Unitarismo Bíblico

Em defesa do eterno conceito de Deus como um e único

Categoria: Comentários (Página 2 de 6)

Zc. 12.10

Costumam usar Zc. 12.10 “e olharão para mim, a quem traspassaram”, cujos versos anteriores falam de Yahweh, e comparam com Ap. 1.7 “Eis que vem com as nuvens, e todo o olho o verá, até os mesmos que o traspassaram; e todas as tribos da terra se lamentarão sobre ele. Sim. Amém”. A partir dai concluem que Jesus é Yahweh que foi traspassado. Aqui é interessante observar que há discordância entre a ARA e a ACF para o texto de Zacarias. Esta última seguiu uma tradução literal do texto Massorético, ao passo que a ARA contextualizou a tradução e colocou “olharão para aquele”. Esse fato tornou-se mais um ponto de disputa entre os defensores de cada um dessas versões. Uma tradução como a ARC, embora literal, cria uma desconexão com o restante do texto que diz: “e pranteá-lo-ão sobre ele” quando era de se esperar “prantear-me-ão sobre mim”, pois como podem olhar para “MIM, o traspassado” e pratearem por “ELE”. A não ser que o traspassar, nesse verso, não tivesse relação material com a perfuração no lado do corpo de Jesus, mas com a dor de um Pai em ver seu filho sendo morto. No entanto, tal linha não justificaria a citação desse verso no NT exatamente no evento da crucificação. A ARA entendeu contextualmente a passagem de Zc. 12.10 como “e olharão para aquele a quem traspassaram, e o prantearão”; o que parece ser, de fato, a melhor leitura desse verso. O próprio texto de Apocalipse onde procuram buscar a identidade comum entre Yahweh e Jesus, confirma uma leitura na terceira pessoa. Ali se constata que os versos que citam o evento descrito em Zacarias 12.10 não o fazem no primeira pessoa. Isso indica que no contexto amplo Yahweh está falando daquele que seria traspassado e não dele mesmo, como querem os trinitaristas. De qualquer forma uma coisa contrapõe a outra, pois se aquele que foi traspassado foi visto, no caso Jesus, não pode ser Deus, pois Deus nunca foi visto (I Tm. 6.16), e se Deus foi traspassado o sentido não pode ser material, pois Deus é Espírito, o que levaria o “traspassar” para esfera espiritual desassociando o dito pelo profeta do ato de perfuração do corpo, embora explicitando a dor da morte do Filho pelo Pai. Vale destacar (se a requisição de identidade recair na equivalência literal da tradução do texto hebraico) que nem sempre o NT segue a leitura do texto Massorético, sugerindo uma fonte diferente e, na verdade, por vezes, difere, de fato, do texto hebraico geralmente utilizado, basta lermos a citação do cumprimento profético dessa passagem em João 19.37 “E outra vez diz a Escritura: Verão aquele que traspassaram.”, perceba “aquele” e não “a mim”. Tal leitura se harmoniza com o contexto amplo das Escrituras que dizem que Jesus foi visto, mas Deus nunca foi visto: I Tm. 6.16 “Aquele que tem, ele só, a imortalidade, e habita na luz inacessível; a quem nenhum dos homens viu nem pode ver, ao qual seja honra e poder sempiterno. Amém.” Ora, se Zacarias for entendido como literal, então, estará falando do Corpo de Jesus, portanto o que é perceptível ao olho humano. No entanto versos como I Tm. 6.16, dentre outros, nega que tenha ocorrido a possibilidade de tal contemplação de Deus no evento da crucificação. Aquele que foi traspassado, nosso Senhor, estava morto e reviveu, mas há UM que não pode ser visto pelos mortais e nunca morreu, Yahweh nosso Deus.

Quais as causas das perseguições dos cristãos no livro de Atos?

Como todos sabemos o livro de Atos dos Apóstolos é um livro de cunho histórico que retrata os primeiros anos do recém nascido cristianismo e as dificuldades surgidas naquela época .

Os seguidores do Messias pregavam a Jesus crucificado, mas nunca o identificaram como sendo a encarnação do próprio Deus Todo-poderoso. Aliás de todas as perseguições havidas nos Atos dos Apóstolos não há um único levante dos judeus acusando os seguidores do Mestre da Galileia de o haverem reconhecido ou o anunciado como sendo o Deus de Abraão, de Isaque e de Jacó, pelo contrário, At. 3.13 atesta: “O Deus de Abraão, de Isaque e de Jacó, o Deus de nossos pais, glorificou a seu filho Jesus”. Esta era a compreensão dos discípulos responsáveis por proclamar o evangelho logo após a assunção do Salvador. Se fosse uma realidade dos primitivos cristãos o ensino proposto pelos trinitários onde teríamos pelas sinagogas e ruas (já que o objetivo da pregação inicial era alcançar Jerusalém, depois Samaria, toda Judeia e o resto do mundo, e primeiramente aos judeus) a proclamação da existência de um Deus composto de três pessoas e que Jesus era um dos entes dessa composição, um coigual com seu Pai, sendo, então, o próprio Yahweh, seria natural que os arautos da lei de Moisés os acusassem de forma veemente e impetuosa de idolatria e culto a um ser visível, já que as Escrituras dizem que Yahweh é invisível e a orientação da Lei é que não fosse feita qualquer imagem de representação para culto a Deus. Ao contrário disso alguns precisaram subornar homens para levantarem falso testemunho de agressão a lei e a Deus contra os servos de Jesus Cristo: “Então subornaram uns homens, para que dissessem: Ouvimos-lhe proferir palavras blasfemas contra Moisés e contra Deus” (At. 6.11). Os judeus, de acordo com os registro das Escrituras Sagradas, também nunca acusaram os cristãos de ensinarem que Deus fosse mais de uma pessoa. De igual modo nunca disseram ser afirmação dos cristãos que viveram os Atos dos Apóstolos que Deus fosse um ente composto por três pessoas.

Jesus foi adorado? (Parte 2)

Continuação…

Porém, como ter certeza que com relação a Jesus traduzir “proskynô” por adorar no sentido cultual em que adoramos a Deus não é a melhor tradução? Leiamos, então, Dt. 5.9 “Não te encurvarás (προσκυνήσεις – proskynêseis) a elas, nem as servirás (λατρεύσῃς – latreusês); porque eu, Yahweh teu Deus, sou Deus zeloso…” e, ainda, Dt. 10.20 “Ao Yahweh teu Deus temerás (φοβηθήσῃ – fobêthêsê); a ele servirás (λατρεύσεις)…”. O próprio Jesus, ao ser tentado por Satanás, diz em Mt. 4.10 “Então disse-lhe Jesus: Vai-te, Satanás, porque está escrito: Ao Senhor teu Deus adorarás (προσκυνήσεις – proskynêseis), e só a ele servirás (λατρεύσεις – latreuseis)”. Pois bem, perceba que aqui é usado proskynô, assim como em vários outros lugares como já vimos, mas ao falar em “servir” (λατρεύω), Jesus diz “ a teu Deus, Yahweh”. Note que nesse caso o serviço que se fala é o serviço com conotação religiosa, serviço sagrado, de culto a Deus. Isto é confirmado na constatação do uso do termo pelos LXX em Dt. 5.9, Dt. 10.20, já citados, e nas passagens, por exemplo, que nos informam sobre a libertação de Israel do Egito, quando Deus diz em Ex. 3.12 “E disse: Certamente eu serei contigo; e isto te será por sinal de que eu te enviei: Quando houveres tirado este povo do Egito, servireis a Deus neste monte”, aqui servir a Deus é, também, com o verbo λατρεύω e este é diferente, por exemplo, do “servir” ao Egito, em Ex. 6.5 “E também tenho ouvido o gemido dos filhos de Israel, aos quais os egípcios fazem servir” ACF, onde “servir” é καταδουλόω (katadoulô), mostrando nitidamente que o serviço a Deus é o cultual e não o de força de trabalho usada no Egito. Infelizmente as traduções para língua portuguesa não transmitem essa nuance. Essa condição é vista também de forma muito clara em Dt. 6.12,13 “Guarda-te, que não te esqueças de Yahweh, que te tirou da terra do Egito, da casa da servidão (ἐξ οἴκου δουλείας). A Yahweh teu Deus temerás e a ele servirás (αὐτῷ λατρεύσεις), e pelo seu nome jurarás ”. λατρεύω é usado dessa forma também Novo Testamento, e Agostinho mesmo dá testemunho disso em sua obra “A Trindade” ao afirmar que “Quanto ao modo de servi-lo [a Deus], difere, porém, do revelado no preceito de servirmos uns aos outros pela caridade (Gl 5,13), que em grego se designa com o verbo douleuein, enquanto serviço a Deus está expresso pelo verbo latreuein1 (destaquei)2.

