Unitarismo Bíblico

Em defesa do eterno conceito de Deus como um e único

Categoria: Comentários (Página 1 de 6)

Mc. 13.32, uma pedra no sapato trinitário

O Seminário Batista Maranatha, do estado de Wisconsin – EUA, publicou, em janeiro de 2013, um interessante artigo escrito por Timothy Miller1.

O autor esboçou sua preocupação diante do texto de Mc. 13.32, pois considerando o que está textualmente dito, Jesus é desconhecedor do dia de sua própria volta. Se Jesus não é Deus, está tudo ok! Não há problema algum nessa declaração. Ele não seria onisciente e não teria, realmente, obrigação de saber. Mas, se existe alguma proposta de defender que ele seja o mesmo Deus que o Pai é, então, as coisas se complicam, e muito, diante da afirmação de Mc. 13.32.

Miller admite que muitos pastores evitam fazer comentários, sejam pregações ou exames exegéticos sobre esse texto bíblico dada a clareza embaraçosa de que está dito ali, e apresenta sugestões de soluções colhidas ao longo da história. Ele aborda aquilo que seria considerado “Soluções antibíblicas”, “Soluções de crítica textual”, “Soluções exegéticas”, “Soluções semânticas” e a “Solução das duas Naturezas”.

Soluções antibíblicas

Para ele, reconhecer que Jesus não sabe porque não é Deus, como faz o arianismo, é uma solução antibíblica, ou seja, admitir o que está escrito não é a solução que ele prefere, mas, claro, isso acontece por causa do fundamento de sua fé trinitária.

Uma outra opção que ele considera não bíblica, e concordamos com ele, é conhecida como “não essencialismo”; via pela qual não se veria qualquer problema em Mc. 13.32, porque a onisciência não seria algo essencial a natureza de Deus. Curiosamente, o paradigma para estabelecer a existência do “não essencialismo” é muito semelhante ao usado para se tentar estabelecer a trindade. Para a trindade se usa muito o fundamento: A bíblia diz que Jesus é homem, mas o apresenta, também, com qualidades divinas, por isso ele deve ser Deus e homem. Para o “não essencialismo” o paradigma é: Jesus afirma que é ignorante da data, mas a Bíblia o apresenta com qualidades divinas, logo a onisciência (onipresença e onipotência também) não deve ser essencial à Deidade. É apenas uma conclusão alternativa para o paradigma trinitário. Nesse sentido onisciência seria uma qualidade contingente de Deus, e não algo ligado essencialmente a sua própria natureza.

O próprio Miller identifica o “não essencialismo” como decorrente do que se defende no kenotiscimo. Doutrina surgida no século XIV, que ensina o esvaziamento completo de Jesus; onde ele teria deixado de possuir todos os atributos divinos, mas continuado a ser o mesmo Deus de antes. Porém a própria afirmação bíblica de que Deus não muda, impede que se admita que Deus perca alguma coisa que lhe caracteriza como Deus, o fazendo diferir das criaturas. Isso põe óbice a ideia do “não essencialismo” e, por isso, é rejeitado por trinitários ortodoxos, que não admitem a perda, em Jesus, de qualquer coisa relativa a natureza de Deus, e também rejeitada por não trinitários, mas não por considerem Jesus Deus, mas porque não se pode admitir que Deus possa perder alguma coisa atribuída a sua própria natureza.

Soluções de Crítica Textual”

Ele apresenta as sugestões de crítica textual, começando por Ambrósio, seguido por Jerônimo, que defendia que a expressão “nem o Filho” foi acrescida nos manuscritos, mas não fazia parte do original. Tal afirmação, porém, perde completamente a força pelo fato de que o acréscimo pode ser dito ter existido nos manuscritos de Mateus, mas não no de Marcos, cuja crítica textual tem opinião unânime de sua autenticidade. Miller nos informa que segundo Vincent Taylor, no texto de Marcos somente um códex do séc. IX e um manuscrito da Vulgata omitem a frase. Logo, não se pode defender como ausente do original, ao menos em Mc. 13.32 é autêntico.

Soluções exegéticas”

A busca de soluções exegéticas são apresentadas a partir de Basílio de Cesaréia, um dos padres capadócios, famoso pelas formulações trinitárias ocorridas pelos idos de 379 d.C. Basílio, na carta 236 a Amphilochius, sugere que o texto foi mal interpretado e “εἰ μὴ ὁ πατήρ” deveria significar “se o Pai não sabe”, dando a entender que “se o Pai não sabe”, então, Jesus não saberia, mas como o Pai sabe, Jesus saberia. O problema é que Basílio fica praticamente ilhado nessa exegese e não encontra apoio do próprio contexto e nem das expressões vocabulares do texto paralelo de Mt. 24.36 que exclui claramente os anjos e usa em seguida “εἰ μὴ ὁ πατήρ μου μόνος” (senão meu Pai, somente). Se os anjos não sabem, pelo mesmo princípio o Filho não. Mas, se o Filho sabe, pelo mesmo princípio os anjos saberiam. Mas, se assim fosse a frase “senão o Pai” perderia completamente o sentido.

Por essas razões a tentativa de Basílio de Cesareia não consegue resolver o problema.

Soluções semânticas”

Uma solução que abordou a questão semântica foi tentada por Gregório de Tours (594 d.C) em História dos Francos2. Ele sugeriu que a expressão “nem o Filho” se referia a igreja e não a Jesus, já que a Bíblia nos chama também de filhos de Deus (II Co. 6.18). Ou seja, “filho” ai teria o sentido de qualquer filho de Deus e não do Filho Unigênito de Deus. A tentativa de Gregório de Tours é nitidamente forçada, e, assim como o outro Gregório ele esbarra no texto paralelo de Mateus onde está dito (ὁ πατήρ μου μόνος) “unicamente meu Pai”, ficando também isolado nessa exegese.

Miller informa que Orígenes, em 254 d.C, também tentou resolver a questão semanticamente. Aqui ele não apelou para o termo “filho” como fez Gregório de Tours, mas para o termo “saber”. No entanto, a proposta de Orígenes é anacrônica uma vez que ele tenta transferir a semântica da palavra יָדַע “conhecer” em hebraico, onde se sugere que se sabe das coisas pelo relacionamento pessoal ou pela experiência, para a passagem escrita com vocábulo grego que não tem essa mesma conotação. Miller destaca que tanto Johannes P. Louw quanto Eugene Albert Nida, que são autores de Greek-English Lexicon of the New Testament: Based on Semantic Domains (Léxico Grego-Inglês do Novo Testamento Baseado em Domínios Semânticos), atestam que οἶδα (oida) nunca é usada nesse sentido no Novo Testamento.

Hilário de Poitiers tenta seguir Orígenes, mas sugere que “saber” significa algo como revelação ou ação. Para ele “Sempre que Deus diz não saber, Ele professa a ignorância de fato, mas não está sob a deficiência da ignorância. Não é por causa da fraqueza da ignorância que ele não sabe, mas porque ainda não é o momento de falar ou agir para o plano divino”. Na verdade, Hilário em sua obra “Sobre a Trindade” tenta dar mais de uma explicação para o caso de Mc. 13.32. A questão semântica é uma delas. Outras explicações passam por ideias como “saber, mas disse não saber”, “ignorância por causa da natureza humana” e “é um mistério como Jesus pode saber e não saber ao mesmo tempo”. Hilário sugere que Jesus não sabe o que os outros não podem saber, mas sabe aquilo que o Pai tem conhecimento. Se isso faz algum sentido fica por conta de quem deseja acreditar que Jesus sabia o dia da volta mesmo dizendo que não sabia.

Agostinho (430 d.C) não fica de fora. Ele sugere que Hilário “explicou” a afirmação “obscura” do Senhor Jesus. E sugere que Jesus usou uma figura de linguagem e quando disse que não sabia, apenas estava transmitindo que não havia proveito para os homens saberem. Agostinho mesmo disse: “Ele ignora o que não quer dar a conhecer”. Pelo que se percebe, as dificuldades de Agostinho não se distanciaram das dificuldades de Hilário, e ambos não conseguem convencer ninguém imparcial, com esses argumentos.

Do século V há um salto para o século XIII, quando Tomás de Aquino se apoia em Hilário e Agostinho, e cita Gn. 22.12 no sacrifício de Isaque por Abraão, que não se concretiza, e se ouve a voz que diz: “Agora sei que temes a Deus”, indicando algo que Deus já sabia, mas é como se não soubesse. Aquino tenta transpor isso para a afirmação de Jesus buscando convencer seus leitores que Jesus sabia, mas estava em uma “apresentação” de desconhecedor. Essa ideia foi seguida em 1952 por Lewis Sperry Chafer que fazendo uso de I Co. 2.2 sugere que Paulo sabia de outras coisas, mas disse: “Porque nada me propus saber entre vós, senão a Jesus Cristo, e este crucificado.” como se ele só soubesse de Cristo para os Coríntios. Para ele Cristo poderia ter agido do mesmo jeito em Mc. 13.32, ou seja, com relação aos discípulos Jesus teria proposto a si mesmo não saber o dia da volta, ainda que soubesse. William G.T Shedd (1894) cita Mt. 11.27e faz alusão ao que as “pessoas” da trindade podem ou devem revelar, nesse caso Jesus seria “oficialmente” ignorante para revelar a data, já que caberia ao Pai tal prerrogativa.

Acerca dessas tentativas de Hilário, Agostinho, Tomás de Aquino, Sperry Chafer e Willam Shedd, o próprio Timothy Miller reconhece que “é duvidoso que esta gama semântica esteja presente em Marcos. Dos vinte e um usos de oida em Marcos, nenhuma pode ser interpretada como significando ‘revelar‘” e diz mais “ o fato de que οἶδα não ter essa definição em qualquer lugar no livro de Marcos, parece que dá a palavra aqui esta definição é puramente especulativa e injustificada.”. E, de fato, nenhuma passagem bíblica reivindicada para tentar justificar o que Jesus disse, são paralelos reais.

Solução das duas Naturezas”

A última das tentativas digna de destaque na história do cristianismo decorre do que foi postulado no Concílio Católico de Calcedônia, em 451, ou seja, mais de 400 anos depois de Jesus haver dito o que disse em Mc. 13.32.

A definição de Calcedônia diz: “gerado do Pai antes de todos os séculos segundo a divindade, e nesses últimos dias, para nós e para nossa salvação, nascido da Virgem Maria, mãe de Deus, segundo a humanidade. Um só e mesmo Cristo, Senhor, Filho Único que devemos reconhecer em duas naturezas, sem confusão, sem mudanças, sem divisão, sem separação. A diferença das naturezas não é de modo algum suprimida pela sua união, mas antes as propriedades de cada uma são salvaguardadas e reunidas em uma só pessoa e uma só hipóstase3

O próprio Atanásio antes da definição de Calcedônia já havia tentado um caminho semelhante para justificar o desconhecimento de Jesus do dia de sua volta, pois disse: “Quando Seus discípulos perguntaram sobre o fim, adequadamente, Ele disse, então, ”nem o Filho’, segundo a carne, por causa do corpo; que Ele pode mostrar que, como homem, Ele não sabe; porque a ignorância é próprio do homem.” Dessa forma Atanásio atribui o desconhecimento a Jesus como homem, ou seja, por causa da natureza humana. Gregório de Nazianzeno segue o mesmo tom, mas outros autores defendendo essa saída, segundo informa Miller, só serão conhecidos após Calcedônia.

João Calvino acreditava que a natureza divina de Jesus ficou adormecida, em repouso ou escondida, e por isso Jesus disse não saber o dia da volta.

Miller informa que mais recentemente Charles Hodge, John F. Walvoord, Wayne Grudem, Charles M. Horne e outros, baseiam-se no argumento das duas naturezas com o adendo de que duas naturezas implica duas consciências em Cristo, onde mergulhada em mistério, uma sabia e a outra não, de modo que se Jesus dissesse que sabia, não estaria mentindo apesar da natureza humana não saber, e se dissesse que não sabia, também não estaria mentindo apensar da natureza da deidade saber. Se isso é razoável, só os trinitários devem achar.

