Unitarismo Bíblico

Em defesa do eterno conceito de Deus como um e único

Categoria: Versículos comentados

A nova redação de Jd. v.5

Jd. v. 5. Às vezes, aqueles que defendem a não existência de uma trindade nas Escrituras criticam determinadas formas como certos versículos são apresentados nas versões populares, e, ao fazerem isso, são acusados de somente poderem defender suas posições afirmando que há problemas com as Bíblias atuais. Essa é uma acusação injusta porque não é segredo para estudantes perspicazes e dedicados que há diversos versículos cuja redação diferem de um manuscrito para outro, e com isso passam a existir bíblias com textos diferentes entre si (vide I Jo. 5.7 na ARA e na ARC). Isso é um fato. Também é fato que há manuscritos que trazem textos completamente destoantes de restante das Escrituras. A essa altura talvez se pergunte, e o que Jd. v.5 tem a ver com essa história?

Bem, até recentemente (e ainda consta na grande maioria das Bíblias), esse verso era apresentado com a seguinte redação:Mas quero lembrar-vos, como a quem já uma vez soube isto, que, havendo o Senhor salvo um povo, tirando-o da terra do Egito, destruiu depois os que não creram” (destaquei). A palavra negritada é o ponto de nosso interesse. A identificação de quem tirou o povo do Egito não é segredo e a palavra “Senhor” ai é, sem dúvida, o substituto comum nos textos gregos sobreviventes mais populares para o nome de Deus, Yahweh. Os relatos que estão nesse verso são descritos em Dt. 6.12: “fica atento a ti mesmo! Não te esqueças de Yahweh, que te fez sair da terra do Egito, da casa da escravidão1 (destaquei) e Nm. 14.35: “Eu falei, eu mesmo, Yahweh; é assim que tratarei toda esta comunidade perversa amotinada contra mim. Neste mesmo deserto não restará um deles e é ali que morrerão.2 Deve-se ter claro em mente que “Yahweh” nesses textos foi vertido por “κύριος” (Senhor) nos manuscritos mais populares da Septuaginta e é a palavra usual para as referências do Antigo Testamento no Novo Testamento grego do nome de Deus.

Em Jd. 5 utilizam a palavra “Senhor”, além da ACF, também as Bíblias Almeida XXI, JFA1819, ARC 1911, ARC 1969, ARC1967, BAM, BJ, CNBB, DIF, BKJ, NTLH, NVI, Edição Pastoral, Reina Valera em Português, Tradução Brasileira da Bíblia-TB, Bíblia Viva, CBC, TEB, Bíblia Mensagem de Deus da Ed. Loyola, todas as ARA até a 2ª Edição, dentre outras. Os comentaristas da TEB e da BJ, em nota de rodapé, concordam que esse texto seja uma referência ao Pai. O uso da palavra “Senhor” (κύριος) nesse verso de Judas, nessas versões, tem por base o texto grego que pode ser encontrado tanto no Texto Majoritário, como no Textus Receptus e no Texto Crítico, 3ª e 4ª edição.

Mas, há uma leitura peculiar desse versículo só popularizado antes nas bíblias baseadas nos textos em latim. Tanto a Vulgada Editio, versão católica feita por Jerônimo no séc. IV, quando a sua revisão, da época da contrarreforma católica, chamada Vulgata Clementina, trazem o texto como “…quoniam Iesus populum de terra Aegypti salvans secundo eos qui non crediderunt perdidit”, onde o nome Jesus aparece como sendo aquele que salvou o povo da terra do Egito. Seguindo essa linha se tem, em português, as versões católicas produzidas pelos padres Antônio Pereira de Figueiredo (1790) e Manoel de Matos Soares (1942). Esse texto ficou restrito aos círculos católicos, em especial no meio litúrgico. Fora desse ambiente várias Bíblias católicas passaram a fazer uso do texto grego, e essas não apresentam o nome “Jesus” em suas versões para esse verso.