Que Jesus é digno de reverência, de nossa prostração em respeito a Ele, a Bíblia deixa claro, inclusive devemos honrá-lo como honramos (honra e culto são coisa distintas) o Pai, Ele é o nosso Rei, Jo. 5.23 “para que todos honrem o Filho, assim como honram o Pai. Quem não honra o Filho, não honra o Pai que o enviou”. Porque honrando a Ele estaremos honrando o Pai que o enviou. Mas, e com relação a adorar como uma atitude de culto? Será que também devemos cultuá-lo como se cultua a Deus, seu Pai? Será que devemos, nesse sentido, adorá-lo? Para respondermos a essas perguntas precisamos verificar se a palavra cultuar (latreuein), dentro da Bíblia, é aplicada também a Jesus como é a Deus, seu Pai. O termo usado pelo próprio Jesus, como já vimos em Mt. 4.10 ao dizer “só a ele (Deus) servirás” ou mais claramente traduzido “só a ele (Deus) prestarás culto” é “λατρεύσεις” (futuro do verbo λατρεύω “latreô”), o mesmo que comentamos poucas linhas acima e que é reconhecido por Agostinho em sua obra “A Trindade” como termo de identificação cultual a Deus. Pois bem, este termo jamais é usado com relação a Jesus. Já foi percebido que o uso da palavra proskynô, geralmente traduzido por prostrar-se ou adorar, na relação entre as pessoas ou seres não é o suficiente para atribuir ou reconhecer deidade em ninguém, visto que é uma forma espontânea e respeitosa, com significado de honra e/ou sujeição, de se dirigir tanto a Deus quanto aos homens, mas λατρεύω (latreô), por outro lado, é usado nitidamente no que se refere ao serviço religioso voltado à devoção cultual. Esse verbo ou um de seus derivados ocorre 26 vezes no Novo Testamento e não se aplica uma única vez sequer ao Nosso Senhor Jesus Cristo. Considerando a importância do assunto que está sendo tratado vale a pena trazermos todas à leitura:

  • Mt. 4.10 “Então ordenou-lhe Jesus: Vai-te, Satanás; porque está escrito: Ao Senhor teu Deus adorarás, e só a ele servirás.” Como já foi comentado aqui o verbo “servir” é λατρεύω (cultuar, prestar serviço sagrado) e se refere diretamente a Deus. É muitíssimo oportuno ler o verso seguinte que diz: “Então o Diabo o deixou; e eis que vieram os anjos e o serviram.” O verbo “servir” nesse verso, ao falar dos anjos, é διακονεω (diakonô) que significa servir, de prestar serviço como aquele que tem cuidado, prover com serviço, mostrando que os anjos embora reverenciem (proskynô) a Jesus (Hb. 1.6), não o cultuam (latreô).
  • Lc. 1.74 “de conceder-nos que, libertados da mão de nossos inimigos, o servíssemos sem temor
  • Lc. 2.37 “e era viúva, de quase oitenta e quatro anos. Não se afastava do templo, servindo a Deus noite e dia em jejuns e orações.
  • Lc. 4.8 “Respondeu-lhe Jesus: Está escrito: Ao Senhor teu Deus adorarás, e só a ele servirás.
  • Jo. 16.2 “Expulsar-vos-ão das sinagogas; ainda mais, vem a hora em que qualquer que vos matar julgará prestar um serviço a Deus.
  • At. 7.7 “Mas eu julgarei a nação que os tiver escravizado, disse Deus; e depois disto sairão, e me servirão neste lugar.
  • At. 7.42 “Mas Deus se afastou, e os abandonou ao culto das hostes do céu, como está escrito no livro dos profetas: Porventura me oferecestes vítimas e sacrifícios por quarenta anos no deserto, ó casa de Israel?Aqui mesmo não sendo um culto a Deus, confirma que o uso da palavra é aplicado a quem se pretende cultuar em sentido divinal.
  • At. 24.14 “Mas confesso-te isto: que, seguindo o caminho a que eles chamam seita, assim sirvo ao Deus de nossos pais, crendo tudo quanto está escrito na lei e nos profetas.
  • At. 26.7 “a qual as nossas doze tribos, servindo a Deus fervorosamente noite e dia, esperam alcançar; é por causa desta esperança, ó rei, que eu sou acusado pelos judeus.
  • At. 27.23 “Porque esta noite me apareceu um anjo do Deus de quem eu sou e a quem sirvo
  • Rm. 1.9 “Pois Deus, a quem sirvo em meu espírito, no evangelho de seu Filho, me é testemunha de como incessantemente faço menção de vós
  • Rm. 1.25 “pois trocaram a verdade de Deus pela mentira, e adoraram e serviram à criatura antes que ao Criador, que é bendito eternamente. Amém.” (Idem At. 7.42)
  • Rm. 9.4 “os quais são israelitas, de quem é a adoção, e a glória, e os pactos, e a promulgação da lei, e o culto, e as promessasSe você já leu o estudo sobre esse contexto de Romanos, nas páginas anteriores, perceberá que o verso seguinte a este, Rm. 9.5, é uma doxologia. Caso não tenha lido ainda, favor ler a postagem “VERSÍCULOS QUE PROVAM A DEIDADE DE JESUS COM DEUS, SEU PAI?”
  • Rm. 12.1 “Rogo-vos pois, irmãos, pela compaixão de Deus, que apresenteis os vossos corpos como um sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional.
  • Fp. 3.3 “Porque a circuncisão somos nós, que servimos a Deus em espírito, e nos gloriamos em Cristo Jesus, e não confiamos na carne.
  • II Tm. 1.3 “Dou graças a Deus, a quem desde os meus antepassados sirvo com uma consciência pura, de que sem cessar faço menção de ti em minhas súplicas de noite e de dia
  • Hb. 8.5 “os quais servem àquilo que é figura e sombra das coisas celestiais, como Moisés foi divinamente avisado, quando estava para construir o tabernáculo; porque lhe foi dito: Olha, faze conforme o modelo que no monte se te mostrou.”, a Bíblia de Jerusalém traduziu mais claramente este verso:Estes realizam um culto que é cópia e sombra das realidades celestes, de acordo com a instituição divina recebida por Moisés…
  • Hb. 9.1 “Ora, também o primeiro pacto tinha ordenanças de serviço sagrado, e um santuário terrestre.
  • Hb. 9.6 “Ora, estando estas coisas assim preparadas, entram continuamente na primeira tenda os sacerdotes, celebrando os serviços sagrados
  • Hb. 9.14 “quanto mais o sangue de Cristo, que pelo Espírito eterno se ofereceu a si mesmo imaculado a Deus, purificará das obras mortas a vossa consciência, para servirdes ao Deus vivo?
  • Hb. 10.2 “Doutra maneira, não teriam deixado de ser oferecidos? pois tendo sido uma vez purificados os que prestavam o culto, nunca mais teriam consciência de pecado.
  • Hb.12.28 “Pelo que, recebendo nós um reino que não pode ser abalado, retenhamos a graça, pela qual sirvamos a Deus agradavelmente, com reverência e temor
  • Hb. 13.10 “Temos um altar, do qual não têm direito de comer os que servem ao tabernáculo.
  • Ap. 7.15 “Por isso estão diante do trono de Deus, e o servem de dia e de noite no seu santuário; e aquele que está assentado sobre o trono estenderá o seu tabernáculo sobre eles.
  • Ap. 22.3 “Ali não haverá jamais maldição. Nela estará o trono de Deus e do Cordeiro, e os seus servos o servirão

É interessante este último verso citado porque há quem o use para dizer que “latreo” é também, ainda que seria uma única ocorrência, aplicado ao Cordeiro (Cristo), e dessa forma tando Deus quanto o Cordeiro (Jesus) receberiam culto, mas o texto é claro “O servirão” (o cultuarão), e não “os servirão”, e, o próprio verso anterior de Apocalipse, cujo texto acima está destacado, não deixa dúvida a quem está se referindo essa passagem bíblica, que corrobora a informação dada por Paulo em I Co. 15.28 “E, quando todas as coisas lhe estiverem sujeitas, então também o próprio Filho se sujeitará àquele que todas as coisas lhe sujeitou, para que Deus seja tudo em todos.3 O que deveríamos nos perguntar é: Por que João teria feito a distinção clara, chamado um de Deus e o outro de Cordeiro para depois disso dizer que o Cordeiro era quem seria cultuado e não aquele a quem ele primeiro chamou de Deus, o Pai? Deveríamos nos questionar também que se Ap. 22.3 fala do Cordeiro como sendo aquele a quem se cultuaria, então, qual seria a razão de não se dizer isto também de Deus nesse mesmo verso, visto que estão discriminados distintamente, mas no mesmo verso? A proposta trinitária criaria uma situação estranha e invertida, inexistente na Bíblia, que seria destacar com ente de culto quem nunca foi designado para tal e excluir Aquele que é por inerência cultuado em toda a Bíblia, e ratificada, pelo próprio Cordeiro quando na Terra ao dizer em Mt. 4.10 “Então disse-lhe Jesus: Vai-te, Satanás, porque está escrito: Ao Senhor teu Deus adorarás, e SÓ A ELE ele servirás” (destaquei). Não há espaço nesse verso para dizer que Jesus estivesse falando dele mesmo ao diabo.

Na ausência de versos no NT que indiquem um serviço de culto ao Filho, se busca em Dn. 7.13,14 onde, em determinadas versões da Septuaginta, nesses versos que são reconhecidos como uma profecia aplicada a Cristo, aparece o verbo “λατρεύω”, mas o que parece passar desapercebido por quem cita esses versos, primeiro é o fato de haver outras versões da Septuaginta que não apresenta esse verbo, mas aparece lá δοῦλεω (servir sem conotação cultual) e segundo a sempre necessária contextualização dos próprios versos: “Eu estava olhando nas minhas visões da noite, e eis que vinha nas nuvens do céu um como o filho do homem; e dirigiu-se ao ancião de dias, e o fizeram chegar até ele. 14 E foi-lhe dado o domínio, e a honra, e o reino, para que todos os povos, nações e línguas o servissem; o seu domínio é um domínio eterno, que não passará, e o seu reino tal, que não será destruído”. Aqui, segundo se aceita comumente, o “Ancião de Dias” é Deus e o “como o filho do homem” é Jesus. Agora atente para o que está dito: Fizeram “o semelhante ao filho do homem” chegar até o ancião de dias (Deus), então o “semelhante ao filho do homem” já não poderia ser Deus também, pois o fizeram chegar até ELE. Em seguida diz-se que “Foi-lhe dado” várias posições de eminência e somente depois de essas coisas lhes haverem sido dadas, então, os povos e nações o “serviriam”. Percebe-se, nitidamente, que a descrição desse verso é da entronização de um rei, não a de preparação de um culto a Deus ou a Divindade. É de se destacar que a versão utilizada dos LXX que propõe “latruo” na tradução do livro de Daniel para o grego usou de modo desuniforme os termos helênicos, pois ele não usou “λατρεύω” para traduzir a mesma palavra semítica em, por exemplo, Dn. 7.27; aqui ele usou ὑποταγήσονται (hypagêsontai) do verbo ὑποτάσσω (=sujeitar), esse mesmo verbo é usado no NT em Ef. 5.21. Devemos relembrar também que há outras versões da Septuaginta que não usam “λατρεύω” nesses versos de Daniel, mas δοῦλεω, via pela qual se adiciona mas uma dificuldade a pretensão trinitária.