Apesar de Miller ficar com a ideia das duas naturezas como uma possível solução, ele mesmo lembra uma questão levantada por ANS Lane, que pode ser traduzida na seguinte reflexão: Se alguém está com um dos bolsos cheios de dinheiro e o outro bolso sem nada, (ao ser perguntado se tem dinheiro) como pode a mesma e única pessoa dizer que está sem um centavo por haver optado colocar a mão no bolso que está vazio, sem estar mentindo?

Miller reconhece isso, mas sugere que devemos abraçar essa contradição e esse paradoxo, alegando que na esfera divina isso deve ser admitido. Certamente isto está longe do que Nosso Senhor Jesus Cristo nos ensinou: “Seja, porém, o vosso falar: Sim, sim; Não, não; porque o que passa disto é de procedência maligna” (Mt. 5.37)

Fica evidente que as tentativas da primeira a última não satisfazem e não solucionam o problema. Muitas delas, inclusive a alegação de duas naturezas com duas consciências, são puras convenções, ou alegações coletivas para algo que simplesmente pode ser resolvido admitindo que Jesus não sabe porque não é Deus.

Mc. 13.32 continua como um estandarte à vista de todos, anunciando que Jesus não é o mesmo Deus que o Pai é.

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1http://www.mbu.edu/seminary/journal/mark-1332-problem-or-paradigm-2

2Título original: History of the Franks

3https://pt.wikipedia.org/wiki/Concílio_de_Calcedónia

Miguel Servet é queimado vivo por não ser trinitário

Michael Servetus (em espanhol: Miguel Serveto Conesa), também conhecido como Miguel Servet , Miguel Serveto, Revés, ou Michel de Villeneuve (29 de setembro? 1509 ou 1511-1527 October 1553), foi um espanhol teólogo, médico, cartógrafo e humanista renascentista. Ele foi o primeiro europeu a descrever corretamente a função da circulação pulmonar. Ele era um polímata versado em muitas ciências: matemática, astronomia e meteorologia, geografia, anatomia humana, medicina e farmacologia, bem como jurisprudência, tradução, poesia e o estudo acadêmico da Bíblia em suas línguas originais. Ele é conhecido na história de vários desses campos, especialmente medicina e teologia. Ele participou da Reforma Protestante, e mais tarde desenvolveu uma cristologia não trinitariana. Condenado por católicos e protestantes da mesma forma, ele foi preso em Genebra e queimado na fogueira como herege por ordem do Concílio Protestante de Genebra.

(http://en.wikipedia.org/wiki/Miguel_Servet)

O artigo a seguir é tradução do original em inglês que pode ser encontra do em:

http://www.miguelservet.org/servetus/trial.htm

O JULGAMENTO DE MIGUEL SERVET

“É um abuso condenar à morte aqueles que estão errados em sua interpretação das Escrituras. Esta coima só deve ser imposta para assassinos.” (Carta a Aecolampadious, Calvino, op. VIII, 862)

Miguel Servet era um aragonês vagando em um tempo dominado pelas lutas religiosas inicialmente trazidas pela Reforma Luterana. Servet sacudiu os alicerces da fé cristã de seu tempo com suas doutrinas antitrinitarianas e anabatistas. Como Erasmo de Rotterdam (ver seu Elogio da Loucura), mas a partir de uma posição mais radical, Servet também criticou a corrupção na Igreja e propôs um retorno às raízes e pureza do cristianismo. Servet, no entanto, não foi condenado por suas críticas à Igreja, mas principalmente por sua oposição à interpretação de Niceia da doutrina da Trindade e sua rejeição ao batismo de bebês.

A doutrina da Trindade repousa na crença de que Deus é uma única essência, mas a unidade essencial da natureza divina é compartilhada entre três pessoas: o Pai, o Filho (Logos) e o Espírito Santo. As três pessoas juntas são Deus, mas ninguém é individualmente Deus. Servet estudou textos religiosos judeus e muçulmanos e chegou à conclusão de que a principal diferença dogmática entre as três religiões monoteístas descansou no conceito cristão de Jesus Cristo como o Filho Eterno de Deus. Talvez guiado por um espírito ecumênico, Servet estudou as Sagradas Escrituras em profundidade e onde, de acordo com ele, não encontrou uma única referência à Trindade. Para Servet, Jesus Cristo era um homem a quem Deus tinha infundido a sabedoria divina e só neste sentido se pode dizer que ele era o Filho de Deus. No entanto, só Deus é eterno, não o seu Filho.

A teoria Servet faz de Jesus Cristo uma espécie de profeta, e desta forma traz o cristianismo mais perto do islamismo e judaísmo. A doutrina da Trindade foi um dos dogmas em que católicos, protestantes e calvinistas estavam de acordo. Por esta razão, qualquer ataque a este dogma era considerado uma ofensa grave nas jurisdições civis e eclesiásticas de praticamente toda a Europa cristã.

Na verdade, antes de ser processado em Genebra, Servet foi perseguido e condenado a ser queimado na fogueira pela Inquisição francesa em Vienne Dauphiné (França). Em 7 de Julho de 1553, Servet fugiu da prisão em que ele tinha sido confinado. Uma vez que eles não poderia queimá-lo em pessoa, a sentença foi executada pela queima de uma efígie de Servet, juntamente com alguns de seus livros “heréticos”.

Depois de perambular de um lugar para outro por três meses, Servet decidiu dirigir-se ao Reino de Nápoles, controlado pela monarquia hispânica, com a intenção de praticar a medicina entre os espanhóis que vivem lá. Não está claro o que fez Servet escolher a rota de Genebra. Seja qual for a razão era, em 13 de agosto de 1553. Servet foi reconhecido e preso por ordem de Calvino em Genebra.

A alegação contra Servet não foi enviada por Calvino em pessoa, mas através de um homem de frente chamado Nicholas de la Fontaine. Calvino decidiu agir através de um intermediário, pois, de acordo com as leis processuais em vigor em Genebra (ou seja, o Código Carolinus), o autor [das acusações] teria que permanecer preso com o réu até que o último fosse declarado culpado ou innocent. Uma análise detalhada de cada uma das fases do processo que levou Servet ao madeiro vai além do escopo deste artigo. No entanto, é interessante ressaltar dois aspectos fundamentais deste processo: em primeiro lugar, o facto do Tribunal civil, que julgou Servet não ter jurisdição sobre crimes de heresia e, em segundo, o erro que os juízes de Genebra cometeram quando realizaram a análise jurídica dos alegados crimes cometidos por Servet.

Em 22 de agosto de 1553, Servet encaminou uma petição ao Conselho Menor de Genebra, o órgão competente para julgá-lo, e pediu ao Conselho para rejeitar a acusação criminal. Servet argumentou em sua defesa que a doutrina que defendia a pena de morte por interpretar as Escrituras de forma incorreta não foi incorporado na doutrina dos Apóstolos e os discípulos da igreja iniciante. No mesmo mandado, Servet pediu um advogado para auxilia-lo. O Procurador-Geral recusou os dois pedidos. A razão dada pelo Promotor Público para recusar o pedido de Servet de ter uma assistência jurídica era que, uma vez que Servet foi hábil o suficiente para “mentir” tão bem, ele era inteligente o suficiente para se defender

A discussão relativa à origem das acusações criminais que encontram diferenças na interpretação das Escrituras era menos frívolas. Servet argumentou que, durante os primeiros séculos da existência do cristianismo, a Igreja tentou resolver suas diferenças internas, por meio de discussão pacífica. Esta situação começou a mudar quando o cristianismo se tornou a religião oficial do Império Romano, como resultado do Edital de Constantino (313). Embora que o Concílio de Niceia (325) já havia condenado a abordagem antitrinitariana de Ário. Heresia religiosa não foi criminalizada até o reinado do Imperador Teodósio, o Grande (379-395)

O Código de Teodósio foi concluído pelo Código de Justiniano (527-534). Este último código, que estava em vigor nos territórios do Sagrado Império Romano, prescrito no capítulo “Da summa catholica Trinitate et fide, hereticis, apostatis” a pena de morte para quem negar a doutrina da Trindade e o batismo de crianças. O Código de Justiniano poderia ter constituído a base jurídica para emitir o julgamento contra Servet. Na verdade, os juízes de Genebra perguntaram a Servet se ele sabia da existência deste texto legal. Servet respondeu que ele sabia da existência, mas que, em qualquer caso, a sua existência não invalidava seus argumentos, já que Justiniano não pertencia à Igreja primitiva, mas sim a uma época em que “os bispos começaram sua tirania, e acusações criminais foram introduzidas na Igreja”. O Código Justiniano, no entanto, não serviu como a base jurídica da sentença contra Servet, já que todas as leis do Canon (católico) tinham sido abolidas pelos reformadores de Genebra. Portanto, a questão que se coloca ainda é: qual foi a base legal que permitiu que os juízes em Genebra condenassem Servet?

Embora o acórdão que declarou Servert culpado não o mencionasse expressamente, parece que Calvino e os juízes basearam sua decisão diretamente sobre a Lei Mosaica, que estabeleceu que todos aqueles que proferem blasfêmias contra Jeová devessem ser condenado à morte (Levítico 24:16 e capítulo XIII do Deuteronômio).

Os argumentos de Servet, no sentido de que, no Novo Testamento, era difícil encontrar quaisquer declarações em favor da punição de fatos criminosos por meio de leis, como aqueles com os quais Servet estava sendo imputado, foram superados pelos argumentos a favor de punir blasfemadores com base no Antigo Testamento alegado por Calvino durante o julgamento.

O confronto entre Servet e Calvino reflete a tensão entre dois conceitos opostos de entender a Divindade. A visão de Servet de Deus foi o do Novo Testamento (ou seja, um Deus não relacionado com o Deus vingativo propagada pelos teólogos medievais). É só tendo em conta este ponto de discordância que podemos compreender a referência de Servet à liberdade religiosa e da tolerância religiosa. Pelo contrário, Calvino, junto com Lutero, espalharam a imagem de um Deus vingativo pronto para o Juízo Final que pode ser encontrado no Antigo Testamento. Curiosamente, o conceito medieval de Deus defendido pelos reformadores entrava em confronto com o conceito de Deus, que foi espalhada durante o Renascimento.

Em 26 de outubro de 1553, o Conselho emitiu o seu juízo contra Servet ordenando-lhe ser queimado vivo no morro da Champel. A sentença declarou que Servet era culpado por ter imprimido há vinte e três ou vinte e quatro anos atrás, um livro (“De Trinitatis Erroribus”) que continha “blasfêmias” contra a Trindade e de ter “corrompido” os cristãos e espalhar sua “heresia antitrinitariana” em um trabalho posterior (“Christianismi Restitutio”). Além disso, o juízo condenou Servet por se opor ao batismo de crianças. Deve-se notar que os juízes de Genebra parecem ter intencionalmente errado na qualificação das acusações contra Servet. A partir dos registros do julgamento e da fundamentação do acórdão, não se pode inferir que o crime de que Servet estava sendo acusado tivesse sido cometida no território de Genebra.

Aplicando os princípios mais elementares do Direito Penal, os juízes deveriam ter absolvido Servet, ou simplesmente o considerar culpado de tentativa de cometer esse crime e, portanto, eles deveriam ter aplicado uma pena menos rigorosa, como banimento. Finalmente, também é surpreendente que o pedido de Servet de ter seu caso perante o Conselho dos Duzentos (órgão encarregado de legislar, em Genebra, e de eleger os 25 membros do Conselho Pequeno) tenha sido ignorada pelos magistrados de Genebra. Esta decisão dos juízes, juntamente com a sua recusa em permitir que Servet fosse assistido por um advogado, é mais um exemplo das irregularidades que viciaram o processo contra Servet e demonstram o escasso rigor legal do tribunal de Genebra, provavelmente devido à forte influência que Calvino exercida sobre os juízes.

Em 27 de outubro de 1553 Servet foi levado para o morro de Champel. Seu corpo foi amarrado a um madeiro com uma corrente de ferro e seu pescoço fixado com uma corda pesada. Os carrascos colocaram em sua cabeça uma coroa de palha polvilhada com enxofre. Como é habitual neste tipo de execuções, uma cópia de seu “Christianismi Restitutio” foi colocada debaixo de seus pés.

