto e nem das expressões vocabulares do texto paralelo de Mt. 24.36 que exclui claramente os anjos e usa em seguida “εἰ μὴ ὁ πατήρ μου μόνος” (senão meu Pai, somente). Se os anjos não sabem, pelo mesmo princípio o Filho não. Mas, se o Filho sabe, pelo mesmo princípio os anjos saberiam. Mas, se assim fosse a frase “senão o Pai” perderia completamente o sentido.

Por essas razões a tentativa de Basílio de Cesareia não consegue resolver o problema.

Soluções semânticas”

Uma solução que abordou a questão semântica foi tentada por Gregório de Tours (594 d.C) em História dos Francos2. Ele sugeriu que a expressão “nem o Filho” se referia a igreja e não a Jesus, já que a Bíblia nos chama também de filhos de Deus (II Co. 6.18). Ou seja, “filho” ai teria o sentido de qualquer filho de Deus e não do Filho Unigênito de Deus. A tentativa de Gregório de Tours é nitidamente forçada, e, assim como o outro Gregório ele esbarra no texto paralelo de Mateus onde está dito (ὁ πατήρ μου μόνος) “unicamente meu Pai”, ficando também isolado nessa exegese.

Miller informa que Orígenes, em 254 d.C, também tentou resolver a questão semanticamente. Aqui ele não apelou para o termo “filho” como fez Gregório de Tours, mas para o termo “saber”. No entanto, a proposta de Orígenes é anacrônica uma vez que ele tenta transferir a semântica da palavra יָדַע “conhecer” em hebraico, onde se sugere que se sabe das coisas pelo relacionamento pessoal ou pela experiência, para a passagem escrita com vocábulo grego que não tem essa mesma conotação. Miller destaca que tanto Johannes P. Louw quanto Eugene Albert Nida, que são autores de Greek-English Lexicon of the New Testament: Based on Semantic Domains (Léxico Grego-Inglês do Novo Testamento Baseado em Domínios Semânticos), atestam que οἶδα (oida) nunca é usada nesse sentido no Novo Testamento.

Hilário de Poitiers tenta seguir Orígenes, mas sugere que “saber” significa algo como revelação ou ação. Para ele “Sempre que Deus diz não saber, Ele professa a ignorância de fato, mas não está sob a deficiência da ignorância. Não é por causa da fraqueza da ignorância que ele não sabe, mas porque ainda não é o momento de falar ou agir para o plano divino”. Na verdade, Hilário em sua obra “Sobre a Trindade” tenta dar mais de uma explicação para o caso de Mc. 13.32. A questão semântica é uma delas. Outras explicações passam por ideias como “saber, mas disse não saber”, “ignorância por causa da natureza humana” e “é um mistério como Jesus pode saber e não saber ao mesmo tempo”. Hilário sugere que Jesus não sabe o que os outros não podem saber, mas sabe aquilo que o Pai tem conhecimento. Se isso faz algum sentido fica por conta de quem deseja acreditar que Jesus sabia o dia da volta mesmo dizendo que não sabia.

Agostinho (430 d.C) não fica de fora. Ele sugere que Hilário “explicou” a afirmação “obscura” do Senhor Jesus. E sugere que Jesus usou uma figura de linguagem e quando disse que não sabia, apenas estava transmitindo que não havia proveito para os homens saberem. Agostinho mesmo disse: “Ele ignora o que não quer dar a conhecer”. Pelo que se percebe, as dificuldades de Agostinho não se distanciaram das dificuldades de Hilário, e ambos não conseguem convencer ninguém imparcial, com esses argumentos.

Do século V há um salto para o século XIII, quando Tomás de Aquino se apoia em Hilário e Agostinho, e cita Gn. 22.12 no sacrifício de Isaque por Abraão, que não se concretiza, e se ouve a voz que diz: “Agora sei que temes a Deus”, indicando algo que Deus já sabia, mas é como se não soubesse. Aquino tenta transpor isso para a afirmação de Jesus buscando convencer seus leitores que Jesus sabia, mas estava em uma “apresentação” de desconhecedor. Essa ideia foi seguida em 1952 por Lewis Sperry Chafer que fazendo uso de I Co. 2.2 sugere que Paulo sabia de outras coisas, mas disse: “Porque nada me propus saber entre vós, senão a Jesus Cristo, e este crucificado.” como se ele só soubesse de Cristo para os Coríntios. Para ele Cristo poderia ter agido do mesmo jeito em Mc. 13.32, ou seja, com relação aos discípulos Jesus teria proposto a si mesmo não saber o dia da volta, ainda que soubesse. William G.T Shedd (1894) cita Mt. 11.27e faz alusão ao que as “pessoas” da trindade podem ou devem revelar, nesse caso Jesus seria “oficialmente” ignorante para revelar a data, já que caberia ao Pai tal prerrogativa.