Talvez se ao invés de buscar a palavra grega “λατρεύω”, já que existe também versões dos LXX com a palavra δοῦλεω nesses mesmos versos, talvez se buscasse a forma aramaica que consta em Daniel houvesse um pouco mais de lógica פלח (pel-akh’), por esta haver sido usada várias vezes no episódio de Misael, Ananias e Azarias quando ser recusaram a “servir” (adorar) a divindade babilônica, mas tal lógica também estaria em prejuízo, pois há que ser notado que assim como “proskunô”, “pelakh’” tem a conotação determinada pelo contexto independentemente da quantidade de vezes que é usada, ou seja, não é porque foi usada mais vezes no relado do caso dos três jovens israelitas que terá seu significado determinado com um único sentido, pois essa palavra aramaica significa: prestar reverência, servir, adorar, ministrar, etc. E nesse sentido podemos ver sua ocorrência em Ez. 7.24 “וּפָלְחֵי בֵּית אֱלָהָ”, onde os LXX teriam preferido vertê-la por “λειτουργοῖς” e podendo ser traduzida para nossa língua por “atendentes da casa de Deus” ou conforme aparece na Almeida “ministros da casa de Deus”, o que equivale a “servidores do Templo”.

Além disso ainda cabe aqui a reflexão: Se alguém só tem direito de ser “cultuado” após receber de Deus as coisas, como pode esse alguém ser, também, Deus? Assim, certamente essa ocorrência em Daniel não é um requerimento de culto ao rei como se, aquele que precisou receber poder e honra, devesse ser cultuado e reconhecido como Deus, mesmo se considerarmos a versão que não traz δοῦλεω nesses versos. A propósito, Deus precisa receber alguma coisa para dever ser adorado? (Rm. 11.35) Deus é Deus de eternidade a eternidade e merecedor ininterrupto de culto.

Como se percebe de forma abundante, dentro da Bíblia, todas as referências de serviço cultual sagrado apontam para Deus, o Pai, e não para o Filho, Jesus Cristo. Para os escritores sagrados, no Novo Testamento, Jesus não é a pessoa a quem cultuavam, ou prestavam serviço de culto como prestavam a Deus. Considerando tudo isso, não existe razão para se crer que “proskynô” quando aplicado a Jesus deva ser entendido como adoração no mesmo sentido que adoramos a Deus, pois ele mesmo, vale a pena repetir, disse: “Ao Senhor (Yahweh) teu Deus adorarás, e só a ele prestarás culto.

É oportuno dizermos que existem outras palavras com significado de serviço, mas essas outras são usadas indistintamente entre os próprios homens, e entre os homens e Deus. São elas “diakonia” (serviço prestado como servo), “liturgia” (serviço prestado como oficiante), “doulia” (serviço prestado com sentido de submissão [escravo]).

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1 Agostinho in A trindade, Paulus Editora, 2ª Edição – 1994, pág. 37,38

2 Agostinho usou essa constatação para defender a adoração ao Espírito Santo, em uma tradução de Fp. 3.3 que ele pensava ser “… servimos ao Espírito de Deus…”, essa forma de entender o texto da referência em grego atribuindo culto ao Espírito Santo, no entanto, parece ter sido uma forma particular de Agostinho. As variantes que envolvem a passagem trazem: “πνευματι θεω” (TR) e “πνευματι θεου” (TC), e tanto as versões católicas quanto as protestantes não apóiam essa tradução de Agostinho, mas trazem: “… servimos a Deus em espírito…” (Pe. Matos Soares e o Pe. Antônio P. Figueiredo – do Latim); “… prestamos culto a Deus pelo Espírito de Deus...” (Editora Ave-Maria); “… servimos no Espírito de Deus…” (Editora Vozes e Santuário); “…em espírito prestamos culto a Deus…” (Edições Loyola); “… prestamos o nosso culto pelo Espírito de Deus…”; (TEB – Ed. Paulinas e Loyola); “… prestamos culto movidos pelo Espírito de Deus…” (Tradução da CNBB); “…prestamos culto pelo Espírito de Deus…” (BJ); “... servimos a Deus em espírito...” (Bíblia do Peregrino); “...adoramos pelo Espírito de Deus…” (NVI), “... adoramos a Deus no Espírito” (A Bíblia Anotada); “... servimos a Deus em espírito…” (ARC); como se percebe abundantemente, usando qualquer das duas variantes gregas, a tradução feita por diversos tradutores católicos bem como por protestantes, embora trinitários, reconhecem que o texto não indica uma informação de culto ao Espírito Santo. Quanto ao inexistência do uso desse verbo com relação a Jesus ele, Agostinho, simplesmente se cala.

3 Há que ser destacado que o chamado “mistério trinitário” contradiz este versículo de Coríntios ao dizer que o Filho é eternamente coigual ao Pai, enquanto a Bíblia diz que ele será eternamente sujeito a quem “àquele que todas as coisas lhe sujeitou”. Veja o verso não diz o homem Jesus, mas o Filho. Justamente essa designação “Filho” é a designação pelo qual muitos trinitarianos afirmam que Jesus é Deus. É nessa condição que Ele está sujeito, então não há coigualdade.

Jesus foi adorado? (Parte 1)

Se Jesus não é Deus igual ao Pai o que dizer dos versículos onde se diz que as pessoas o adoravam?

Para entendermos porque o verbo “adorar” é usado em aplicação a Jesus, precisamos primeiro descobrir qual a palavra original que foi vertida por “adorar” e qual é o seu significado dentro do contexto bíblico.

Nas referências onde aparecem a tradução “adorar” ou suas conjugações, o correspondente grego é προσκυνέω (proskynô), que pode ser traduzido por “adorar”, “reverenciar”, “receber respeitosamente”, “inclinar-se”, “prostrar-se” e etc. A palavra indica também sinal de sujeição. Por vezes é usada juntamente com o verbo “πίπτω” piptô (cair por terra, denotando o movimento de prostrar-se). É mais uma palavra grega cuja falta de equivalente exato causa prejuízo no entendimento das Escrituras. A ideia fortemente contida na palavra é reverência. É composta por duas outras palavras: “πρός” (pros) e “κυνέω” (kynô); a primeira é uma preposição, que indica proximidade e direção, e a segunda é o verbo beijar (alguns entendem: beijar a mão), outros entendem uma composição com o substantivo “κύων” (cachorro), denotando o respeito que o cão tem ao seu dono quando sai ao seu encontro para lamber-lhe a mão.

Em seu uso comum, dentro da Bíblia Sagrada, ressalta-se o sentido de reverência, respeito, reconhecimento de superioridade hierárquica ou até mesmo sinal de humildade por parte de quem presta a reverência. Seguramente não é um termo de uso exclusivo no relacionamento do homem para com Deus.

Os LXX traduziram a palavra correspondente do hebraico שָׁחַה (shachah) pelo seu equivalente grego προσκυνέω. Também usado para com os homens e falsos deuses, com relação a esses últimos, por ter conotação cultual, é terminantemente proibido por Yahweh.

Encontramos “proskynô” sendo usado, por exemplo, em Gn. 23.7,12, quando Abraão se inclinou diante dos hititas na terra onde sepultaria Sara. Essa mesma palavra é usada para indicar que Abraão se prostrou diante dos homens que anunciaram o nascimento de Isaque, Gn. 18.2. É ainda a mesma usada para dizer que Ló se prostrou com o rosto em terra ao receber os dois anjos que o iria livrar da destruição de Sodoma e Gomorra. Jacó quando se reencontra com Esaú, ele juntamente com sua família se prostra diante de seu irmão, e, é o mesmo verbo usado na benção de Isaque sobre Jacó em Gn. 27.29. Na benção de Jacó a Judá, Gn. 49.8. No sonho de José onde os feixes que representavam seus irmãos se prostraram diante dele e já no Egito, seus irmãos, de fato, se prostraram (adoraram) diante José, Gn. 43.26. O próprio Moisés “adorou” (reverenciou, mostrou-se sujeito a) seu sogro e o beijo em Ex. 18.7 É o mesmo usado nos 10 mandamentos em Ex. 20.5. Rute também prostrou-se diante de Boaz Rt. 2.10. Ao condenar a família de Eli, Yahweh diz que dos que deles sobrassem iriam se inclinar (adorar) ante aquele que iria tomar o lugar de Eli pedindo comida, I Sm. 2.36. Davi prostrou-se diante de Jônatas I Sm. 20.41. Sibá, servo de Maribaal, se prostra (adora) a Davi, II Sm. 16.4. A Bíblia diz: “Vendo, pois, Abigail a Davi, apressou-se, e desceu do jumento, e prostrou-se (ἔπεσεν) sobre o seu rosto diante de Davi, e se inclinou (προσεκύνησεν) à terra.” (I Sm. 25.23 – LXX) . O próprio Natã, profeta de Yahweh, portanto alguém muito cônscio de suas obrigações com Deus, “adora” (se o conceito trinitário fosse o correto a palavra seria “adora”) Davi em I Rs. 1.23, “E o fizeram saber ao rei, dizendo: Eis aí está o profeta Natã. E entrou à presença do rei, e prostrou-se (προσεκύνησεν) diante dele com o rosto em terra.” E como não podia deixar de ser, é também quando lemos Abraão dizer que iria adorar (prestar reverência a Deus em obediência à ordem que recebeu) juntamente com seu filho, Gn. 22.5. E a mesma em passagens como em Gn. 24.26, no trato que Eliezer dá a Yahweh.