A execução durou mais de duas horas por causa da lenha verde usada pelos executores. Até o último momento, os reformadores de Genebra tentaram convencer Servet a abjurar suas doutrinas. Mas tudo foi em vão, Servet, apesar da prisão severa e cruel a que tinha sido sujeito se manteve fiel às suas doutrinas, não por teimosia, mas por causa da convicção. Calvino o condenou, mas a história, por vezes, o tribunal mais eficaz de recurso, logo o absolveu. Sua integridade moral durante o processo e, finalmente, antes das chamas não foi esquecida em seu tempo. A morte heroica de Servet levou outros humanistas a levantarem suas vozes contra Calvino e em favor da liberdade de pensamento. Mas o exemplo de Servet foi sentido além de seu tempo. É semeado o germe de um debate intenso e profundo sobre a liberdade de religião e de consciência que foi desenvolvido por alguns filósofos do século XVIII e que, finalmente, inspirou os processos de democratização que ocorreu nas sociedades ocidentais durante os séculos XIX e XX.

(Versão atualizada do artigo de Sergio Baches Opi “Miguel Serveto. Anotaciones actuales sobre un proceso ignominioso”, publicado em Diario del Alto Aragón, domingo, 16 de junho, 2002, e na Revista Serrablo, Ano XXX, n º 118, Dezembro de 2000) .

At. 20.28

A redação de At. 20.28 diz: “Olhai, pois, por vós, e por todo o rebanho sobre que o Espírito Santo vos constituiu bispos, para apascentardes a igreja de Deus, que ele resgatou com seu próprio sangue.”(ACF)

O que está em causa aqui é o final do verso, cuja leitura dá a entender que Deus tem (ou teve) sangue , e isso só poderia ser cogitado, se aplicado a Cristo, dizendo que a humanidade de Jesus é a própria Deidade.

Assim, aqui existem, pelo menos, duas questões:

1) A humanidade de Jesus é também deidade? Ou seja, Jesus é de única natureza, de tal modo que o sangue não é do homem Jesus, mas de Deus? Será que a deidade se transformou em carne também e vice-versa?

2) A expressão “seu próprio sangue” pode significar outra coisa que não uma relação de identidade direta?

A primeira é menos provável se tomarmos a Bíblia em seu sentido amplo, pois além de descaracterizar quem é Deus, anularia o sacrifício de Cristo: um humano resgatando a humanidade (o segundo Adão), assim como um humano fez cair a humanidade (o primeiro Adão). Rm. 5.14 mostra que foi o homem Jesus, enviado pela graça de Deus que verteu o seu sangue.

Em favor da segunda opção temos o resto da Bíblia, que nos informa que Deus é Espírito (Jo. 4.24) e que um espírito não tem carne e ossos, consequentemente não tem sangue (Lc. 24.39)
Assim, sangue é algo físico, inerente à matéria. Nesse sentido, o sangue de Deus, não pode significar que Deus tem sangue, mas que o sangue pertence a ele.

Além do mais, se o sangue em At. 20.28 é o sangue das “veias” de Deus, isto significaria inapelavelmente que Deus morreu, já que foi esse sangue que teria sido vertido na cruz, mas as Escrituras dizem: I Tm. 1.17 “Ora, ao Rei dos séculos, imortal, invisível, ao único Deus, seja honra e glória para todo o sempre. Amém.” O IMORTAL não morre. Se um dia o IMORTAL morreu não era, então, de fato, IMORTAL, pois pôde morrer, provando sua mortalidade. Deus não poderia ter dado “seu próprio sangue” e não ter sido considerado MORTO. Mas, isso tornaria falso I Tm. 1.17.

Mas, será que existe apoio linguístico para a acepção de que o sangue pertence a Deus, sem ser o sangue do próprio Deus em si? Sim, existe! A expressão “διὰ τοῦ ἰδίου αἵματος” pode ser entendida de duas formas: a)atributivamente, que é como a maioria dos trinitários entendem; ou b) possessivamente, significando que o sangue é de alguém que pertence a Deus. Isso tem apoio do resto da Bíblia que apresenta Deus e Jesus como seres distintos, não apenas pessoas distintas!

As escrituras dizem: “Corpo me preparas-te” (Hb. 10.5). A epístola aos hebreus deixa claro que Deus preparou um corpo não para si próprio, mas para outro. O verso 7 dessa mesma epístola mostra, mais uma vez de forma clara, que quem adquiriu o corpo não foi Deus, mas alguém disposto a fazer a vontade de Deus.

O contexto onde esse verso de Atos está inserido fala, no mesmo capítulo, de Deus e de Jesus em distinção várias vezes: At. 20.21,24,27. O fluxo do texto não leva os leitores a acreditarem que Jesus é o mesmo Deus de quem aparece em distinção recorrentemente.

Apoio de trinitaristas! O entendimento de não tratar-se do “sangue de Deus” não é exclusividade dos unitarianos. É uma constatação lógica do texto bíblico. Basta lembrarmos que a palavra “Deus” ocorre certa de 1.340 vezes. Note 1.340 vezes. Desta milhar e algumas centenas apenas raras, realmente raras vezes o termo é aplicado, em teoria, a Jesus (talvez umas 6). E todas essas escassas vezes o texto não está livre de apuração. E At. 20.28 é um caso típico!

O PhD Dr. Murray J. Harris que é professor emérito de exegese do Novo Testamento e teologia na Trinity Evangelical Divinity School, em Deerfield, Illinois, diz em seu livro  “Jesus como Deus – O uso Theos no Novo Testamento, em referência a Jesus”  (Grand Rapids: Baker Book House, 1992), 141: “nesta construção de ίδιος é mais provável que θεός é Deus, o Pai e o objeto não expresso de περιεποιήσατο é Jesus”. Ou seja, mesmo os que defendem Jesus como Deus reconhecem que o texto não pode se referir ao sangue do Deus que é Espírito, mas pertencer a ele, através do Filho que é dEle.

Há uma variante grega, usada na USB, que traz a parte final do verso assim: “διὰ τοῦ αἵματος τοῦ ἰδίου”. Literalmente se traduz: “com o sangue de seu próprio”. Há uma expressão similar em Rm. 8.32 onde encontramos “τοῦ ἰδίου υἱοῦ” (seu próprio Filho). Já vimos que a outra variante pode ser usada tanto atributivamente como possessivamente. Então se houvesse apenas ela a possessividade já era constatável. Mas, esta mostra diretamente a possessividade, o que permite concluir que o texto fala do sangue do Filho. Esse uso não é estranho. Matzger em “Um Comentário Textual em grego do Novo Testamento”, 2 ª ed. (Stuttgart: Sociedades Bíblicas Unidas, 1971.), 426,  diz: “Este uso absoluto de ‘idios’ é encontrada em papiros gregos como um termo carinhoso referindo-se a parentes próximos”.

A Bíblia de Jerusalém, que é uma bíblia produzida por católicos e protestantes, assim verteu o verso: “nele o Espírito Santo vos constituiu guardiães, para apascentardes a Igreja de Deus, que ele adquiriu para sipelo sangue do seu próprio Filho. Assim também entenderam os tradutores católicos e trinitários da versão da CNBB: “o Espírito Santo os constituiu como guardiães, para apascentarem a Igreja de Deus, que ele adquiriu para si com o sangue do seu próprio Filho. Outra versão protestante, logo, feita por trinitarianos, NTLH apresenta o verbo com a redação: “o Espírito Santo entregou aos seus cuidados, como pastores da Igreja de Deus, que ele comprou por meio do sangue do seu próprio Filho.”.

Nota-se com isso que, seja católico, seja protestante ou, ainda, os dois juntos, os tradutores não tem dificuldades em perceber que ali não se trata do sangue de Deus em si.

Logo,  o entendimento unitariano que vê em At. 20.28 a Bíblia falar do sangue que pertence a Deus porque o Filho pertence a ele, tem apoio não somente do ponto de vista bíblico (Rm 8:32 “Aquele que nem mesmo a seu próprio Filho poupou, antes o entregou por todos nós, como nos não dará também com ele todas as coisas?“), mas linguístico e exegético, refletido em reconhecidas traduções bíblicas e renomados exegetas trinitários. Claro, só a Bíblia já bastaria, mas essas informações extras são só para mostrar que esse entendimento não é exclusivdo do unitarianismo.

II Pe. 1.1

II Pe. 1.1 Simão Pedro, servo e apóstolo de Jesus Cristo, aos que conosco alcançaram fé igualmente preciosa pela justiça do nosso Deus e Salvador Jesus Cristo.

Este é mais um dos versos, a exemplo de Tt. 2.13, que tentam buscar como comprovação da suposta deidade de Jesus. Traduções com redações semelhantes tem sido usadas com esse fim, mas é oportuno dizer que não existe unanimidade na tradução do versículo. Por exemplo, a versão católica da Bíblia Sagrada da Editora Ave Maria traduziu: “Simão Pedro, servo e apóstolo de Jesus Cristo, àqueles que, pela justiça do nosso Deus e do Salvador Jesus Cristo, alcançaram por partilha uma fé tão preciosa como a nossa”. Reconhecendo Deus e o Salvador como seres distintos. Mesmo a Bíblia de Jerusalém que é uma tradução feita por católicos e protestantes, ainda que vertendo o trecho de forma tradicional, informa como primeira nota de roda pé a II Pe. 1.1 a versão alternativa de tradução: “Ou: de nosso Deus e do Salvador Jesus Cristo”. Mostrando ser possível as duas versões.

Uma comparação desse verso de II Pedro com outro trecho das Sagradas Escrituras suscitam algumas indagações. Notemos os originais abaixo:

τοῦ θεοῦ ἡμῶν καὶ κυρίου Ἰησοῦ Χριστοῦ. (II Ts. 1.12)

τοῦ θεοῦ ἡμῶν καὶ σωτῆρος Ἰησοῦ Χριστοῦ (II Pe. 1.1)

A única diferença entre esses versos, nesses trechos, não é gramatical. Apenas consta “kyrios” onde na outra consta, exatamente na mesma posição, sôtêros.

Mas, o tradutor verteu de forma diferente, dando sentido diferentes aos versos:

“de nosso Deus e do Senhor Jesus Cristo” (II Ts. 1.12) ACF

(aqui se identifica dois personagens e suas respectivas qualidades)

“do nosso Deus e Salvador Jesus Cristo” (II Pe. 1.1) ACF

(Aqui se identifica um personagem com duas qualidades)

Em linhas simples, poderíamos nos perguntar porque não colocaram o “DO” em II Pe. 1.1, como fizeram em II Ts. 1.12, já que a estrutura é a mesma. Note que se lermos o v.2 de II Pe. 1:“pelo conhecimento de Deus, e de Jesus nosso Senhor”, o apóstolo parece mostrar de forma clara que ele não quis apresentar Jesus como Deus e Salvador ao mesmo tempo no v.1, pois o distingui na sequência imediata no v.2.

Em linhas complexas, a reivindicação de Jesus ser apresentado como Deus e Salvador em II Pe. 1.1 é a mesma de Tt. 2.13 e tem a ver com uma regra inventada (o seu autor diria descoberta) por um inglês, pelos idos de 1800 d.C, chamado Granville Sharp. É mais ou menos como se um inglês declarasse haver descoberto uma regra de sânscrito que nem mesmo os autores dos remotos vedas e os estudiosos daquela língua sonhavam existir. Ou seja, Sharp e seus defensores acreditam ter achado algo que nenhum gramático de grego da antiguidade, em quase 3.000 de origem da língua, postulou.

A suposta regra é, basicamente, o seguinte: Artigo + Substantivo + KAI + Substantivo, indicaria que os dois substantivos se referem a mesma pessoa. Isso é a primeira regra dele (existem seis).

O problema é que se for tomada apenas assim, logo surgem problemas para sua aplicação, porque existiriam uma miríade de exceções que descaracterizaria a regra. Então, ele acrescentou à definição várias restrições: Se um ou os dois substantivos forem plurais a regra pode não se aplicar. Se for nomes próprios, por questões óbvias, a regra não se aplica. Se for referentes a coisas ou lugares a regra não se aplica, Se for numerais não se aplica. Se for plurais semânticos pode não se aplicar e segue um lista de não aplicação.