É fácil perceber que essa proposta de versão ao sugerir que foi Jesus quem tirou o povo da terra do Egito, busca indicar que Jesus também é o Deus executor das maravilhas ocorridas no Antigo Testamento e que ele próprio também seria Yahweh. Em outras palavras há um forte viés cristoteísta aí, que busca endossar a existência de uma trindade em Deus ou, no mínimo, um explícito modalismo.

Mas, os católicos produzirem e manterem esse texto em seu meio é natural, já que a língua oficial do Vaticano é o latim. Porém, em tempos recentes, começaram a aparecer versões protestantes afirmando o mesmo. E isso certamente decorre do fato do Texto Crítico de Nestle & Aland 28ª Edição (2012) e da 5ª Edição da Deutsche Bibel Gesellschaft (DBG3), publicado em 2014 optarem como texto principal a variante que apresenta a ocorrência do nome “Jesus” nesse texto: “εἰδότας ὑμᾶς ἅπαξ πάντα ὅτι Ἰησοῦς λαὸν ἐκ γῆς Αἰγύπτου σώσας”. Duas edições anteriores já impressas traziam a palavra “Senhor”: “εἰδότας ἅπαξ πάντα ὅτι κύριος λαὸν ἐκ γῆς Αἰγύπτου σώσας”4 como texto principal.

Nessa nova linha, a recém-lançada Almeida Revista e Atualizada no Brasil 3ª Edição assim apresenta o trecho: “… quero lembrar-lhes que Jesus, tendo libertado um povo, tirando-o do Egito, destruiu, depois, os que não creram.” (destaquei). A popular NET Bible5, em inglês, mesmo antes do texto UBS5 já grafava “Jesus”6 no verso, mas, ainda que defenda essa variante, anota: “A leitura Ιησοῦς (Ihsous, ‘Jesus’) é considerada muito difícil por vários estudiosos, uma vez que envolve a noção de Jesus agindo no início da história da nação de Israel.” De fato, a ideia de Jesus ser quem atua onde o A.T. informa que é Yahweh, é absolutamente descontextual dentro da Bíblia.

Os textos críticos atuais, ao trazerem essa variante como texto principal, terminaram por colocar o verso em disputa, pois se a palavra correta for “Senhor”, no contexto Bíblico esse Senhor é, indubitavelmente, Yahweh, mas se em vez de “Senhor” a palavra é “Jesus”, então, um ponto da doutrina trinitária ou unicista ganha força, visto que a preferência será identificar Jesus diretamente como sendo o Yahweh do A.T. Hoje, pouca gente, inclusive entre os estudiosos, concordará com essa última proposta para Jd. 5, mas todas as novas atualizações da Bíblia que se basearem no TC, publicadas a partir de 2012, poderão trazer essa variante, gerando uma mudança de paradigma. Isso poderá criar uma impressão para os futuros leitores que Jesus e Yahweh são o mesmo a partir da comparação desse verso de Judas como os fatos ocorridos no Antigos Testamento.

Por que devemos preferir “Senhor” à “Jesus” como a palavra original de Jd. v.5? Bem, apesar de se alegar que há bom apoio pela opção “Jesus”, na verdade, tanto esta quando a palavra “Senhor” têm apoio de poucos testemunhos antigos que sobreviveram. Se para a variante Ἰησοῦς tem-se o codex B (Vaticanus) do séc. IV, para a variante κύριος tem-se o codex א (Sanaítico) que também é do séc. IV.

Todos os demais manuscritos que apoiam um ou outro são posteriores ao séc. IV. A variante Ἰησοῦς tem, ainda, o A (Alexandrinus) do V, o 337 que é do séc. IX; o 81 do séc. XI; 1241 do séc. XII; 1739 do séc. X; 1881 do sec. XIV; 2344 do séc. XI, dentre outros. Entre os chamados pais, no manuscrito 1739 do séc. X há uma anotação que indica que Orígenes (254 d.C) teria atestado o texto, outros “pais” seriam Dídimo (395 d.C) e Cirilo (444 d.C). Talvez esses pais deem uma ligeira vantagem para a variante apenas em termos de testemunho, mas longe de ser decisiva em seu favor.