Todos essas ocorrências, e não somente as que se referem a Deus, poderiam ser traduzidas por “adorou”, “adoraram” e assemelhados, mas porque não foram? Simplesmente por opção do tradutor. Ele poderia ter traduzido todos, inclusive as que se referem a Deus por “reverenciou”, “reverenciaram” e etc. Pois bem, isso mostra que a visão que o indivíduo tem da passagem bíblica influi diretamente em sua compreensão do texto e na tradução produzida.

Feitas essas considerações, reflitamos sobre sua aplicação a Jesus, Nosso Senhor. Leiamos Mt. 2.2. Lá encontramos os magos perguntando pelo nascido rei dos judeus, e dizendo “Onde está aquele que é nascido rei dos judeus? porque vimos a sua estrela no oriente, e viemos a adorá-lo.” (ARC). Será que os magos vieram do oriente para “adorar” um rei dos judeus? Ora, não são os judeus monoteístas? Os pais da criança concordariam com um culto ao seu filho? Será que aqueles homens entendiam que o menino fosse o próprio Deus, nascido (?) por aqueles dias? Certamente o sentido de proskynô aqui é o mesmo daquele usado no Antigo Testamento para reverenciar líderes e reis, e os magos vieram prestar homenagem como a bem traduz a própria BJ: “… vimos a sua estrela no seu surgir e viemos homenageá-lo”. Era natural para um rei ser reverenciado, isto fica evidenciado até mesmo pelos soldados romanos responsáveis por punirem Jesus antes de sua crucificação, ironizando dizem: “Salve, Rei dos Judeus … e postos de joelhos o adoravam”. A bíblia do Peregrino prefere “prestavam homenagem” ao referir-se a ação dos soldados. “Adorar” aqui, ainda que por escárnio, é sem dúvida, reverenciá-lo como um rei dos judeus e não como um Deus cultual, até porque os romanos não tinham ao Pai de Jesus como seu Deus, nem a Jesus mesmo como Deus, mas como um provável rejeitado “rei dos Judeus”, e isso está explicitado na placa fixada na cruz: “ … por cima da sua cabeça puseram escrita a sua acusação: ESTE É JESUS, O REI DOS JUDEUS” (Mt. 27.37). As próprias ofertas dadas pelos magos revela o tríplice ministério de Jesus, ouro (rei), incenso (sacerdote) e mirra (profeta). Eles não ofereceram ao menino algum animal imolado como se estivesse sacrificando a Deus. Pelo que se percebe, os magos não o estava considerando Deus, mas alguém que teria ofícios dignos de honra aqui na terra, um Rei.

Os fariseus acusaram Jesus de muitas coisas, mas nunca o acusaram de haver incitado o povo a adorá-lo, prestar-lhe culto, nem mesmo acusaram alguém de o adorar, e isto é significativo, pois prova que ações de adoração, no sentido cultual, a Jesus, de fato, não aconteceram. Veja o caso do cego de nascença que fora curado por Jesus. Naquele relato encontramos, Jo. 9.38-40 “Ele disse: Creio, Senhor. E o adorou. 39 E disse-lhe Jesus: Eu vim a este mundo para juízo, a fim de que os que não vêem vejam, e os que vêem sejam cegos. 40 E aqueles dos fariseus, que estavam com ele, ouvindo isto, disseram-lhe: Também nós somos cegos?”. Se adorar Jesus tem sentido cultual, conforme requerido pelos trinitarianos, como o que prestamos a Deus, como pode os fariseus ávidos por incriminarem Jesus, presenciarem o “culto” do cego ao Senhor e se incomodarem apenas com a insinuação de que Jesus os havia chamado de cegos? Outro exemplo gritante de mal uso de “proskynô” como se fosse adoração é encontrado em Mc. 5.6 “E, quando viu Jesus ao longe, correu e adorou-o.” o contexto mostra que um espírito imundo teria adorado Jesus? É difícil crer que as hostes infernais houvessem perdido o Céu por rejeitarem a Deus lá em cima para virem adorar alguém na terra. Aliás qualquer um que o adorasse, não somente a ele mas a qualquer outra pessoa, seria morto por idolatria, mas isso não aconteceu com ninguém, nem mesmo quando lemos Mt. 8.2: “E, eis que veio um leproso, e o adorou, dizendo: Senhor, se quiseres, podes tornar-me limpo”; mais uma vez a Bíblia de Jerusalém contextualiza o fato e traduz em harmonia com as ocorrências do Antigo Testamento: “quando de repente um leproso se aproximou e prostrou-se diante dele dizendo: ‘Senhor, se queres, tens poder para purificar-me’”. Achar que os judeus estavam por toda parte adorando ou vendo os outros adorarem alguém que não o próprio Yahweh, o Pai, e fechados os olhos a isso é negar a realidade do monoteísmo zeloso do judaísmo e a historicidade factual da Bíblia. Em Mt. 15.25, vemos que a mulher cananeia reconhece a Jesus como “Senhor” (o título) e “Filho de Davi” (a ascendência), portanto REI, ou seja, aquela mulher não o via como Deus, mas como um que tinha senhorio e era descendente de Davi, assim, não há razão para entendermos que a melhor tradução para proskynô nessas ocorrências seja “adorar”, mas “prostrar-se” se encaixa perfeitamente ao contexto monárquico. Perceba em Mc. 15.19, quando vemos nitidamente que o termo traduzido nas Almeidas por “adorar” ignora o verso 18 onde os soldados ironizam Jesus e o saúdam dizendo “Salve, Rei dos judeus”. Eles debocharam fazendo-se como reverentes de um rei. Outros versos onde encontramos a palavra é Mt. 9.18; Mt. 14.33; Mt. 28.9,17; Mc. 5.6; Lc. 24.52; Jo. 9.38; Hb. 1.6. Há também σέβομαι (sebomai), outra palavra grega que é usada com sentido de adoração, mas reflete muito mais o sentido de temor, devoção, religiosidade. Ocorre 8 vezes no NT. Mt 15.9; Mc 7.7; At 13.43; At 13.50, 16.14, 17.4,17.17, At 18.7.

A insistente tradução de προσκυνέω (proskynô) por “adorar” em nossas Bíblias, em especial no NT, causou, inclusive, uma situação esdrúxula: Jesus estaria dizendo que certas pessoas deveriam adorar outras. Vemos isso em Ap. 3.9 “Eis que eu farei aos da sinagoga de Satanás, aos que se dizem judeus, e não são, mas mentem: eis que eu farei que venham, e adorem prostrados a teus pés, e saibam que eu te amo.” Será que haverá pessoas que vão adorar os crentes da igreja de Filadélfia? Certamente a tradução do Peregrino deixa muito mais claro o sentido original: “Vê o que farei à sinagoga de Satanás, aos que se dizem judeus sem o ser, pois mentem: farei que venham prostrar-se a teus pés, reconhecendo que eu te amo.

Há quem cite Hb. 1.6 “E outra vez, ao introduzir no mundo o primogênito, diz: E todos os anjos de Deus o adorem.” buscando uma informação de “adoração” a Jesus, mas ai, na verdade, tem-se outra atestação de que Ele não é Deus, pois os anjos não precisam receber ordem para adorar a Deus, eles o fazem porque foram criados por Deus mesmo também para isso. Se eles receberam ordem de “adorar” alguém, então tal “adoração” já teria sido uma concessão do SER de onde partiu a ordem. Logo, se percebe que a palavra “proskynô” traduzida nesse verso por “adorem” não é a melhor opção. Isto se fosse usado o sentido cultual, mas já sabemos que há também o sentido de reverência e respeito contido nessa palavra.

Alguns tentam alegar que se Jesus não rejeitou a chamada “adoração” porque ele era Deus. Tentam buscar como texto de prova o caso de João diante do anjo no Apocalipse, e, Cornélio com Pedro, apóstolo, este último rejeitou a “adoração” do Centurião. Então, no entender trinitário, o contraste dessas duas situações denotaria a deidade de Jesus, mas seria de bom alvitre termos uma visão panorâmica do que aconteceu. Analisemos, por agora, o caso do centurião Cornélio e o apóstolo Pedro.

Em At. 10.2 lemos que aquele homem era: “Piedoso e temente a Deus, com toda a sua casa, o qual fazia muitas esmolas ao povo, e de contínuo orava a Deus.” e ainda em 10.22 “Cornélio, o centurião, homem justo e temente a Deus, e que tem bom testemunho de toda a nação dos judeus, foi avisado por um santo anjo para que te chamasse a sua casa, e ouvisse as tuas palavras.” Este homem temente a Deus e piedoso que tinha testemunho inclusive dos judeus, teria passado dessa magnifica e honrosa condição diante de nossos olhos à imediata condição de idólatra e repreensível segundo nossos tradutores e segundo o entendimento trinitário corrente, pois teria intentado adorar, sabe-se lá porque, a Pedro e teria sido repreendido por este no ato (?).

O curioso é que o Anjo de Deus havia dito a Cornélio que ele mandasse chamar a Simão, conhecido como Pedro que estava na casa de outro homem, ou seja, nada indicava a Cornélio uma “divindade” digna de “adoração”, pelo contrário, era apenas um crente que estava abrigado na casa de outro. Cornélio já sabia que quem viria a ele era um homem, mas como o próprio Deus, através de seu anjo, foi quem indicou esse homem, então, como era de se esperar da parte do Centurião, acostumado, por profissão, a hierarquia, buscou honrar e reverenciar o enviado de Deus. E como o evento era singular convidou “os seus parentes e amigos mais íntimos.” (V.24) para receber o homem de Deus. Será que era intenção de Cornélio se revelar idólatra diante de uma plateia crente especialmente convidada?