Na verdade todo o esforço de listar as supostas exceções que são variadas e numerosas é para excluir os invalidadores da regra e tentar mantê-la viva, pois caso contrário cada um desses impedimentos a derrubaria. O problema é que tentaram por em regra aquilo que se define pelo contexto. Isso se percebe porque se plurais, inclusive os semânticos, lugares, nomes próprios e etc, não se encaixam, a razão é simples; pelo contexto se percebe que não poderiam ser a mesma pessoa ou grupo, então, não é a suposta regra quem determina isso.

Depois de toda restrição, pegam as ocorrências onde a “regra” parece funcionar, digo parece, porque depois que se tira todas as exceções possíveis e imagináveis, realmente sobra os casos onde a “regra” parece funcionar, e a apresentam. Em outras palavras, criaram uma “regra” extremamente restrita e com finalidade específica (eu diria Ad hoc): Tentar provar a deidade trinitária de Jesus.

Sharp não esbarrou em uma regra que ninguém antes dele, nos milhares de anos da língua grega havia achado, ele estava procurando um meio de legitimar o dogma da trindade através da gramática, porque não há afirmação bíblica sobre a trindade. Assim, não há imparcialidade na redação da “regra”. Todas as flagrantes objeções linguísticas são postas fora do escopo para tentar legitimá-la.

Mas, ainda que se use a “regra” em seu sentido mais restrito (no “só para isso”), a gosto de seus depuradores, ainda assim, há exceções: Pv. 24.1 (LXX) é um dos casos bíblicos, mas há também na literatura externa. Ou seja, é uma base insegura para se definir aquilo que se deve definir pelo contexto. Certamente ninguém precisa de uma regra para traduzir “ὁ θεὸς καὶ πατὴρ” (II Co. 1.3), que está no arranjo “artigo” + “substantivo” + KAI + “substantivo” por “O Deus e Pai” se referindo ao Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo. Não seria uma regra que indicaria ali que os dois substantivos se referem ao mesmo ser. Ninguém antes de 1800 usou a “regra” (ela não existia) e ninguém se confundiu com essa tradução e outras passagens em uma suposta construção Sharp.

Aqui podemos falar também da questão semântica, que é outro problema da regra. Ainda sobre II Co. 1.3: Pai já é uma referência comum a Deus, de modo que ainda que tentem colocar expressões como essa sob a regra, ela é inócua e desnecessária e o texto não depende dela para ser compreendido, pois se elenca designações já conhecidas. É justamente a questão semântica que faz alguns defensores da regra de Sharp admitir correta a tradução “de nosso Deus e do Senhor Jesus Cristo” em II Ts. 1.12, pois consideram ai a palavra “Senhor” como parte de um nome composto como “Senhor Jesus Cristo”, ou seja, nome próprio composto, o que faria a expressão sair do escopo da regra. Nesse ponto a suposta regra adquire alguma subjetividade, pois “Salvador” também pode ser considerado parte de um nome composto em “Salvador Jesus Cristo”. Essa “particularidade” semântica, ao que parece, é desconhecida pelos mais dedicados apologetas trinitários aqui do Brasil. E essa questão é mais um problema que torna a tal regra insegura, incerta e não aproveitável para o fim ao qual foi criada, pois se considerarmos “Salvador Jesus Cristo” como um termo técnico, um nome próprio composto, a regra deixa de ser aplicável tanto a II Pe. 1.1 quanto Tt. 2.13. A própria expressão “Grande Deus” em Tito, pode ser um termo técnico de identificação da Divindade (Ed. 5.8, Ne.8.6, Dn. 2.45, Ap. 19.17), que também anularia a aplicabilidade da regra ali. E se admitirmos que a palavra “Deus”, de fato, em vários casos adquiri o status de nome, então, não devemos confiar na “regra” por mais de uma razão.

Mas, mas mesmo que admitíssemos os postulados de Sharp como regras válidas, os trinitarianos ao tentar ganhar uma suposta evidência da deidade de Jesus perderiam outras. A sexta regra, por exemplo, elaborada por Sharp, apresenta uma situação ligeiramente modificada da primeira, ela determina que se houver uma construção: Artigo + Substantivo + KAI + Artigo + Substantivo, então, se referiria a pessoas diferentes. Se as regras dele fossem verdadeiras e legítimas, um trinitário ganharia II Pe. 1.1 como um verso que chama Jesus, na visão deles, de Deus e perderia outro que, na visão deles, chama Jesus de Deus, Jo. 20.28 “ὁ κύριος μου καὶ θεός μου”. O verso de João, “Senhor meu e Deus meu”, está exatamente na construção em que Sharp diria que são pessoas diferentes. Mas, nesse caso, providencialmente, ele e os trinitarianos admitem ser uma exceção à regra.

Os cristoteistas tem usado muito II Pe. 1.11 , cujo texto diz: “a entrada no reino eterno de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo”, como ponto base de convencimento de que se Jesus está sendo chamado de “Senhor e Salvador” nesse verso, deve estar sendo chamado realmente de Deus e Salvador em II Pe. 1.1, a partir do acolhimento da regra de Sharp, já que o v.11 tem a estrutura requerida (ASKS) por Sharp: “τοῦ κυρίου ἡμῶν καὶ σωτῆρος Ἰησοῦ Χριστοῦ”. Nesse texto, com relação a II Pe. 1.1, há apenas a substituição da palavra “θεοῦ” por “κυρίου”. No entanto, como já dissemos, o contexto deve determinar a tradução, não uma regra que se mostra falha em todas as instâncias. Até porque “nosso Senhor” em em II Pe. 1.11 pode se referir sem qualquer dificuldade a Deus e na segunda parte se referir a Cristo. Isso se vê confirmado em um versículo que também fala de REINO: “Os reinos do mundo vieram a ser de nosso Senhor e do seu Cristo” (Ap. 11.15). Ainda que haja artigo antes de “Senhor” e antes da palavra “Cristo”, o texto prova que Deus é também nítida e naturalmente chamado de “Senhor”, de modo que, em II Pe. 1.11 “Senhor” pode, sem dificuldades, se referir a Deus e o segundo personagem no verso é Jesus.

Por causa desses vários problemas a regra passou quase 200 anos, desde de sua criação, praticamente morta. Poucos davam crédito ou a citavam para tentar validar uma identidade de Jesus com a Deidade. O Dr. Daniel B. Wallace tentou ressuscitar a regra em uma tese de doutorado em 1995 chamada Sharps Redivivus. Nesse trabalho o Dr. Wallace precisou encolher a “regra” ainda mais, ante as provas contrárias, para tentar mantê-la viva. Mas, mesmo seu trabalho de doutorado já foi avaliado e a “regra” continua devendo, já que ele mesmo não conseguiu solucionar todos os problemas conhecidos.

Ainda outra questão é oportuna falar se tudo isso fosse ignorado. A partir de Jo. 1.1, não existe reservas em chamar Jesus de “Deus”. A questão será sempre em que sentido, relativamente a posição do Pai, a palavra polissêmica “Deus” é usada em aplicação a Cristo. Sabemos por Jo. 17.3, nas palavras de Jesus mesmo, que não pode ter o mesmo sentido. Como não tem o mesmo sentido quando é aplicada aos juízes, anjos, reis, governantes e até Moisés.

Tudo isso mostra que a escassez de provas sobre uma requerida igualdade entre Jesus e seu Deus é tão grande que o trinitarismo tem que criar suas próprias provas. Se a trindade fosse uma realidade bíblica, ter-se-ia provas cabais e explícitas, a ausência disto leva a esse caminho que Sharp tomou.

Bem, há outros detalhamentos, mas essa exposição, penso, já dá uma visão panorâmica das coisas que envolvem a passagem de II Pe.1.1 e os problemas da suposta regra.

Gn. 19.24 (Dois são Yahweh?)

Como existe uma ausência perceptível nas Escrituras de algum ensino formal sobre a trindade os defensores desse dogma buscam tentar materializar alguma prova a partir de certas passagens bíblicas. Uma delas é Gn. 19.24 que diz: “Então  Yahweh fez chover enxofre e fogo, de Yahweh desde os céus, sobre Sodoma e Gomorra”. Fazendo uso da leitura que Yahweh fez chover fogo da parte de Yahweh alguns alegam que Yahweh é pelo menos dois, e, no conceito trinitário, um estaria sobre a terra (o Filho pré-encarnado) e o outro no céu (o Pai em sua majestade), mas além disso não ser afirmado em lugar algum desse relato nas Escrituras, feriria frontalmente Dt. 6.4 que afirma que “Yahweh é um”. Mas, se Yahweh é um, como explicar o relato de Gênesis a partir da reinvindicação trinitária?

Como já foi falado antes, diante da ausência de qualquer elemento de ensinamento sobre uma trindade na Bíblia ou mesmo uma pluralidade em Deus, o caminho trinitário tem sido ler alguns versos sob uma ótica não bíblica. Uma ótica que já tem como pressuposto uma pluralidade, no entanto, a Bíblia tem elementos simples que mostram o engando dessa linha de pensamento.

Note Gn. 4.23 “E disse Lameque a suas mulheres Ada e Zilá: Ouvi a minha voz; vós, mulheres de Lameque, escutai as minhas palavras”. Embora o relato registre que Lameque tenha dito para suas mulheres ouvirem a voz de Lameque, ao invés de “minha voz” referindo-se a ele, ninguém é movido a entender que haja dois Lameques. Uma leitura de Yahweh como sendo dois ou de dois Yahweh em Gn. 19.24 tem motivação externa, não a partir do texto em si.

Observe também 1Rs 12:21 “Vindo, pois, Roboão a Jerusalém, reuniu toda a casa de Judá e a tribo de Benjamim, cento e oitenta mil escolhidos, destros para a guerra, para pelejar contra a casa de Israel, para restituir o reino a Roboão, filho de Salomão.” Aqui, mais uma vez, embora se fale de Roboão como aquele que reuniu tropas para restituir o reino a Roboão, ninguém reivindica que haja dois Roboão(s) ou que um mesmo Roboão seja dois. Vide também Gn. 17.23.

Outro exemplo pode ser encontrado em I Rs. 8.1 “Então congregou Salomão os anciãos de Israel, e todos os cabeças das tribos, os chefes dos pais dos filhos de Israel, ao rei Salomão em Jerusalém; para fazerem subir a arca da aliança do Yahweh desde a cidade de Davi, que é Sião.” (LTT 2009). Na ACF consta “diante de si” mas deveria cosntar “ao rei Salomão”, fazendo constar duas vezes o nome do rei como está no original hebraico: 1Rs 8:1 “אָז יַקְהֵל שְׁלֹמֹה אֶת־זִקְנֵי יִשְׂרָאֵל אֶת־כָּל־רָאשֵׁי הַמַּטֹּות נְשִׂיאֵי הָאָבֹות לִבְנֵי יִשְׂרָאֵל אֶל־הַמֶּלֶךְ שְׁלֹמֹה יְרוּשָׁלִָם לְֽהַעֲלֹות אֶת־אֲרֹון בְּרִית־יְהוָה מֵעִיר דָּוִד הִיא צִיֹּֽון׃”

Digno de nota é que no relado de Gênesis 19 há o envolvimento do representante de Yahweh. De qualquer jeito a forma literária, como vimos, não aponta para dois Yahwehs ou que o mesmo Yahweh seja dois, mas se usa uma forma comum nos escritos bíblicos onde ao invés da aparição de um pronome após o uso de um nome, há uma recorrência do nome sem que isso signifique que o mesmo nome se refira a mais de um.

A Peshitta prova que Jesus é Yahweh? (parte 1)

Parte 1

Seja pela via trinitária, seja pela via unicista muitos procuram estabelecer, de alguma forma, uma identidade única para o Pai e o Filho. O primeiro grupo para afirmar que embora sendo pessoas distintas são o mesmo Deus e o segundo para dizerem que são a mesma pessoa, logo, o mesmo Deus. Tem-se especulado, principalmente em meios unicistas, em tempos recentes, que a Peshitta apresenta a prova documental de que Jesus é Yahweh. Mas, uma observação é oportuna antes de comentarmos a suposta prova da identidade do Pai com o Filho: Ainda que se reconheça a Peshitta como uma antiga versão das Escrituras Sagradas, ela é uma versão, e isto é provado pelo fato de o Tanakh ter sido originalmente escrito em hebraico, não aramaico e assim como a Septuaginta é toda em outra língua e reflete influências e adaptações textuais como toda versão. Os analistas da Peshitta reconhecem que nela há traços dos Targums Aramaicos, e da própria Septuaginta, pois há trechos que não seguem o texto hebraico, o que prova sua posteridade. Alguns reconhecem a Peshitta da Brit Chadasha (Peshita do Novo Testamento), como uma produção independente e também mais tardia do que sua composição do Antigo Testamento. Logo, ainda que antiga, não é cópia exata do original, mas traz em seu bojo as influências das épocas em que foram traduzidos (Antigo e Novo Testamento) para o aramaico. O próprio texto não reflete a escrita aramaica da era pré-cristã, período da construção histórica do Tanakh, nem do usado no primeiro século, época histórica da Brit Chadasha (Novo Testamento).