Acerca dessas tentativas de Hilário, Agostinho, Tomás de Aquino, Sperry Chafer e Willam Shedd, o próprio Timothy Miller reconhece que “é duvidoso que esta gama semântica esteja presente em Marcos. Dos vinte e um usos de oida em Marcos, nenhuma pode ser interpretada como significando ‘revelar‘” e diz mais “ o fato de que οἶδα não ter essa definição em qualquer lugar no livro de Marcos, parece que dá a palavra aqui esta definição é puramente especulativa e injustificada.”. E, de fato, nenhuma passagem bíblica reivindicada para tentar justificar o que Jesus disse, são paralelos reais.

Solução das duas Naturezas”

A última das tentativas digna de destaque na história do cristianismo decorre do que foi postulado no Concílio Católico de Calcedônia, em 451, ou seja, mais de 400 anos depois de Jesus haver dito o que disse em Mc. 13.32.

A definição de Calcedônia diz: “gerado do Pai antes de todos os séculos segundo a divindade, e nesses últimos dias, para nós e para nossa salvação, nascido da Virgem Maria, mãe de Deus, segundo a humanidade. Um só e mesmo Cristo, Senhor, Filho Único que devemos reconhecer em duas naturezas, sem confusão, sem mudanças, sem divisão, sem separação. A diferença das naturezas não é de modo algum suprimida pela sua união, mas antes as propriedades de cada uma são salvaguardadas e reunidas em uma só pessoa e uma só hipóstase3

O próprio Atanásio antes da definição de Calcedônia já havia tentado um caminho semelhante para justificar o desconhecimento de Jesus do dia de sua volta, pois disse: “Quando Seus discípulos perguntaram sobre o fim, adequadamente, Ele disse, então, ”nem o Filho’, segundo a carne, por causa do corpo; que Ele pode mostrar que, como homem, Ele não sabe; porque a ignorância é próprio do homem.” Dessa forma Atanásio atribui o desconhecimento a Jesus como homem, ou seja, por causa da natureza humana. Gregório de Nazianzeno segue o mesmo tom, mas outros autores defendendo essa saída, segundo informa Miller, só serão conhecidos após Calcedônia.

João Calvino acreditava que a natureza divina de Jesus ficou adormecida, em repouso ou escondida, e por isso Jesus disse não saber o dia da volta.

Miller informa que mais recentemente Charles Hodge, John F. Walvoord, Wayne Grudem, Charles M. Horne e outros, baseiam-se no argumento das duas naturezas com o adendo de que duas naturezas implica duas consciências em Cristo, onde mergulhada em mistério, uma sabia e a outra não, de modo que se Jesus dissesse que sabia, não estaria mentindo apesar da natureza humana não saber, e se dissesse que não sabia, também não estaria mentindo apensar da natureza da deidade saber. Se isso é razoável, só os trinitários devem achar.

Apesar de Miller ficar com a ideia das duas naturezas como uma possível solução, ele mesmo lembra uma questão levantada por ANS Lane, que pode ser traduzida na seguinte reflexão: Se alguém está com um dos bolsos cheios de dinheiro e o outro bolso sem nada, (ao ser perguntado se tem dinheiro) como pode a mesma e única pessoa dizer que está sem um centavo por haver optado colocar a mão no bolso que está vazio, sem estar mentindo?

Miller reconhece isso, mas sugere que devemos abraçar essa contradição e esse paradoxo, alegando que na esfera divina isso deve ser admitido. Certamente isto está longe do que Nosso Senhor Jesus Cristo nos ensinou: “Seja, porém, o vosso falar: Sim, sim; Não, não; porque o que passa disto é de procedência maligna” (Mt. 5.37)

Fica evidente que as tentativas da primeira a última não satisfazem e não solucionam o problema. Muitas delas, inclusive a alegação de duas naturezas com duas consciências, são puras convenções, ou alegações coletivas para algo que simplesmente pode ser resolvido admitindo que Jesus não sabe porque não é Deus.

Mc. 13.32 continua como um estandarte à vista de todos, anunciando que Jesus não é o mesmo Deus que o Pai é.

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1http://www.mbu.edu/seminary/journal/mark-1332-problem-or-paradigm-2

2Título original: History of the Franks

3https://pt.wikipedia.org/wiki/Concílio_de_Calcedónia