Apesar dessa necessária e clara contextualização da situação apontando para o caminho contrário, parece que a única percepção possível para alguns nos dias de hoje é que Cornélio a despeito de tudo isso, em um estalo de dedos, tornou-se um idólatra! Talvez, a única “base” para essa conclusão tenha sido, além do fato de os tradutores usarem o termo “adorar”, Pedro haver recusado aquela ação. Mas, por que acharmos que Pedro estaria repreendendo um homem cujo testemunho até então era impecável? Talvez a resposta mais apropriada seja: Por causa do dogma trinitário! Sim, pois poderíamos simplesmente entender “Ergue-te, que eu também sou homem” como um simples “levante irmão porque eu sou igual a você”, “levante irmão porque eu não sou melhor que ninguém”, “levante porque estamos no mesmo nível” ou coisas do gênero, ou seja, ao invés de vermos a afirmação como uma “repreensão” a Cornélio, vermos um belo exemplo de igualdade da parte de Pedro. Uma palavra de cordialidade ao invés de uma acusação. Mas, se essa contextualização for feita vai ser menos um verso com a palavra “adorar” e menos um a ser usado em “benefício” da trindade, então, acham que o melhor a fazer é esquecer o contexto em que vivia o Centurião e relacionar a outro verso isolado de contexto como, por exemplo, Ap. 19.10; para mostrar que o anjo recusou adoração, quando também é muito difícil crer que João, digno de receber a Revelação, tenha deixado de lado essa condição espiritual privilegiada e esquecido de todo o momento sublime em que estava para se tornar um “adorador”, gratuito de anjos. Logo ele de quem é dito, nas Escrituras, ser o discípulo a quem Jesus amava. Como seriam idólatras os piedosos homens de Deus se a visão trinitária fosse verdadeira? Mas, e Jesus por que não teria rejeitado essas supostas “adorações”? Simplesmente porque não eram adorações! Jesus se declarou Mestre e Senhor (Jo. 13.13), Cristo (Mt. 23.10) e Rei (Jo. 18.36). Por todas e por cada uma dessas posições ele é digino de reverência e portanto “proskynô” pode e deve, de forma natural, ser aplicada a ele sem a requerida conotação trinitária de adoração cultual.

As bíblias que tiveram o mínimo de preocupação com o contexto judaico em que foi escrito o Novo Testamento não se precipitaram em traduzir o termo “proskynô” por “adorar” em todas as ocorrências, para não ir além do que, de fato, está escrito, embora que ainda façam em algumas outras passagens bíblicas. Então, quando alguém lhe disser que Jesus é Deus porque recebeu adoração, lembre-se que a culpa por esse mal entendido não é de quem te disse isso, mas da opção do tradutor que em uma situação de descontextualização do restante das escrituras preferiu usar a palavra “adorar” sempre que “proskunô” se refere Jesus e como reverência para todos os outros.

A Bíblia nos dá uma exemplo claro que mesmo que tenhamos um versículo onde se mostra duas pessoas recebendo “adoração” devemos separar os sentidos da aplicação dessa palava para um e para outro, ou entender que o sentido é, para as partes citadas, de reverência, não de culto. Um homem e Deus são conjuntamente “adorados” (claro se a requisição trinitária fosse verdadeira) pelo mesmo povo hebreu em I Cr. 29.20, Davi e Yahweh, na Septuaginta lemos: “κάμψαντες τὰ γόνατα προσεκύνησαν τῷ κυρίῳ καὶ τῷ βασιλεῖ”. A Almeida Corrigida Fiel traduziu por “inclinaram-se, e prostraram-se perante o SENHOR e o rei”. Aqui relembre do caso de Cornélio e João. Davi poderia ter feito o que eles fizeram e dizer “adorem” a Deus, mas no contexto monárquico em que vivia tal “adoração” lhe era comum. Agora medite, se ao invés de Davi o verso fosse no Novo Testamente e estivesse falando de Jesus, então, qual seria a preferência dos tradutores trinitários? Certamente o verbo proskunô ali seria “e inclinaram-se e adoraram o SENHOR e Jesus”. Mas, como é Davi, será que os hebreus estavam cultuando esse homem de Deus?

ACESSE A SEGUNDA PARTE

Iguais na Deidade e diferentes nas funções?

Esta é uma afirmação comum em meios trinitários. Certamente tal colocação é uma tentativa de justificar ou equacionar as diferenças perceptíveis entre Pai, Filho e Espírito Santo, que comprometem a alegada coigualdade. O grande problema é: Como podem ser iguais na Deidade e diferentes em qualquer outra coisa, se ser Deus significa ser completo em si mesmo. Se qualquer um dos três é exatamente Deus, então, se Deus é Pai, os três seriam Pai, pois não se pode desassociar Deus de sua Paternidade, a não ser que Deus seja um ente e o Pai outro, o que nenhum de nós concordaremos ser possível, ou que Deus seja uma abstração1, e, não um ser pessoal. Ora, não dizem que o que Deus é o Filho é? Pois bem! Deus é o Pai do Filho. Se Jesus é Deus, é por consequência Pai de si mesmo. O mesmo princípio serve à classificação de Filho e Espírito Santo, pois se Deus é o Filho, ou mais especificamente se o Filho é Deus, então, não há como dizer que algum outro que seja tão Deus quanto o Filho, não seja também Filho. Assim, se considerarmos verdadeiro o dogma trinitário não poderia haver distinção entre os entes que “compõe” ou que “são” Deus, mesmo que sejam em funções ou atividades, pois nunca devemos perder de vista que ser Deus é ser completo em si mesmo e por isso nada há que Deus possa ser que outro que se diga também Deus em coigualdade  não seja também. Talvez por mais essa inconciliável situação dizem os defensores desse dogma que ele é um mistério insondável.

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1 Do latim abstrahere: a) gramaticalmente, é o ato pelo qual nosso espírito separa, num objeto, uma qualidade particular para considerá-la isoladamente de todas as outras, e com exclusão do próprio sujeito, b) Filosoficamente, abstrair consiste em separar (abstrahere = arrancar, desligar) pelo pensamento, ou considerar separadamente, o que não pode ser dado separadamente, na realidade. c) Processo mental, pelo qual certos caracteres, atributos ou relações são observados, independentemente de outros, que são negligenciados.

Justino e a Trindade

Justino, de quem Taciano foi discípulo, afirma “Cristo era o Logos, isto é, a própria razão divina, a qual Deus Pai admitiu sair de si mesmo sem a diminuição de seu próprio ser.”1 também dizia “No princípio, antes de todas as criaturas, Deus gerou um poder racional a partir de Si mesmo”2, mais uma vez se vê, nas palavras desse antigo cristão, que o Filho não era, na eternidade, um ente independente do Pai, mas, sim, surgido a partir DELE antes de todas as eras, ou seja Cristo estava em Deus, mas como a sua razão que de Deus, pelo seu infinito poder, emanou sem que houvesse variação no Pai. Assim, quando ele declarou àquela época: “Que nós somos ateus, quem estiver em são juízo não o dirá, pois cultuamos o Criador deste universo, do qual dizemos, conforme nos ensinaram, que não tem necessidade de sangue, libações ou incenso. […] Em seguida, demonstramos que, com razão, honramos também Jesus Cristo, que foi nosso Mestre nessas coisas e para isso nasceu, o mesmo que foi crucificado sob Pôncio Pilatos, procurador na Judeia no tempo de Tibério César. Aprendemos que ele é o Filho do próprio Deus verdadeiro, e o colocamos em segundo lugar, assim como o Espírito profético, que pomos no terceiro. De fato, tacham-nos de loucos, dizendo que damos o segundo lugar a um homem crucificado, depois do Deus imutável, aquele que existe desde sempre e criou o universo. É que ignoram o mistério que existe nisso e, por isso, vos exortamos que presteis atenção quando o expomos3, ao contrário do que afirmam alguns trinitaristas, Justino não está defendendo uma trindade de seres coiguais, nem essa ideia se desprende dos textos requeridos, pelo contrário, pois ele afirma cultuar ao Criador e, também, honrar a Jesus Cristo. Perceba culto a Deus e honra a Cristo, isso, sem dúvidas, não é uma afirmação de coigualdade na Deidade, muito mais quando ele mesmo diz que põe o filho em segundo lugar e não em igualdade com Deus. Justino também era do II Século.