O siríaco, vertente do aramaico em que se encontra escrita a Peshitta que se tem hoje, ainda que antigo enquanto língua não se popularizou enquanto escrita senão a partir do III século. E a própria Bíblia Peshitta não é anterior ao IV século. Logo, mesmo que se possa presumir ou reconhecer que tenha havido uma versão aramaica do II século, os manuscritos que se dispõem datam do IV e V séculos, e se apresentam no siríaco tardio, dialeto aramaico que se popularizou como língua de literatura mais de trezentos anos depois de Cristo, principalmente na região de Edessa. Portanto, como todos os demais manuscritos da Bíblia, principalmente os do Novo Testamento, o texto aqui e ali pode apresentar possíveis preferências de fé ou mesmo falhas dos copistas como ocorre também nas cópias gregas.

A afirmação de que Yahweh e Jesus são a mesma pessoa ou o mesmo Deus parte, basicamente, além dos versículos comumente usados pelos unicistas, sejam protestantes ou messiânicos, do uso da palavra aramaica “Marya” (em caracteres hebraicos מריא) que significa Senhor. Ainda que no messianismo hajam as três linhas: unitarismo, unicismo e trinitarismo. Essa palavra tem sido considerada pelos defensores dessa linha de pensamento como um substituto estrito do Nome Sagrado YHWH na Peshitta Tanakh (Peshitta do Antigo Testamento) e, de fato, em praticamente todas as ocorrências do Tetragrama os tradutores dessa versão usaram “Marya” como substituto, e, por isso, quando essa mesma palavra aparece aplicada a Jesus nessa versão das Escrituras é interpretado como uma confirmação de identidade de Jesus com sendo Yahweh. Mas, existem aqueles que não veem esse sistema de identificação como um procedimento seguro para esse tipo de reconhecimento.

Duas questões precisam ser definidas. Primeiro: Será que Marya é a forma aramaica para Yahweh? Ou, será Marya o substantivo aramaico intensivo que significa “senhor” e serviu como substituto não equivalente do Tetragrama na Peshitta, assim como Kyrios o foi na Septuaginta grega?

Os questionamentos surgem a partir da própria transliteração adotada, pois quem defende que Jesus é Yahweh por esses moldes unicistas, costuma transliterar מריא como “Maryah”, alguns chegam mesmo a escrever “MarYah” ou “Mar-Yah” com o “Y” maiúscula e um “h” no final, o que produz uma associação visual com a costumeira transliteração do Nome Sagrado, a partir do hebraico, já que a forma abreviada de Yahweh (hebraico) é Yah, como no Sl. 68.51. Esse tipo de transliteração aproveita uma particularidade da escrita moderna que é a capitulação, ou seja, maiúscula e minúscula, quando sabemos não haver existido capitulação no aramaico, assim como não havia do hebraico ou mesmo do grego da época bíblica. De qualquer forma מריא é escrito com “א” (álap) no final, não com “ה”. Então, a transliteração correta é “marya”. Mesmo que “יא” possa eventualmente, em aramaico, aparecer em composição com nomes teofóricos, não se pode dizer que todas as palavras terminadas “יא” queiram representar a forma abreviada da substituição do Nome Sagrado. Outro detalhe é que a transliteração “MarYah”, assim escrita, denuncia explicitamente que ela é uma palavra criada pelos tradutores, composta de Mar + Yah, mas tal junção não é reconhecida por nenhum dicionário de aramaico. Marya é uma forma real e existente dentre as várias construções possíveis oriundas da raiz “mr” (mar). Marya é a forma intensiva da palavra Senhor, e assim como Adonay é um plural. Além do mais, abundam provas de que nem sempre uma palavra terminada com agrupamento “יא”, em aramaico, representa a abreviação sugerida para o Nome Sagrado. “יא” é desinência plural de muitas palavras em aramaico, fora as palavras que mesmo terminando “יא” nem representam o nome, nem são plurais. Por conta disso o estabelecimento da relação de uma suposta construção de Marya a partir de “mar” com Yahweh, partindo da forma abreviada deste última, precisa ser criteriosamente verificada.

Há que ser notado que se “ya” em “marya” fosse a abreviação “Yah” e fizesse parte dessa palavra, então, essa parte não poderia estar ausente nas variações de “marya” ou de “mar”, no entanto temos maraya, maray, marawan, maran, mareh, marawhy, mara, mareyeh, marhwn e etc. Como já foi dito, há um grande número de substantivos masculinos em aramaico que terminam em “יא” (ya) tais como “rawaya” = bêbado, claro que não podemos presumir “O Bêbado Yahweh” ou “o Bêbado Yah” ou “shatya” = tolo, certamente não será “O Tolo Yah”. Some-se a isso o fato de que se ao traduzir a Bíblia para o aramaico os tradutores preservaram YAH (parte do Nome Sagrado) para fazerem uma composição com “Mar” e aplicá-la quase 7.000 vezes? Por que não mantiveram todo o Tetragrama em vez de sua abreviação que ocorre algumas poucas vezes no texto hebraico? Por que transformariam a abreviação em ocorrência principal e aniquilariam a forma completa do nome? Por que não escreveram, se a palavra fosse uma composição de “mar” com “Yahweh” “MarYahweh”, ou ainda, porque não aparece no texto aramaico pelo menos uma ocorrência dessa forma completa, ao invés de uma suposta forma sempre abreviada?

Factualmente o argumento que parece dar vida a ideia de que Marya identifique Jesus como sendo Yahweh é o fato de na Peshitta Tanakh essa palavra ter servido como substituto sistemático do tetragrama “YHWH” e existirem ocorrências na Peshitta Brit Chadasha da palavra sendo aplicada a Jesus, no entanto, isso não deveria dar alguma especialidade a palavra além daquela que vemos também em Kyrios, título substituto do tetragrama na Septuaginta (versão grega do Tanakh) e no NT grego. O que se pode perceber é que na Peshitta AT os tradutores quiserem preservar a identificação no lugar onde havia ocorrências do Tetragrama através de uma forma fixa de uma palavra aramaica que significa “Senhor”, mas foram além e verteram inclusive outras palavras por Marya.

“Yah” – “Cantai a Deus, cantai louvores ao seu nome; louvai aquele que vai montado sobre os céus, pois o seu nome é Yah (marya), e exultai diante dele.” Sl. 68.4

“Adonenu” – “Disse-lhes mais: Ide, comei as gorduras, e bebei as doçuras, e enviai porções aos que não têm nada preparado para si; porque este dia é consagrado ao nosso Senhor [hebraico – Adonenu / aramaico – marya]; portanto não vos entristeçais; porque a alegria doYHWH [marya] é a vossa força.” Ne. 8.10.

“Adon” – “Treme, terra, na presença do Senhor [em hebraico – adon / aramaico – marya], na presença do Eloah de Jacó.” Sl. 114.7

Eis que eu envio o meu mensageiro, que preparará o caminho diante de mim; e de repente virá ao seu templo o Senhor [em hebraico – adon / aramaico – marya], a quem vós buscais; e o mensageiro da aliança, a quem vós desejais, eis que ele vem, diz o Yahweh dos Exércitos.” Ml. 3.1.

“Adonay” – “Ah! Senhor [hebraico – adonai / aramaico – marya], estejam, pois, atentos os teus ouvidos à oração do teu servo, e à oração dos teus servos que desejam temer o teu nome; e faze prosperar hoje o teu servo, e dá-lhe graça perante este homem. Então era eu copeiro do rei.” Ne. 1.11

“Elohim” – “Firmemente aderiram a seus irmãos os mais nobres dentre eles, e convieram num anátema e num juramento, de que andariam na lei de Elohim [marya], que foi dada pelo ministério de Moisés, servo de Elohim [marya]; e de que guardariam e cumpririam todos os mandamentos do YHWH [marya] nosso Senhor [maran], e os seus juízos e os seus estatutos;” Ne 10.29.

Visto que, ante as evidências, não há como estabelecer que Marya deva ser lido MarYah, como se fossem um agrupamento de uma palavra aramaica com outra hebraica, ou que Yah deva ser entendido como um complemento de nome à raiz “mar”, fica pendente a segunda pergunta: Marya é um substantivo aramaico que serviu como substituto do Tetragrama? Podemos dizer que sim, dada as suas ocorrências com essa característica, ainda que não 100% uniforme já que palavras como Adon, Adonay, Elohim e a própria abreviação Yah são, por vezes, substituídas por Marya! Dai surge a questão da ocorrência dessa palavra na Pashitta do Novo Testamento e sua aplicação com a pessoa de Jesus Cristo. Será que em se aplicando essa palavra a Jesus se estabelece uma identificação entre ele e Yahweh como sendo o mesmo ser?

É fato curioso que os tradutores da Peshitta Tanakh tenham procurado ao máximo substituir o Tetragrama por Maya, chegando mesmo a verter até títulos aplicados a Yahweh por Maya, mas não tenham seguido o mesmo rigor de uniformidade na aplicação dessa palavra a Jesus quando produziram o NT. Talvez pelo fato de terem sido grupos diferentes, como já foi dito, que produziram a Peshitta que hoje temos em mãos ou talvez porque a exclusividade que deram a Marya no Antigo Testamento não tenha sido transportada para o Novo Testamento. Note-se que a expressão “Senhor Jesus” ocorre no Novo Testamento 119 vezes se tomarmos como base o TR e um pouco menos se tomarmos o TC do NT Grego como base. Isto se considerarmos “Senhor” no conjunto “Senhor Jesus”. Se considerarmos apenas a palavra “Senhor” isoladamente, mas se referindo pelo contexto a Jesus, e agregarmos a essas o número aumenta substancialmente, pois a palavra “Senhor” ocorre no NT cerca de 750 vezes, dessas um pouco mais de 200 é de fácil identificação como se referindo a Yahweh, o Pai (como, por exemplo, nas referências à passagens do Antigo Testamento). Se excluirmos as ocorrências aos senhores terrenos, sobram, então, aproximadamente 500 ocorrências que se aplicariam a Jesus. No entanto, em apenas cerca de 30 ou um pouco mais, os escritores da Peshitta usaram “marya” referenciando Jesus. Se para os elaboradores da Peshitta Jesus era indubitavelmente Yahweh e a Peshitta substituiu todas as ocorrências do Yahweh no Antigo Testamento por Marya, qual a razão para não usarem também de forma sistemática e uniforme a palavra quando Jesus fosse referenciado como “Senhor”? Ou mesmo por que não trocar o nome Jesus por Marya, se esta era a forma de identificação do nome de Deus naquela versão da Bíblia?

Como já dissemos os grupos que produziram a Peshitta do A.T e a do N.T muito provavelmente não foram os mesmo. A atual versão que dispomos é a junção desse trabalho.