A variante κύριος conta, também, com o C* do séc. V; 436 do séc. VII, o Ψ do séc. VIII/IX; os byz (bizantinos); o 181 do séc. X; o 104 do séc. XI; 1505 séc. XII, dentre outros. Entre os chamados pais em apoio seu apoio, tem-se Efraim (373 d.C), Teófilo (412 d.C) e João Damasceno (754 d.C). Então, se pode dizer que ambos são bem atestadas, mas certamente as duas não podem ser verdadeiras.

A variante κύριος é classificada como “D” no Texto Crítico, e em versões anteriores do TC aparece como texto principal. Isso ocorre quando a Comissão considera “muito difícil” decidir qual variante usar. E, atualmente, a variante Ἰησοῦς é classificada “C”, e isso ocorre quando se considera que é apenas “difícil” decidir pelo uso dela. Ora, se uma tem grau de certeza “D” e a outra “C”, por que se preferiu a “D”, antes da NA 28 e USB5, e agora optou-se pela “C”? Será que isso sugere que Ἰησοῦς é uma variante melhor que κύριος? Não, não é! Porque se fosse não haveria alternância baseado na dificuldade dessas variantes na construção do TC e seria a única opção desde a primeira edição. Na verdade, o problema da incerteza de classificação nessa questão tem a ver com um dos postulados científicos adotados para elaboração do Texto Crítico que é “A leitura mais difícil deve ser a preferida” (ou adotada). A leitura mais difícil para Judas v. 5 certamente é Ἰησοῦς. Mas, a Comissão tinha o entendimento, nas versões 3 e 4 da UBS, que era difícil a ponto do impossível”, pois, de fato, não é comum que Jesus seja apontado como aquele que libertou Israel do Egito8 ou atuando diretamente e explicitamente no Antigo Testamento. Assim, Κύριος é, sem dúvida, entre as duas, a leitura mais provável, mas adotá-la fere o critério de colocar a leitura mais improvável com texto principal. Por isso escolher κύριος, para a Comissão, é mais difícil (por isso a classificação D) que escolher Ἰησοῦς (classificado como C).

Curiosamente a Nova Vulgata, portanto, a versão que é atualmente usada nos atos litúrgicos da Igreja Católica, produzida após o Concílio Vaticano II e homologada com versão oficial da ICAR pelo papa João Paulo II, disponível para leitura no site do Vaticano, e, portanto, sem qualquer pretensão de desfazer a crença dessa igreja de que Jesus é Deus e da existência de uma trindade, rompeu com as versões latinas anteriores e destoando das novas versões gregas recentemente produzidas, verteu assim o texto: “quoniam Dominus semel populum de terra Aegypti salvans, secundo eos, qui non crediderunt, perdidit9. Dominus é a palavra latina para “Senhor”, o que permite entender que foi o Pai o referenciado nesse verso.

Roger Omanson, comentando o texto grego, reconhece que apesar de Ἰησοῦς ter apoio sólido em determinados manuscritos (mas, o mesmo pode ser dito da variante κύριος, pois há muitos manuscritos que a apoia), Ἰησοῦς é “demasiadamente difícil. É pouco provável que o autor fizesse referência a Jesus num contexto em que escreve a respeito da redenção do povo de Israel do Egito (veja, no entanto, 1Co. 10.4). Além disso, em momento algum o autor desta carta se refere a ‘Jesus’ usando apenas este nome; ele sempre diz ‘Jesus Cristo’. É provável que o nome Ἰησοῦς tenha sido inserido nesse texto por um copista que tenha feito confusão entre duas abreviaturas de nomes, pensando que KC (κύριος) fosse IC (Ἰησοῦς).10