É impressionante observamos em muitas literaturas as citações de Justino alegando que ele era trinitário, quando sabemos por registros históricos que ele não alegou isso, e, pelo contrário, trata a Deus, o Pai, como aquele que gerou por emissão o Filho antes do processo de criação do céus e da terra: “Mas esse gerado, emitido realmente pelo Pai, estava com ele antes de todas as criaturas e com ele o Pai conversa, como nos manifestou a palavra por meio de Salomão.4
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1 Campernhausen, Hans von in Os Pais da Igreja, Editora CPAD – 2005, pág. 18

2 Kelly, J. N. D in Doutrinas Centrais da Fé Cristã, pág. 75

3 Justino Mártir, ano 151, I Apologia 13,1.3-6

4 Justino Mártir, ano 155, Diálogo com o Judeu Trifão 62,1-2.4 (Obs. A referência a Salomão é, provavelmente, Pv. 8.22)

A Quarta Hipóstase: A “Síntese” dos três

Em termos práticos parece haver um equívoco grave no conceito trinitário que é melhor percebido no trato que Agostinho dá as pessoas da trindade e a própria trindade. Este chegou a cunhar um novo termo designativo da Deidade, chamando-o de o “Deus-Trindade1. Este esboço ele o fez quando tentou estabelecer a identificação dos seres celestiais que apareceram a pessoas como Abraão, Moisés e outros personagens bíblicos. Ele conclui que em certas passagens é possível identificar, por insinuação, algum membro da trindade, mas em outras não, e, nesses casos, segundo ele, pode-se cogitar que o próprio “Deus Trindade” tenha se manifestado em determinados momentos. Chega a declarar acerca de Ex. 13.21,22 que “Mas não está claro se era o Pai ou o Filho ou o Espírito Santo ou a própria Trindade, Deus uno, que se manifestou2 e comenta ainda “Tampouco é evidente se apareceu a Abraão uma das pessoas da Trindade ou se o próprio Deus Trindade3. Aqui começa a ser delineado, pelos argumentos do defensor da doutrina de trindade, a existência, ainda que não admitida, de uma quarta pessoa, hipóstase ou manifestação dentro da Deidade, que seria o “Deus Trindade”, a síntese dos outros três em uma manifestação integradamente plena. Então, se teria, nos dizeres de Agostinho: “Deus Pai”, “Deus Filho”, “Deus Espírito Santo” e “Deus Trindade”, o que inevitavelmente faz-se perceber quatro hipóstases, e desse modo Deus não seria mais uma trindade, mas uma “quadrindade” ou quaternidade.

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1 Op. Cit. Págs. 35 e 191

2 Agostinho in A Trindade, Paulus Editora, 2ª Edição – 1994, pág. 98

3 Idem, pág. 92, ele também cita Deus-Trindade na pág. 35

O que é uma heresia?

Uma palavra que estamos acostumados a ouvir com frequência quando o assunto envolve doutrinas é a palavra “heresia”. É fácil taxarmos alguém de herege ou que determinado ensino é heresia, basta o ensino de quem quer que seja ser diferente do nosso. No entanto, a conotação pejorativa da palavra é coisa relativamente recente. O termo “heresia” vem do grego αἵρεσις (hairesis) e significa simplesmente “escolha”. A palavra não era estranha aos escritores do Novo Testamento e nem aos primeiros cristãos. Os tradutores preferiram traduzi-la por “heresia” em I Co. 11.19, Gl. 5.20, II Pd. 2.1 e, por “seita” em todas as demais ocorrências dessa palavra, notadamente no livro de Atos dos Apóstolos1, inclusive para falar dos seguidores do Nazareno, como vemos em At. 24.5 “Temos achado que este homem é uma peste, e promotor de sedições entre todos os judeus, por todo o mundo; e o principal defensor da seita (heresia) dos nazarenos;”, a palavra “seita” aqui é literalmente “heresia”, ou seja, poderia ser traduzido por “heresia dos nazarenos”, isto significa dizer que, no linguajar de hoje, Jesus e seus discípulos eram considerados hereges ou sectários. Paulo era reconhecido como um membro da seita ou integrante da heresia nazarena da qual os judeus ouviam falar mal, At. 28.22 “No entanto bem quiséramos ouvir de ti o que sentes; porque, quanto a esta seita (heresia), notório nos é que em toda a parte se fala contra ela.

Com o passar do tempo a palavra “heresia” deixou de ter o significado simples de “escolha” ou “linha de pensamento” para ter a ideia de oposição à Palavra de Deus. Os grupos começaram a taxar uns ao outros de herege.

Orígenes, por exemplo, foi considerado um dos maiores teólogos de seu tempo e o mais proeminente antes de Agostinho de Hipona, no entanto foi rotulado de herege posteriormente porque muito de suas posições conflitavam com aquilo que posteriormente foi convencionado como ortodoxia. É verdade, claro, que a obra de Orígenes não necessariamente reflete toda a verdade da fé cristã, mas a percepção posterior que tiveram de seu trabalho mostra que aquilo que não era heresia em determinado momento da história cristã pode ter seu status mudado de acordo com as circunstâncias.

Geralmente o grupo dominante ou em maior número arrogará para si a detenção da verdade acusando o grupo discordante, minoritário, de herege (o inverso também pode acontecer). No entanto pertencer ao grande número não significa necessariamente pertencer àqueles que estão do lado da verdade bíblica. O maior exemplo dessa possibilidade é o contraste das doutrinas bíblicas com as defendidas pela, grande em número, Igreja Católica Romana. A partir do imperador Teodoro I e durante toda a idade média era a igreja dominante e taxava de herege além de condenar à morte todos os que não concordassem com suas doutrinas. Muita gente morreu sem serem dignos desse fim. A igreja romana se pôs acima de todos até à época da Reforma quando aquela que acusava a todos seus opositores de herege, passou a ser reconhecida também como herege. Os reformadores viram nela o símbolo da heresia e da paganização da fé cristã.

O espírito de intolerância e prepotência, no entanto, não é exclusividade dos católicos medievais. Ainda hoje, com muita facilidade, católicos e protestante taxam uns aos outros e ambos a outros grupos de hereges. Dentro do protestantismo mesmo vemos acusações mútuas de heresia, no pior sentido da palavra, com muita facilidade. É verdade que dentro do cristianismo há pontos indiscutíveis de fé como, por exemplo, a afirmação de que Jesus é nosso Salvador. Mas, há outras questões importantes de doutrina que não estão expressamente ditos na Bíblia e são defendidos por grandes grupos cristãos. A chamada doutrina da trindade é uma delas. Assim, pela própria ausência de explicitude dessa doutrina na Bíblia um trinitário poderia, dentro da conceituação e do sectarismo existente hoje, ser chamado de herege. Mas, dentro do conceito etimológico da palavra os diversos seguimentos cristãos são hereges entre si, pois cada um fez uma escolha, e, escolha é o significado primário da palavra heresia.

Portanto a alegação de heresia, não depende exatamente de que determinado ensino ou ponto de vista seja realmente herético (quem o determinará?), pois pode ser apenas a alegação de um grupo que tenha arrogado para si o status de detentor da verdade e discorda do ensino de outro grupo.

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1 At. 5.17, 15.5, 24.5, 24.14, 26.5, 28.22

A Trindade de Tertuliano

Certamente você já ouviu falar que os chamados pais da igreja eram trinitários e deve ter lido citações deles que parecem não deixar dúvidas acerca disso. O que pretendo mostrar é que os trechos usados pelos defensores desse dogma apresentam apenas parte da história. É ponto pacífico entre os estudiosos da história dos primeiros séculos do cristianismo que os primitivos cristãos não ensinavam sobre a trindade, e que muitos não tinham uma ideia como se tem hoje sobre isso (por que será que eles não tinham?). Mas, se assim é, por que, então, se alega, por exemplo, que Tertuliano era defensor da trindade. Bem, vamos ler um pouco a respeito:

A Tertuliano, cristão desde 193 d.C, considerado um dos pais latinos, se atribui a criação da palavra “trinitas” para referir-se a trindade. O uso dessa palavra fez com que Tertuliano fosse um dos antigos apologistas mais citados na história da igreja como defensor da doutrina trinitária. Mas, será que Tertuliano era defensor desse dogma, na sua forma niceno-constantinopolitana? A palavra latina “trinitas” foi usada por ele para elencar Pai, Filho e Espírito Santo como seres distintos1, mas não como coiguais ou coeternos por causa da consubstanciação entre as três pessoas. Na verdade, o conceito de coigualdade ou mesmo de consubstancialidade não era de aceitação geral nos dias de Tertuliano, pelo contrário, nem entre os latinos, nem, segundo ele, entre os gregos havia aceitação dessa ideia. Na obra Contra Praxeas, por exemplo, onde Tertuliano se opõe ao sabelianismo daquele, ao tempo em que defende que Pai, Filho e Espírito Santo são Deus em consubstanciação, nos é informado no capítulo 3 que “Os Simples, de fato (não vou chamá-los de tolos ou ignorantes), que sempre constituem a maioria dos fiéis estão chocados com a dispensação (dos Três em Um)” e mais a frente nesse mesmo capítulo lemos: “enquanto gregos justamente se recusam a entender a economia, ou dispensação (dos Três em Um)”. Este testemunho mostra, de forma clara, que à época em que foi escrito, ao contrário do que é afirmado hoje pelos defensores do dogma da trindade, o ensino “dos Três em Um” não era crença corrente, nem facilmente aceito no seio da igreja; nem dos latinos, nem dos gregos e a teologia de Tertuliano começava a introduzir, ainda que de forma diferente dos concílios posteriores, esse novo conceito. Isso termina por provar que a rejeição da crença “dos Três em Um” não era algo acidental ou localizada, mas geral na igreja antiga.