O detalhe importante que parece ser ignorado nesse processo de tentativa de identificação de Jesus como sendo Yahweh pela via da aplicação de Marya nos textos aramaicos é o contexto teológico do período de sua produção, mas especificamente da produção do N.T no dialeto siríaco. Já no séc. II haviam muitas facções originadas daquela fé pregada pelo Nazareno. Existiam os de linha judaica que consideravam Jesus um homem: O messias enviado a terra. Outros judeus e não judeus de linha Gnóstica, que Deus gerava ou emanava divindades e Jesus era uma dessas divindades geradas. Outros que entendiam que Jesus era o próprio Deus em carne, mas não o mesmo que o Pai, e outros ainda que admitiam Jesus como encarnação de Deus e era, achavam eles, em certo aspecto, o próprio Pai. Esta última impostação se tornou muito popular, é a antecessora do dogma trinitário e já no séc. III havia agregado o Espírito Santo como a terceira manifestação, não outra pessoa, desse Deus. O chamado modalismo havia alcançado Roma, Asia Menor, Síria e Egito. Isto significa dizer que na época da produção da cópia da Peshitta da qual se dispõe hoje, já existia um distanciamento grande, nesse aspecto, das raízes verdadeiramente judaicas iniciais do cristianismo. Assim, o conceito de que Jesus e Deus, seu Pai, não eram duas pessoas, mas o mesmo e único Deus já havia chegado às regiões de produção da Pashitta do NT. Não é difícil ponderar, até pela falta de uniformidade e escassez de uso da palavra Marya aplicada a Jesus, em contraste com o grande volume das ocorrências que chamam Jesus de Senhor (onde deveríamos esperar também Marya), que o copista tenha colocado ali a palavra sem a devida firmeza, já que de 400 ocorrências da palavra Senhor referindo a Cristo, ele teria usado Marya apenas em cerca de 30; ou que tal copista já estava inclinado ao chamado modalismo, que se caracterizava justamente pela crença de que Jesus e Deus, seu Pai, eram o mesmo Deus, logo o mesmo Marya, mas não eram pessoas diferentes.

Veja a parte 2 AQUI

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1No Sl. 68.5 a Peshitta Tanakh traz “marya” não apenas “Ya” provando que “marya” não é um substituto estrito da palavra “Yahweh” e que os elaboradores da Peshitta não fizeram uma tradução estritamente de equivalência formal.

Zc. 11.12,13: Quem foi avaliado, Yahweh ou Jesus?

Quem foi avalidado por 30 moedas, Yahweh ou Jesus?

Antes de mais nada devemos considerar que esse tipo de declaração encontrada em Zc. 11.12,13 não é uma asseveração de identidade. Nem mesmo um comparativo literal, pois aqui se mostra detalhamentos que não ocorreram dessa mesma forma no ato da traição de Judas. Por isso devemos ficar atentos e fazermos uma leitura mais apurada.

Um olhar sobre o contexto nos leva a considerar o que está dito no verso 4: “Assim diz Yahweh meu Deus: Apascenta as ovelhas da matança”. Aqui há claramente três personagens: Yahweh; as ovelhas da matança e aquele a quem a palavra foi dirigida: um pastor que apascentaria as ovelhas da matança (representado na pessoa do profeta). O contexto mostra um trabalho conjunto feito por um representante (o profeta/pastor) e o representado (Yahweh). Veja que a fala sobre as varas citadas a partir do verso 7 pode muito facilmente ser confundida como se fosse palavras diretas de Yahweh, mas é, na verdade, apenas o profeta seguindo a orientação do verso 4. No v.4 Yahweh ordena “Apascenta” e no verso 7 o profeta obedece: “Eu, pois, apascentei”. A prova que, de fato, é o profeta desempenhado sua incumbência de pastor determinada por Yahweh, se vê nos versos 14 e 15 “Então quebrei a minha segunda vara União, para romper a irmandade entre Judá e Israel. 15 E  Yahweh disse-me: Toma ainda…” (nesse momento Yahweh lhe dá mais uma missão, quando diz “Toma ainda…”, além daquela que culminou no quebrar da vara “Únião”).

Agora leiamos o texto a partir do 11 que diz: “E foi desfeito naquele dia; e assim conheceram os pobres do rebanho, que me respeitavam, que isto era palavra do SENHOR.” Aqui se vê novamente, três personagens: os pobres do rebanho; o que foi respeitado porque reconheceram estar nele a palavra do terceiro personagem: Yahweh. Só então vem o verso 12 “Porque eu lhes disse: Se parece bem aos vossos olhos, dai-me o meu salário e, se não, deixai-o. E pesaram o meu salário, trinta moedas de prata.” Este verso está conectado ao verso 11, ou seja, o profeta requer a avaliação de seu trabalho (trabalho este incumbido por Yahweh) e foi esse trabalho que fez com que “os pobres do rebanho” o respeitassem e que esse trabalho decorria da palavra de Yahweh. Notemos que há uma associação entre a obra do profeta e a determinação de Yahweh. Essa obra do profeta foi avaliada em 30 moedas; logo, como a determinação foi de Yahweh, uma coisa se atrela a outra, mas não cria uma identidade de substância entre Yahweh e o profeta. Veja que é Yahweh mesmo que diz ao profeta (pastor) “Arroja isso ao oleiro”.

Parece que a confusão toda está em uma única expressão “FUI AVALIADO”, mas o texto nesse ponto precisa ser contextualizado. Quem foi avaliado, Yahweh ou a obra do “apascentador das ovelhas da matança”? Bem, contextualmente, principalmente os versos 11 e 12 dizem: “E foi desfeito naquele dia; e assim conheceram os pobres do rebanho, que me respeitavam, que isto era palavra de Yahweh. 12 Porque eu lhes disse: Se parece bem aos vossos olhos, dai-me o meu salário e, se não, deixai-o. E pesaram o meu salário, trinta moedas de prata.” indicam que foi a obra que o tornou digno das 30 moedas. Veja que o trabalho daquele apascentador foi determinado por Yahweh e é por isso que ele reconhece que a avaliação do trabalho do apascentador é a sua (Obs.: isso se considerarmos que não há um ponto e sim uma vírgula após a palavra “oleiro” v.13 [em hebraico não havia pontuação], pois se for um ponto final, seria nesse trecho o profeta falando e não Yahweh falando). De qualquer forma é fácil notar que há sempre dois personagens distintos e que um não é o outro. Um é o enviado (o representante) e o outro aquele que enviou (o representado). Ou seja, se você lê-los a partir de 11.11 terá uma impressão diferente do que se ler apenas a partir do verso 12.

Assim, parece-me claro que aquele cujo trabalho foi avaliado em 30 moedas de prata foi aquele descrito no verso 11 e a expressão “fui avaliado” do verso13 se refere a ele ou a obra conjunta dos dois, ou apenas a execução da obra, no caso o ato de apascentar e isso indicaria o profeta como avaliado.

A desconsideração da existência real da representação faz com que a linha trinitária sempre procure ver que o representante é o representado, para tentar criar uma linha de identidade entre Yahweh e Jesus. Mesmo que em Zc. 11 houvesse uma identificação de Yahweh sendo avaliado em 30 moedas, precisaríamos levar em consideração outros fatores. Veja, por exemplo, dois versos, que sempre é oportuno de citar, para mostrar que a mera conjugação de identidade motivada por uma única ação, conforme prefere entender a linha trinitária, é equivocada:

24.1 “E a ira do Yahweh se tornou a acentuar contra Israel, e incitou a Davi contra eles, dizendo: Vai numera a Israel e a Judá

I Cr 21.1 “Então Satanás se levantou contra Israel, e incitou Davi a numerar Israel.”

Yahweh é Satanás mesmo? Clara e gritantemente a resposta será NÃO. Mas, a linha trinitária, diria “SIM” se os versos envolvidos falassem de Yahweh e Jesus, ao invés de Yahweh e Satanás; ou seja, a linha interpretativa da dogmática trinitária forçosamente será desuniforme, sob risco de identificar Yahweh como sendo o próprio Satanás.

Perceba como esses versos são interessantes, pois por ele temos certeza de que mesmo que ali estivesse o nome Jesus (no lugar de Satanás), ainda assim seria precária a identificação de ambos como sendo o mesmo Deus. Se ali estivesse Jesus, seria difícil convencer um trinitário de que ele não era o próprio Deus, mas o fato de existir um versículo tal como este (com essa redação) mostra que quem dissesse que Yahweh era Jesus (se ali estivesse o nome Jesus) estaria imensamente equivocado, tanto quando estará aquele que disser que Yahweh é Satanás por causa daquela redação.

Por tudo isso, constata-se que não foi a pessoa de Yahweh que foi traído por 30 moedas de prata, mas o Senhor Jesus.

Is. 6.8 com Jo. 12.37

Isaías viu a glória dele. “Dele” quem?

O conjunto dos versos Is. 6.8-10; Jo. 12.37-41 e At. 28 tem sido reivindicado para afirmar que Yahweh é o “nome” dos três, ou seja, do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Mas vamos examinar mais de perto esses versos e seus contextos para vermos se isso se confirma.

O profeta Isaías é descrito nesses versos do capítulo 6 como o agente de Yahweh, respondendo positivamente a pergunta: “A quem enviarei, e quem há de ir por nós?” (v.8). As ações de Isaías produziriam no povo de Israel, de acordo com o v.10, o “engordar” do coração, o serem pesados de ouvidos e terem seus olhos fechados.

Olhemos agora para o que nos diz Jo. 12.38 do trecho reivindicado como uma identificação de Jesus com Yahweh: “Para que se cumprisse a palavra do profeta Isaías, que diz: Senhor, quem creu na nossa pregação? E a quem foi revelado o braço do Senhor?” O primeiro registro que será feito por quem leu Is. 6.8-10 é a observação de que esse verso de João 12, não está em nenhum versículo daquele capítulo de Isaías e realmente não está porque é citação capítulo 53 do mesmo profeta. A redação desse verso é importante quando diz: “Senhor, quem creu na nossa pregação?”, pois por ai dá para perceber que é uma exclamação dirigida ao SENHOR (Yahweh) e NÃO o próprio SENHOR falando. E João ao citar isso reconhece essa distinção de forma cristalina. Somente então é que o texto de João segue e cita o trecho de Isaías 6: “Cegou-lhes os olhos, e endureceu-lhes o coração, A fim de que não vejam com os olhos, e compreendam no coração, E se convertam, E eu os cure.” (Jo. 12.40). Aqui fica claro que o que representa aquele que faz a pergunta “SENHOR, quem deu crédito a nossa pregação” é aquele cujos efeitos da pregação revela os corações endurecidos e olhos cerrados, mas nenhum desses dois versículos escritos no Rolo do Profeta e citados por João, por si só, dão a entender aos leitores que Yahweh seja Jesus, pelo contrário já que em Is. 6 fala-se daquele que é o enviado de Yahweh e Is. 53 está descrito aquele que leva a pregação de Yahweh. Em ambas as passagens fala-se de um mensageiro de Yahweh, ou seja, nos dois casos se fala de mais de um personagem: Yahweh e outro que é o tipo de Cristo (o enviado). A linha trinitária ignora essa necessária percepção do verso, sem a qual sua plena compreensão fica prejudicada.

É fácil notar que o trecho reivindicado de João 12, então, ao apresentar duas citações de Isaías, fala de dois personagens nas duas citações, não apenas de um personagem! Não cita-se apenas Yahweh, mas, também aquele que seria seu mensageiro; o responsável por levar SUA pregação. O verso 40 ao dizer “Cegou-lhes os olhos, e endureceu-lhes o coração…”, não está falando de uma ação direta de Yahweh, na verdade fala do resultado da ação de Seu enviado, posto que em Isaías fala desse mensageiro como alguém que “Engorda o coração deste povo, e faze-lhe pesados os ouvidos, e fecha-lhe os olhos”. Quem nos dias da proclamação do Evangelho desempenhou esse papel? E Jesus também revela: “E ele, respondendo, disse: Eu não fui enviado senão às ovelhas perdidas da casa de Israel.” (Mt. 15.24)

Então, surge o verso 41 de João 12: “Isaías disse isto quando viu a sua glória e falou dele.”, cuja leitura apressada desfaz esse cenário que se fala de dois, como se o próprio Isaías fosse apenas um personagem passivo naquele episódio. Mas, é apenas a leitura apressada que fará destoar o verso de seu contexto. Percebamos que Jesus mesmo diz com suas próprias palavras: “E eu dei-lhes a glória que a mim me deste, para que sejam um, como nós somos um.” (Jo. 17.22). Então a expressão “viu sua glória” não força uma co-identidade. A unidade decorre do compartilhamento da Glória, e, a glória de um é a de todos com quem foi compartilhada. Ora, se a Glória que Jesus tinha provinha do Pai, então a Glória que se vê do Pai é também a Glória que se vê no Filho, porque não existem duas Glórias, mas uma única fonte de Glória e, conforme Jesus disse, é o Pai. Consideremos, então, o contexto bíblico e indaguemos: Será que o texto de João, em estudo, está falando do Trono, dos Querubins e daquele que estava assentado no Trono e etc? Ou está falando clara e objetivamente do outro personagem envolvido em Isaías, o responsável pela pregação e que é aquele que pergunta: “… Quem deu crédito a nossa pregação?…” e cuja pregação “Engorda o coração deste povo, e faze-lhe pesados os ouvidos, e fecha-lhe os olhos; para que ele não veja com os seus olhos, e não ouça com os seus ouvidos, nem entenda com o seu coração, nem se converta e seja sarado”. Então, cabe a pergunta: Se João quisesse dizer que Jesus é Yahweh (O SENHOR) que estava assentado no Trono, então, quem era o outro personagem refletido como anunciador e a quem o restante do contexto faz referência?