Ainda que Tertuliano tem usado a palavra “trindade”, devemos considerar, em respeito ao seu ponto de vista, que ele não a defendia em sua forma niceno-constantinopolitana. Na verdade, muitas de suas posições serão rejeitadas pelos nicenos e ele mesmo seria considerado herege se pudesse as expor ali; pois mesmo os termos comuns nas duas teologias não tinham o mesmo sentido. Ao falar de “substância”, por exemplo, tertuliano não está se referindo a “química”, por assim dizer, da Divindade, ou mais tecnicamente falando, não está evocando características metafísicas da Divindade; mas leva em conta, como advogado que era, sua conotação jurídica conforme esclarece Justo L. González: “O termo ‘substância’ deve ser entendido aqui, não num sentido metafísico, e sim num sentido legal. Dentro deste contexto, ‘substância’ é a propriedade e o direito que uma pessoa tem de fazer uso dessa propriedade. No caso da monarquia, a substância do Imperador é o Império, e é isto que torna possível para o Imperador partilhar sua substância com seu filho – como de fato era comum no Império Romano. ‘Pessoa’, por outro lado, deve ser entendida como ‘pessoa jurídica’ e não no sentido comum.2 Nenhuma dessas acepções para essas palavras foram usadas, nem pelos bispos dos concílios que ocorreram depois, nem por Agostinho de Hipona que também usa desses termos. É interessante que quem cita, hoje, Tertuliano, em favor da trindade, ignora essa peculiaridade de seus escritos e termina por dar um conotação diferente às suas palavras com relação aquilo que ele pretendeu dizer, ainda que ele mesmo tenha advertido as pessoas sobre essa tendência natural do homem no capítulo 3 de Contra Praxeas quando falando a este, diz: “Eu preferiria que você ao contrário pensasse no significado da coisa do que no som da palavra”, ou seja, ainda que tenham sons iguais “Substância” e “Pessoa”, em Tertuliano não tem conotação metafísica ou ontológica, mas jurídica. Outra coisa que é facilmente confundida nos escritos desse antigo cristão, por causas das preconcepções trinitárias convencionadas posteriormente, é a fusão ou confusão do termo “unidade”, bastante usado por ele, com “coigualdade”, não usado por ele. Para Tertuliano, ser da mesma “substância” aufere “unidade”. Nesse sentido, para ele, Jesus é o mesmo Deus que o Pai, ainda que em grau inferior a ELE, pois ser da mesma “substância” não aufere ao Filho “coigualdade” na eternidade, por isso ele diz em Contra Praxeas 9.2: “Pois o Pai é a inteira substância (pater enim tota substantia est); o Filho é derivação e porção do todo (filius vero derivatio tortius et portio)”. Nesse mesmo sentido encontramos no capítulo 13 a seguinte declaração: “Pois eu posso dar o nome de “sol” até mesmo para um raio de sol, considerado em si mesmo; mas se eu for mencionar o sol de onde o raio emana, eu certamente devo imediatamente abandonar o uso do nome de sol para o mero raio.” Assim, o escritor admite que Jesus é Deus por derivação e vontade do Pai, não por inerência eterna de seu próprio ser3. Isto se vê confirmado no capítulo 7 quando diz: “Assim Ele (Deus Pai) o faz (ao Filho) igual a Ele: pois por proceder d’Ele mesmo, Ele se torna seu Filho primogênito” e, ainda, “Em que forma de Deus? Claro que ele diz em alguma forma, e não em nenhuma” e é nessa forma determinada pelo Pai, no entender de Tertuliano que o Filho é igual a Deus, não em sua totalidade: “Ele mostra que há dois, a quem Ele coloca em igualdade e une em um” (Contra Praxeas, C. 22), lembremos sempre igualdade na unidade, mas não na totalidade da “substância”. A percepção de desigualdade entre o Pai e o Filho, embora da mesma substância, é bem delineado nos escritos de Tertuliano e focando isso ele chega a dizer: “a Palavra é Deus, porque procedendo de Deus, mas ainda não realmente igual àquele de quem Ele procede” (Contra Praxeas, c. 26), nesse mesmo capítulo endossa que o Filho, se considerado Deus, o é por ser porção da “substancia” de Deus, e não o Próprio Deus, o Pai, a quem Tertuliano considera a origem do segundo (o Filho), donde vem o terceiro (o Espírito). E por falar em consubstanciação, uma das frases mais usadas atribuídas a Tertuliano, como defesa da trindade nicena, é “Uma só substância em três pessoas”, mas essa que ficou conhecida como a forma clássica das palavras de Tertuliano, não é o que esse antigo cristão escreveu. Ele, na verdade, disse: “unam substantiam in tribus cohaerentibus4” que significa “Uma só substância em três interligados5 e isso não reflete coigualdade no pensamento dele sobre o Pai, o Filho e o Espírito Santo, como já vimos e veremos mais em seguida; reflete unidade. Deve-se ter claro que esta não é a única fala de Tertuliano que foi ligeiramente modificada para tornar mais “explicito” o “trinitarianismo” dele. Mas, vale a pena registrar também que ele, ao falar dos Três, disse: “A unidade dever ser procurada não na essência, mas na origem das pessoas6, ele também disse: “a Trindade, através de uma série de degraus cruzados e interligados, descende do Pai e não se opõe à monarquia, mas protege a natureza da economia7. Logo se percebe que a aplicação do termo “essência” ou “substância” na época de Tertuliano é completamente diferente daquela empregada mais de um século depois pelos nicenos, ou mesmo por Agostinho quando disse que “Deus é uma substância” composta por três pessoas. Tertuliano usou o termo para dizer que o Filho e o Espírito Santo participam da divindade por derivação direta, diferente de como os humanos participam. O Filho deriva do Pai e o Espírito do Pai através do Filho. A prova da diferença do uso do termo “substância” se revela no próprio trato que os próprios nicenos davam a palavra. Eles abertamente não se sentiam à vontade para usar a palavra conforme proclamada no credo praticamente 150 anos depois de Tertuliano, porque lá ela tinha outra denotação. Embora tenha origem distinta podemos dizer Tertuliano usou o termo em simplicidade como reconheceria o credo ariano ao dizer “A palavra ousia [substância], porque foi usada pelos Pais em simplicidade [que significa dizer, com boa intenção], mas não sendo compreendida pelas pessoas, ocasionou escândalos, não está contida nos Escritos Sagrados”. De fato, hoje citam as palavras de Tertuliano como se ele usasse a palavra “substância” com o mesmo sentido que esta no credo niceno ou no credo atanasiano e isso não é verdade. Assim, embora Tertuliano tenha sido o primeiro a usar o vocábulo “trinitas” donde veio a palavra “trindade”, ele não ensinava a trindade como será concebida posteriormente nos concílios e usada, nesse novo sentido, até hoje. Na verdade Tertuliano seria mais propriamente classificado como unitário que trinitário, pois ainda que admitia Jesus como Deus, este não era Deus igual ao Pai, assim o criam muitos unitários nas épocas dos concílios. E, no contexto em que ele usou a palavra “trindade” o sentido é completamente heterodoxo ao que se crer hoje. Isto se conclui facilmente quando analistas das afirmações de Tertuliano confirmam: “Ao falar da geração do Filho, sem querer comprometer a sua divindade, admite uma certa gradação, desde uma fase anterior à criação, em que o Logos de Deus se contempla a Si mesmo, para passar a contemplar a economia salvífica, e é engendrado de forma imanente em Deus, até à criação, em que a Palavra se realiza como tal ao ser proferida. Cristo é, assim, o primogênito do Pai, gerado antes de todas as coisas, mas não é eterno. O Filho é como que uma porção ou emanação do Pai.8 Tal assertiva já deveria ser o suficiente para se questionar a afirmação dos teólogos trinitários de que Tertuliano defendia esse dogma como é aceito hoje e havia cunhado aquela palavra para melhor defini-la. O antigo teólogo disse também “Houve um tempo em que não havia Filho e nem pecado, quando Deus não era nem pai nem juiz9. Por mais clara que seja essa declaração de temporalidade do Filho na compreensão de Tertuliano (veremos mais adiante que não é só dele), que o admitia preexistente, mas não coeterno com o Pai, há quem tente descaracterizar a incisividade dessa afirmação alegando que essa expressão foi usada em um momento de ousadia para combater a alegação de Hermógenes que acreditava ser a matéria eterna para poder dar a eternidade do título Senhor a Deus, pois na compreensão daquele, Deus só poderia ser eternamente Senhor, se houvesse algo sobre o que ser Senhor, dai alegam alguns trinitários que Tertuliano ousou na expressão para contrapor Hermógenes, dizendo que Deus nem sempre foi Senhor, nem sempre Pai, nem sempre Juiz, mas, segundo eles, não para negar a coeternidade do Filho com seu Pai, Deus, e sim para desdizer Hermógenes, mas essa tentativa de justificação não próspera, pois além de não explicar satisfatoriamente a questão, ignora que o que está informação em Contra Hermógenes não foi a única declaração de Tertuliano nesse sentido. Em Contra Praxeas, por exemplo, vemos essa compreensão dele confirmada em suas próprias palavras nas seguintes declarações:

  • Mas quanto a mim, que deriva o Filho de nenhuma outra fonte que não a substância do Pai” (Capítulo 4).
  • …mesmo antes da criação do universo Deus não estava sozinho, desde que ele tinha em Si próprio tanto Razão e, inerentemente à Razão, Sua Palavra, que Ele (Deus) fez outro em Si por agitá-la em Si mesmo ” (Capítulo 5), o Filho aqui ainda não é pessoa distinta do Pai, mas é feito, segundo ele, no interior do Pai, como mais a frente se dirá gerado “do útero de Seu próprio coração”.
  • Ele me criou e me gerou em Sua própria inteligência” (Capítulo 6). Tertuliano parafraseia, claramente, Pv. 8.22, admitindo criação e geração.
  • Este é o perfeito nascimento da Palavra, quando Ela procede de Deus – formada por Ele primeiro” (Capítulo 7).
  • Há um “gerado por Deus, de uma forma peculiar a Si mesmo, do útero de Seu próprio coração” (Capítulo 7), perceba que há sempre um feitor ou gerador e outro feito ou gerado, Um que é antes e outro que é depois.
  • Ele se tornou então o Filho de Deus, e foi gerado quando Ele procedeu d’Ele” (Capítulo 7). Reconhece a temporalidade da condição de Filho.
  • Ele fez de Sua Palavra um Filho para Si mesmo”(Capítulo 11.)
  • Sua primeira declaração é de fato feita, quando o Filho não havia aparecido ainda” (Capítulo 12).
  • nós reconhecemos o Filho como sendo visível em razão da dispensação da Sua existência derivada” (Capítulo 14).
  • e naquele princípio Ele foi prolatado pelo Pai” (Capítulo 19).
  • Agora, por dizer ‘o Espírito de Deus’ (apesar de que o Espírito de Deus é Deus,) e por não nomear diretamente Deus, ele quis que fosse entendida aquela porção de toda a divindade, que estava prestes a se retirar para a designação de ‘Filho’. O Espírito de Deus nesta passagem deve ser o mesmo que a Palavra” (Capítulo 26).

Diante dessas declarações é difícil negar que sua afirmativa em Contra Hermógenes, quando disse: “Houve um tempo em que não havia Filho e nem pecado, quando Deus não era nem pai nem juiz”, tenha sido acidental ou mera retórica e não reflexo de sua própria convicção de que o Filho, ainda que Deus por participação na substância do Pai a partir de sua geração, não é, de fato, eterno preteritamente.

Em Contra Praxeas se vê distribuído no corpo do texto a atribuição das características do Filho como “derivado”, “porção da Divindade”, “prolatado”, “formado”, “feito”, “procedido”, “gerado”, “nascido” e “criado” antes da criação do mundo. É difícil crer que ele tenha usado todos esses predicativos para querer denotar a eternidade de alguém. Assim, o Filho é parte da “substância”, derivado dela, mas não toda substância e sempre o segundo na posição. Tertuliano confirma a realidade do princípio do Filho ao contrastar com a eterna existência do Pai dizendo: “O Pai, contudo, não teve princípio, não procedendo de ninguém” (Capítulo 19). Aqui fica claro que ao usar a palavra “proceder” Tertuliano esta falando de ter um princípio, pelo fato de o Pai por não ser “procedido” não teve princípio; e essa palavra ele usa com relação ao Filho. Portanto, por conta dessa clara posição qualquer afirmação em defesa da trindade niceno-constantinopolitana atribuída a Tertuliano é precária e equivocada, pois ele não a pode ter defendido e ensinado se entendia que o Filho não era preteritamente eterno e sua própria concepção de Jesus com Deus decorre de sua visão de que Ele, Jesus, era uma porção ou emanação do Pai, saído de Deus para atendimento dos propósitos da criação10 e salvação. Claramente se percebe que Tertuliano não usou a palavra trindade no sentido de identificação ontológica de Deus, mas para contrapor o sabelianismo de Práxeas que não acreditava existir três: Pai, Filho e Espírito; mas apenas um que se manifestava de três modos. Na verdade, essa percepção de que a geração do Filho se deu por emanação (geração) ou derivação se assemelha muito a de outros teólogos daquela mesma época como, por exemplo, Taciano, que foi discípulo de Justino, autor do Discurso Contra os Gregos (160 d.C), em Roma, e Diatéssaron (172 d.C), que escreveu acerca de Jesus: “Antes da criação, Deus estava só; o Logos estava imanente nEle como Sua potencialidade para criar todas as coisas. No momento da criação, porém, Ele irrompeu do Pai como Sua ‘obra primordial’ (ergon prototokon). ‘espírito derivado de espírito, racionalidade derivada do poder racional’” Perceba a semelhança de ideias bem como a proximidade das datas entre os dois, e perceba que ambos são do II século.

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1 Ele fez uso da palavra trinitas em oposição a Práxeas que defendia ser o Pai o próprio Filho e por isso Práxeas dizia que o Pai foi quem morreu na cruz. Esse pensamento era conhecido como patripassionismo (a paxão teria sido sofrida pelo Pai).

2 Apud Justo L. González in “Uma História do Pensamento Cristão, Ed. Cultura Cristã, 2004, vol. I, pág. 174/5

3 Para Tertuliano, também o Espírito Santo não é Deus em sua totalidade, mas uma derivação desse através do Filho. Ele confirma isso ao dizer no cap. 26 de Contra Praxeas: “Agora, por dizer ‘o Espírito de Deus’ (apesar de que o Espírito de Deus é Deus,) e por não nomear diretamente Deus, ele quis que fosse entendida aquela porção de toda a divindade”.

4 De “cohaereo“: Estar unido, estar pegado, concordar, combinar

5 Contra Praxeas capítulo 12

6 Enciclopédia Católica – verbete Tertuliano (http://oce.catholic.com/index.php?title=Tertullian)

7 Padovese, Luigi in Introdução à Teologia Patrísitica, Edições Loyola, pág. 68

8 http://pt.wikipedia.org /wiki/Tertuliano

9 Enciclopédia Católica – verbete Tertuliano (http://oce.catholic.com/index.php?title=Tertullian) – Essa frase dita por Tertuliano aparece na obra Contra Hermógenes que acreditava ser a matéria eterna.

10 Em Contra Praxeas, capítulo 12, Tertuliano diz: “Mas em respeito aos prévios trabalhos do mundo o que diz as Escrituras? Sua primeira declaração é de fato feita, quando o Filho não havia aparecido ainda: ‘E Deus disse, haja luz, e houve luz’. Imediatamente aparece a palavra, ‘aquela verdadeira luz, que ilumina o homem em sua vinda ao mundo’, e através dele também vem a luz ao mundo. A partir deste momento Deus quis que a criação fosse efetuada na Palavra, Cristo sendo presente e ministrando para Ele…

Pergunte à Bíblia: Quantos Deus “é”?

Se a grande maioria dos cristãos, por herança recebida do catolicismo quando ainda estava em formação, dizem que Deus é composto de três pessoas, então, dada a importância dessa informação e considerando que há quem afirme que a trindade é um ensino claro nas Escrituras e doutrina fundamental da fé cristã era de se esperar, por consequência, que houvesse citações afirmando que Deus é também três ao invés de apenas um. Aliás, se Deus é UM e TRÊS, os versículos listados abaixo seriam um bom momento para se dizer isso, mas que tal perguntarmos à Bíblia: Quantos Deus “é”?

Dt. 6.4 “Ouve, Israel, Yahweh nosso Deus, Yahweh é UM”.

II Sm. 7.22 “Portanto, grandioso és, ó Yahweh Deus, porque não há semelhante a ti, e não há outro Deus senão TU SÓ…

Zc. 14.9 “E Yahweh será rei sobre toda a terra; naquele dia UM será Yahweh, e UM será o seu nome.”

Mt. 23: 9 “E a ninguém na terra chameis vosso pai, porque UM SÓ é o vosso Pai, o qual está nos céus.

Mc. 12:32 “E o escriba lhe disse: Muito bem, Mestre, e com verdade disseste que há UM SÓ Deus, e que não há outro além dele;

Jo. 17.3 Orando ao Pai, Jesus disse: “E a vida eterna é esta: que te conheçam a ti, como o ÚNICO Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, aquele que tu enviaste.

Rm. 3.30 “Visto que Deus é UM SÓ, que justifica pela fé a circuncisão, e por meio da fé a incircuncisão

Rm. 16.27 “ao ÚNICO Deus sábio seja dada glória por Jesus Cristo para todo o sempre. Amém.

I Co. 8. 4 “Assim que, quanto ao comer das coisas sacrificadas aos ídolos, sabemos que o ídolo nada é no mundo, e que não há outro Deus, senão UM SÓ.

I Co. 8.6 “Todavia para nós há UM SÓ Deus, o Pai, de quem é tudo e para quem nós vivemos; e um só Senhor, Jesus Cristo, pelo qual são todas as coisas, e nós por ele.”

Gl 3.20 “Ora, o medianeiro não o é de um só, mas Deus é UM.

Ef. 4.6 “UM SÓ Deus e Pai de todos, o qual é sobre todos, e por todos e em todos vós.

I Tm. 1.17 “Ora, ao Rei dos séculos, imortal, invisível, ao ÚNICO Deus, seja honra e glória para todo o sempre. Amém.

I Tm 2.5 “Porque há UM SÓ Deus, e um só Mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo homem.

Tg. 2.19 “Tu crês que há UM SÓ Deus; fazes bem. Também os demônios o creem, e estremecem.

Jd 1.25 “ao ÚNICO Deus, nosso Salvador, por Jesus Cristo nosso Senhor, glória, majestade, domínio e poder, antes de todos os séculos, e agora, e para todo o sempre. Amém.” (grifei-os)

Querido leitor você viu algum versículo ou tem conhecimento na sua vida cristã de alguém que tenha encontrado na Bíblia um versículo que diga que Deus seja três, triúno, três pessoas, três entes, três seres, três divinos, três espíritos, três substâncias, três hipóstases, três essências, três modos, três atributos, três agentes ou em qualquer sentido uma tríade? Isto simplesmente e incrivelmente, considerando a quantidade de pessoas que usam alguma dessas expressões, não é ensinado na Bíblia. Agostinho passou aproximadamente 16 anos (a quem diga 20 anos) de sua vida, do ano 400 ao 416 d.C, pesquisando e escrevendo sobre a trindade, e, mesmo após o término de sua obra, que passou a ser conhecida com “De Trindade” ou “A Trindade”, manteve nela registrado: “Todavia, na Escritura não encontramos também qualquer referência a três pessoas.1

Aqui não temos dedução, mas constatação de fato e, como se pode constatar, lemos não uma vez, mas várias, a identificação de Deus como “UM”, “ÚNICO” e “UM SÓ”! Portanto, por que tentar colocar dentro da Bíblia uma doutrina que não está nela? Por que dizer que Deus é algo que a Bíblia não diz que Ele seja?

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1Agostinho in A trindade, Paulus Editora, 2ª Edição – 1994, pág. 248 – Não satisfeito com essa conclusão, visto ser um defensor da teologia trinitária, Agostinho propôs uma arranjo para resolver o problema e alegou que “…será lícito dizer três pessoas pela necessidade de expressão e de discussão, não porque a Escritura diz, mas porque não contradiz a Escritura…” (pág. 249). Não contradiz? Agostinho embora cite Dt. 6.4 em sua obra, parece ignorar o seu significado.

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