A expressão “falou dele”, certamente recai sobre o anunciador das boas novas, que diga-se de passagem é o agente descrito no Evangelho de João nesses versos e é justamente aquele que leva as palavra de Yahweh, conforme descrito em Isaías. É comum dentro do contexto profético o profeta predizer o fato futuro e facilmente ser associado como sendo ele mesmo o presonagem da profecia; isso é visto nesse caso e confirmado em At. 8.34, onde mais uma vez cita-se Isaías: “E, respondendo o eunuco a Filipe, disse: Rogo-te, de quem diz isto o profeta? De si mesmo, ou de algum outro?” Felipe ao revelar que ali se falava de outro, não do profeta, mostra que o anunciador das boas novas apontava para Cristo e portanto distinto, não somente numericamente, tanto daquele profeta quanto distinto de Yahweh que o enviou.

Nesse mesmo contexto de Jo. 12, nos versos 44 e 45, mais uma vez Jesus de forma clara e taxativa se admite como o representante do Pai, Yahweh: “E Jesus clamou, e disse: Quem crê em mim, crê, não em mim, mas naquele que me enviou. E quem me vê a mim, vê aquele que me enviou.” Aqui ao falar de dois, do que ENVIA e do que é ENVIADO, a exemplo dos dois versos de Isaías que fala exatamente de ENVIAR ALGUÉM e fala desse ALGUÉM; Jesus mostra que os dois não são o mesmo ente. Yahweh o enviou, assim como está claro no livro do Profeta!

Já At. 28. 25 “Bem falou o Espírito Santo a nossos pais pelo profeta Isaías”, aqui não se diz e nem força o entendimento de que o Espírito Santo seja o próprio Yahweh, até porque o pepel do Espírito Santo é explicitado em Jo. 16.13 “Mas, quando vier aquele, o Espírito de verdade, ele vos guiará em toda a verdade; porque não falará de si mesmo, mas dirá tudo o que tiver ouvido, e vos anunciará o que há de vir.” O máximo que se pode concluir aqui é que o Espírito Santo transmitiu a Isaías as palavra de Yahweh, já que o Espírito Santo não fala de si mesmo. Aliás cabe aqui uma pergunta: Se o Espírito Santo fosse o próprio Yahweh, por que não falaria de si mesmo?

Qual o grande problema dessa linha de raciocínio que quer ver nesses versos um identificação de Pai, Filho e Espírito como sendo Yahweh? É justamente a intervenção humano, pois na completa ausência de Jesus se identificando como sendo Yahweh, os homens forçam compreensões para suprir esse abismo. Jesus falou muitas coisa; podemos dizer que as palavras de Nosso Senhor Jesus Cristo compõem um bom volume do conteúdo escrito no Novo Testamento, mas em absolutamente lugar algum das Escrituras encontramos ele dizendo ser um ente plural com e/ou o mesmo que Yahweh, pelo contrário, ele diz: “Não vim de mim mesmo” (Jo. 8.42). Então, já que Jesus se negou a dizer ser aquilo que ele não é, muitos parecem querer “ajudá-lo” nessa questão, esse tipo de ajuda, se for seguida uniformemente transformaria João Batista em Elias (o que vai adiante de Yahweh), Salomão em Jesus (eu lhe serei por Pai e ele me será por filho) e, pasmem, Satanás em Yahweh (aquele que incitou Davi a recensear o povo) e etc.

O conjunto dos versos Is. 6.8-10; Jo. 12.37-41 e At. 28 tem sido reivindicado para afirmar que Yahweh é o “nome” dos três, ou seja, do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Mas vamos examinar mais de perto esses versos e seus contextos para vermos se isso se confirma.

O profeta Isaías é descrito nesses versos do capítulo 6 como o agente de Yahweh, respondendo positivamente a pergunta: “A quem enviarei, e quem há de ir por nós?” (v.8). As ações de Isaías produziriam no povo de Israel, de acordo com o v.10, o “engordar” do coração, o serem pesados de ouvidos e terem seus olhos fechados.

Olhemos agora para o que nos diz Jo. 12.38 do trecho reivindicado como uma identificação de Jesus com Yahweh: “Para que se cumprisse a palavra do profeta Isaías, que diz: Senhor, quem creu na nossa pregação? E a quem foi revelado o braço do Senhor?” O primeiro registro que será feito por quem leu Is. 6.8-10 é a observação de que esse verso de João 12, não está em nenhum versículo daquele capítulo de Isaías e realmente não está porque é citação capítulo 53 do mesmo profeta. A redação desse verso é importante quando diz: “Senhor, quem creu na nossa pregação?”, pois por ai dá para perceber que é uma exclamação dirigida ao SENHOR (Yahweh) e NÃO o próprio SENHOR falando. E João ao citar isso reconhece essa distinção de forma cristalina. Somente então é que o texto de João segue e cita o trecho de Isaías 6: “Cegou-lhes os olhos, e endureceu-lhes o coração, A fim de que não vejam com os olhos, e compreendam no coração, E se convertam, E eu os cure.” (Jo. 12.40). Aqui fica claro que o que representa aquele que faz a pergunta “SENHOR, quem deu crédito a nossa pregação” é aquele cujos efeitos da pregação revela os corações endurecidos e olhos cerrados, mas nenhum desses dois versículos escritos no Rolo do Profeta e citados por João, por si só, dão a entender aos leitores que Yahweh seja Jesus, pelo contrário já que em Is. 6 fala-se daquele que é o enviado de Yahweh e Is. 53 está descrito aquele que leva a pregação de Yahweh. Em ambas as passagens fala-se de um mensageiro de Yahweh, ou seja, nos dois casos se fala de mais de um personagem: Yahweh e outro que é o tipo de Cristo (o enviado). A linha trinitária ignora essa necessária percepção do verso, sem a qual sua plena compreensão fica prejudicada.

É fácil notar que o trecho reivindicado de João 12, então, ao apresentar duas citações de Isaías, fala de dois personagens nas duas citações, não apenas de um personagem! Não cita-se apenas Yahweh, mas, também aquele que seria seu mensageiro; o responsável por levar SUA pregação. O verso 40 ao dizer “Cegou-lhes os olhos, e endureceu-lhes o coração…”, não está falando de uma ação direta de Yahweh, na verdade fala do resultado da ação de Seu enviado, posto que em Isaías fala desse mensageiro como alguém que “Engorda o coração deste povo, e faze-lhe pesados os ouvidos, e fecha-lhe os olhos”. Quem nos dias da proclamação do Evangelho desempenhou esse papel? E Jesus também revela: “E ele, respondendo, disse: Eu não fui enviado senão às ovelhas perdidas da casa de Israel.” (Mt. 15.24)

Então, surge o verso 41 de João 12: “Isaías disse isto quando viu a sua glória e falou dele.”, cuja leitura apressada desfaz esse cenário que se fala de dois, como se o próprio Isaías fosse apenas um personagem passivo naquele episódio. Mas, é apenas a leitura apressada que fará destoar o verso de seu contexto. Percebamos que Jesus mesmo diz com suas próprias palavras: “E eu dei-lhes a glória que a mim me deste, para que sejam um, como nós somos um.” (Jo. 17.22). Então a expressão “viu sua glória” não força uma co-identidade. A unidade decorre do compartilhamento da Glória, e, a glória de um é a de todos com quem foi compartilhada. Ora, se a Glória que Jesus tinha provinha do Pai, então a Glória que se vê do Pai é também a Glória que se vê no Filho, porque não existem duas Glórias, mas uma única fonte de Glória e, conforme Jesus disse, é o Pai. Consideremos, então, o contexto bíblico e indaguemos: Será que o texto de João, em estudo, está falando do Trono, dos Querubins e daquele que estava assentado no Trono e etc? Ou está falando clara e objetivamente do outro personagem envolvido em Isaías, o responsável pela pregação e que é aquele que pergunta: “… Quem deu crédito a nossa pregação?…” e cuja pregação “Engorda o coração deste povo, e faze-lhe pesados os ouvidos, e fecha-lhe os olhos; para que ele não veja com os seus olhos, e não ouça com os seus ouvidos, nem entenda com o seu coração, nem se converta e seja sarado”. Então, cabe a pergunta: Se João quisesse dizer que Jesus é Yahweh (O SENHOR) que estava assentado no Trono, então, quem era o outro personagem refletido como anunciador e a quem o restante do contexto faz referência?

A expressão “falou dele”, certamente recai sobre o anunciador das boas novas, que diga-se de passagem é o agente descrito no Evangelho de João nesses versos e é justamente aquele que leva as palavra de Yahweh, conforme descrito em Isaías. É comum dentro do contexto profético o profeta predizer o fato futuro e facilmente ser associado como sendo ele mesmo o presonagem da profecia; isso é visto nesse caso e confirmado em At. 8.34, onde mais uma vez cita-se Isaías: “E, respondendo o eunuco a Filipe, disse: Rogo-te, de quem diz isto o profeta? De si mesmo, ou de algum outro?” Felipe ao revelar que ali se falava de outro, não do profeta, mostra que o anunciador das boas novas apontava para Cristo e portanto distinto, não somente numericamente, tanto daquele profeta quanto distinto de Yahweh que o enviou.

Nesse mesmo contexto de Jo. 12, nos versos 44 e 45, mais uma vez Jesus de forma clara e taxativa se admite como o representante do Pai, Yahweh: “E Jesus clamou, e disse: Quem crê em mim, crê, não em mim, mas naquele que me enviou. E quem me vê a mim, vê aquele que me enviou.” Aqui ao falar de dois, do que ENVIA e do que é ENVIADO, a exemplo dos dois versos de Isaías que fala exatamente de ENVIAR ALGUÉM e fala desse ALGUÉM; Jesus mostra que os dois não são o mesmo ente. Yahweh o enviou, assim como está claro no livro do Profeta!

Já At. 28. 25 “Bem falou o Espírito Santo a nossos pais pelo profeta Isaías”, aqui não se diz e nem força o entendimento de que o Espírito Santo seja o próprio Yahweh, até porque o pepel do Espírito Santo é explicitado em Jo. 16.13 “Mas, quando vier aquele, o Espírito de verdade, ele vos guiará em toda a verdade; porque não falará de si mesmo, mas dirá tudo o que tiver ouvido, e vos anunciará o que há de vir.” O máximo que se pode concluir aqui é que o Espírito Santo transmitiu a Isaías as palavra de Yahweh, já que o Espírito Santo não fala de si mesmo. Aliás cabe aqui uma pergunta: Se o Espírito Santo fosse o próprio Yahweh, por que não falaria de si mesmo?

Qual o grande problema dessa linha de raciocínio que quer ver nesses versos um identificação de Pai, Filho e Espírito como sendo Yahweh? É justamente a intervenção humano, pois na completa ausência de Jesus se identificando como sendo Yahweh, os homens forçam compreensões para suprir esse abismo. Jesus falou muitas coisa; podemos dizer que as palavras de Nosso Senhor Jesus Cristo compõem um bom volume do conteúdo escrito no Novo Testamento, mas em absolutamente lugar algum das Escrituras encontramos ele dizendo ser um ente plural com e/ou o mesmo que Yahweh, pelo contrário, ele diz: “Não vim de mim mesmo” (Jo. 8.42). Então, já que Jesus se negou a dizer ser aquilo que ele não é, muitos parecem querer “ajudá-lo” nessa questão, esse tipo de ajuda, se for seguida uniformemente transformaria João Batista em Elias (o que vai adiante de Yahweh), Salomão em Jesus (eu lhe serei por Pai e ele me será por filho) e, pasmem, Satanás em Yahweh (aquele que incitou Davi a recensear o povo) e etc.

O conjunto dos versos Is. 6.8-10; Jo. 12.37-41 e At. 28 tem sido reivindicado para afirmar que Yahweh é o “nome” dos três, ou seja, do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Mas vamos examinar mais de perto esses versos e seus contextos para vermos se isso se confirma.

O profeta Isaías é descrito nesses versos do capítulo 6 como o agente de Yahweh, respondendo positivamente a pergunta: “A quem enviarei, e quem há de ir por nós?” (v.8). As ações de Isaías produziriam no povo de Israel, de acordo com o v.10, o “engordar” do coração, o serem pesados de ouvidos e terem seus olhos fechados.

Olhemos agora para o que nos diz Jo. 12.38 do trecho reivindicado como uma identificação de Jesus com Yahweh: “Para que se cumprisse a palavra do profeta Isaías, que diz: Senhor, quem creu na nossa pregação? E a quem foi revelado o braço do Senhor?” O primeiro registro que será feito por quem leu Is. 6.8-10 é a observação de que esse verso de João 12, não está em nenhum versículo daquele capítulo de Isaías e realmente não está porque é citação capítulo 53 do mesmo profeta. A redação desse verso é importante quando diz: “Senhor, quem creu na nossa pregação?”, pois por ai dá para perceber que é uma exclamação dirigida ao SENHOR (Yahweh) e NÃO o próprio SENHOR falando. E João ao citar isso reconhece essa distinção de forma cristalina. Somente então é que o texto de João segue e cita o trecho de Isaías 6: “Cegou-lhes os olhos, e endureceu-lhes o coração, A fim de que não vejam com os olhos, e compreendam no coração, E se convertam, E eu os cure.” (Jo. 12.40). Aqui fica claro que o que representa aquele que faz a pergunta “SENHOR, quem deu crédito a nossa pregação” é aquele cujos efeitos da pregação revela os corações endurecidos e olhos cerrados, mas nenhum desses dois versículos escritos no Rolo do Profeta e citados por João, por si só, dão a entender aos leitores que Yahweh seja Jesus, pelo contrário já que em Is. 6 fala-se daquele que é o enviado de Yahweh e Is. 53 está descrito aquele que leva a pregação de Yahweh. Em ambas as passagens fala-se de um mensageiro de Yahweh, ou seja, nos dois casos se fala de mais de um personagem: Yahweh e outro que é o tipo de Cristo (o enviado). A linha trinitária ignora essa necessária percepção do verso, sem a qual sua plena compreensão fica prejudicada.

É fácil notar que o trecho reivindicado de João 12, então, ao apresentar duas citações de Isaías, fala de dois personagens nas duas citações, não apenas de um personagem! Não cita-se apenas Yahweh, mas, também aquele que seria seu mensageiro; o responsável por levar SUA pregação. O verso 40 ao dizer “Cegou-lhes os olhos, e endureceu-lhes o coração…”, não está falando de uma ação direta de Yahweh, na verdade fala do resultado da ação de Seu enviado, posto que em Isaías fala desse mensageiro como alguém que “Engorda o coração deste povo, e faze-lhe pesados os ouvidos, e fecha-lhe os olhos”. Quem nos dias da proclamação do Evangelho desempenhou esse papel? E Jesus também revela: “E ele, respondendo, disse: Eu não fui enviado senão às ovelhas perdidas da casa de Israel.” (Mt. 15.24)

Então, surge o verso 41 de João 12: “Isaías disse isto quando viu a sua glória e falou dele.”, cuja leitura apressada desfaz esse cenário que se fala de dois, como se o próprio Isaías fosse apenas um personagem passivo naquele episódio. Mas, é apenas a leitura apressada que fará destoar o verso de seu contexto. Percebamos que Jesus mesmo diz com suas próprias palavras: “E eu dei-lhes a glória que a mim me deste, para que sejam um, como nós somos um.” (Jo. 17.22). Então a expressão “viu sua glória” não força uma co-identidade. A unidade decorre do compartilhamento da Glória, e, a glória de um é a de todos com quem foi compartilhada. Ora, se a Glória que Jesus tinha provinha do Pai, então a Glória que se vê do Pai é também a Glória que se vê no Filho, porque não existem duas Glórias, mas uma única fonte de Glória e, conforme Jesus disse, é o Pai. Consideremos, então, o contexto bíblico e indaguemos: Será que o texto de João, em estudo, está falando do Trono, dos Querubins e daquele que estava assentado no Trono e etc? Ou está falando clara e objetivamente do outro personagem envolvido em Isaías, o responsável pela pregação e que é aquele que pergunta: “… Quem deu crédito a nossa pregação?…” e cuja pregação “Engorda o coração deste povo, e faze-lhe pesados os ouvidos, e fecha-lhe os olhos; para que ele não veja com os seus olhos, e não ouça com os seus ouvidos, nem entenda com o seu coração, nem se converta e seja sarado”. Então, cabe a pergunta: Se João quisesse dizer que Jesus é Yahweh (O SENHOR) que estava assentado no Trono, então, quem era o outro personagem refletido como anunciador e a quem o restante do contexto faz referência?

A expressão “falou dele”, certamente recai sobre o anunciador das boas novas, que diga-se de passagem é o agente descrito no Evangelho de João nesses versos e é justamente aquele que leva as palavra de Yahweh, conforme descrito em Isaías. É comum dentro do contexto profético o profeta predizer o fato futuro e facilmente ser associado como sendo ele mesmo o presonagem da profecia; isso é visto nesse caso e confirmado em At. 8.34, onde mais uma vez cita-se Isaías: “E, respondendo o eunuco a Filipe, disse: Rogo-te, de quem diz isto o profeta? De si mesmo, ou de algum outro?” Felipe ao revelar que ali se falava de outro, não do profeta, mostra que o anunciador das boas novas apontava para Cristo e portanto distinto, não somente numericamente, tanto daquele profeta quanto distinto de Yahweh que o enviou.

Nesse mesmo contexto de Jo. 12, nos versos 44 e 45, mais uma vez Jesus de forma clara e taxativa se admite como o representante do Pai, Yahweh: “E Jesus clamou, e disse: Quem crê em mim, crê, não em mim, mas naquele que me enviou. E quem me vê a mim, vê aquele que me enviou.” Aqui ao falar de dois, do que ENVIA e do que é ENVIADO, a exemplo dos dois versos de Isaías que fala exatamente de ENVIAR ALGUÉM e fala desse ALGUÉM; Jesus mostra que os dois não são o mesmo ente. Yahweh o enviou, assim como está claro no livro do Profeta!

Já At. 28. 25 “Bem falou o Espírito Santo a nossos pais pelo profeta Isaías”, aqui não se diz e nem força o entendimento de que o Espírito Santo seja o próprio Yahweh, até porque o pepel do Espírito Santo é explicitado em Jo. 16.13 “Mas, quando vier aquele, o Espírito de verdade, ele vos guiará em toda a verdade; porque não falará de si mesmo, mas dirá tudo o que tiver ouvido, e vos anunciará o que há de vir.” O máximo que se pode concluir aqui é que o Espírito Santo transmitiu a Isaías as palavra de Yahweh, já que o Espírito Santo não fala de si mesmo. Aliás cabe aqui uma pergunta: Se o Espírito Santo fosse o próprio Yahweh, por que não falaria de si mesmo?

Qual o grande problema dessa linha de raciocínio que quer ver nesses versos um identificação de Pai, Filho e Espírito como sendo Yahweh? É justamente a intervenção humano, pois na completa ausência de Jesus se identificando como sendo Yahweh, os homens forçam compreensões para suprir esse abismo. Jesus falou muitas coisa; podemos dizer que as palavras de Nosso Senhor Jesus Cristo compõem um bom volume do conteúdo escrito no Novo Testamento, mas em absolutamente lugar algum das Escrituras encontramos ele dizendo ser um ente plural com e/ou o mesmo que Yahweh, pelo contrário, ele diz: “Não vim de mim mesmo” (Jo. 8.42). Então, já que Jesus se negou a dizer ser aquilo que ele não é, muitos parecem querer “ajudá-lo” nessa questão, esse tipo de ajuda, se for seguida uniformemente transformaria João Batista em Elias (o que vai adiante de Yahweh), Salomão em Jesus (eu lhe serei por Pai e ele me será por filho) e, pasmem, Satanás em Yahweh (aquele que incitou Davi a recensear o povo) e etc.

Clemente e a proximidade com as origens

Clemente Romano ou Clemente de Roma, bispo daquela cidade entre 88 e 97 d.C. Falecido em 102 d.C, é autor do mais antigo escrito cristão fora das escrituras canônicas1 de que se tem notícia, mais antigo ainda do que os escritos de Tertuliano e Taciano do II século. Irineu em “Contra os Hereges” fala dele: “ele viu os Apóstolos e com eles conversou, tendo ouvido diretamente a sua pregação e ensinamento”. Alguns afirmam que este é o mesmo Clemente citado por Paulo em Fl. 1.3, mas outros discordam. Luigi Padovese comenta Clemente informando que a despeito de “recorrer algumas vezes a fórmulas trinitárias, revela uma concepção cristológica ainda judaizante, uma vez que jamais atribui a Cristo o título de Deus e não enfatiza a sua preexistência.2 O termo “judaizante” tomado aqui praticamente em sentido pejorativo, revela, na verdade, a prática, naquela época, da preservação da fé no monoteísmo original recebida dos apóstolos pois além da ascendência hebraica ele foi discípulo do apóstolo Pedro e bispo em uma época em que o apóstolo João ainda estava vivo. Assim, o termo “judaizante”, na verdade, é, aqui, sinônimo de um cristão na busca da preservação da fé dos apóstolos e do monoteísmo milenar dos judeus. Mas, apesar disso ele era romano e bispo de Roma, portanto não precisava estar preso as suas raízes hebraicas, assim não era obrigado a manter uma visão, assim chamada, “judaizante” de Jesus Cristo. Se ele não via a Jesus como se fosse o próprio Deus, ele estava apenas preservando, na questão cristológica, o que aprendeu dos primeiros discípulos de Cristo. A palavra “judaizante” só surge se considerarmos um problema de ótica, ou seja, a ortodoxia a partir do século III determinou o que é ou não judaizante no que se refere a divindade. Em Clemente se percebe, então, que não existe um Deus Filho, ou um Cristo Deus, mas o Filho de Deus. Sua proximidade com os apóstolos é significativa para entendermos como eles percebiam quem era Jesus.

__________________

1Manual Bíblico de Halley, Editora Vida – 2000, pág. 776

2Padovese, Luigui in Introdução à Teologia Patrística, Edições Loyola – 2004, pág. 63

Hermas

Hermas, irmão do Bispo Pio e provavelmente citado por Paulo em Rm. 16.14 escreveu sua obra “O Pastor”, e esta tornou-se conhecida através de sua circulação por volta de 150 d.C.1 Algumas comunidades e personalidades cristãs antigas o consideravam escrito canônico ou em grande apreço, dentre eles podem ser citados Irineu, Clemente de Alexandria, Orígenes e até Atanásio. Acerca da visão de Hermas sobre Jesus Cristo, Padovese registra que “Em suma, concebe-o como um personagem de dignidade e natureza transcendentes às humanas, sem ser, porém divinas, colaborador de Deus na criação e no governo do mundo, mas num plano de nítida inferioridade.2 Aqui a palavra “sem ser, porém divinas”, na verdade, expressa a informação da inexistência de atribuição de deidade a Cristo naquela época, e não a recusa de sua divindade enquanto origem, pois o mesmo Hermas, em certos momentos, identifica Jesus como sendo o Espírito Santo, portanto, divino, mas não o próprio Deus. A exemplo de Clemente Romano, Hermas nunca afirma que Jesus seja Deus ou um Deus Filho. Mais uma vez perceba que a informação demonstra o conceito cristológico de pessoas que viveram bem próximas à época dos apóstolos e é provinda, também, do II século.

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1 Padres Apostólicos, Paulus Editora – 1995, pág. 164

2 Padovese, Luigi in Introdução a Teologia Patrística, Edições Loyola – 1992, pág. 63

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