Outra evidência interna em favor de κύριος pode ser trazida à baila. Além de Judas nunca usar o nome de Jesus isolado em sua epístola, ou seja, ele sempre usa nomes compostos para o Filho de Deus como “Jesus Cristo” ou “Senhor Jesus Cristo”, Judas também dá indicativos que tende a usar κύριος (Senhor) quando se depara com referências atribuídas a Deus como se vê em citações anteriores. Por exemplo, ao citar o Livro dee Enoque 1.8,9 (2.1) nos versos 14 e 15 da epístola (também em ambiente de julgamento como Jd. 5), ele troca o uso de palavra “Deus” por “Senhor”. O mesmo pode ter ocorrido nas referências a Yahweh no evento da libertação do povo de Israel do Egito onde Judas escreveu “Senhor”. É uma sugestão com melhor grau de razoabilidade que essa variante é a mais provável para o texto.

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1 Bíblia de Jerusalém, 8ª Ed. 2012

2 Idem

3 Sociedade Bíblia Alemã. A 5ª edição é publicada no Brasil pela Sociedade Bíblica do Brasil, e, eventualmente, pode ser mencionada como USB5.

4 A Comissão, apesar de apresentar “κύριος” em todas as outras versões do Texto Grego, considera essa palavra com classificação “D”.

5 https://net.bible.org/#!bible/Jude+1

6 Também a English Standard Version (ESV); New Living Translation (NLT) edição de 2015; Christian Standard Bible , edição de 2017.

7Acerca desse manuscrito as notas introdutórias do USB5 diz “O manuscrito 33 ainda é uma testemunha citada de forma consistente, não devido à sua relevância para a reconstrução do texto, mas porque traz leituras especiais interessantes.” (destaquei), pág. xvi. Certamente, uma dessas leituras se encontra em Judas v.5.

8 Referências de atuação de Jesus no Antigo Testamento são figuradas como, por exemplo, Jo. 8.56 quando diz que Abraão viu o dia de Jesus (certamente uma alusão ao cordeiro preso pelos chifres que permitiu a salvação de Isaque); ou I Co. 10.4 onde se diz que a pedra, que verteu água, era Cristo, aqui, sem dúvida, a línguagem não é de uma atuação pessoal de Jesus.

9 http://www.vatican.va/archive/bible/nova_vulgata/documents/nova-vulgata_nt_epist-iudae_lt.html

10 Variantes Textuais do Novo Testamento de Roger L. Omanson – Sociedade Bíblica do Brasil, 2010, págs. 541 e 542

II Pe. 1.1

II Pe. 1.1 Simão Pedro, servo e apóstolo de Jesus Cristo, aos que conosco alcançaram fé igualmente preciosa pela justiça do nosso Deus e Salvador Jesus Cristo.

Este é mais um dos versos, a exemplo de Tt. 2.13, que tentam buscar como comprovação da suposta deidade de Jesus. Traduções com redações semelhantes tem sido usadas com esse fim, mas é oportuno dizer que não existe unanimidade na tradução do versículo. Por exemplo, a versão católica da Bíblia Sagrada da Editora Ave Maria traduziu: “Simão Pedro, servo e apóstolo de Jesus Cristo, àqueles que, pela justiça do nosso Deus e do Salvador Jesus Cristo, alcançaram por partilha uma fé tão preciosa como a nossa”. Reconhecendo Deus e o Salvador como seres distintos. Mesmo a Bíblia de Jerusalém que é uma tradução feita por católicos e protestantes, ainda que vertendo o trecho de forma tradicional, informa como primeira nota de roda pé a II Pe. 1.1 a versão alternativa de tradução: “Ou: de nosso Deus e do Salvador Jesus Cristo”. Mostrando ser possível as duas versões.

Uma comparação desse verso de II Pedro com outro trecho das Sagradas Escrituras suscitam algumas indagações. Notemos os originais abaixo:

τοῦ θεοῦ ἡμῶν καὶ κυρίου Ἰησοῦ Χριστοῦ. (II Ts. 1.12)

τοῦ θεοῦ ἡμῶν καὶ σωτῆρος Ἰησοῦ Χριστοῦ (II Pe. 1.1)

A única diferença entre esses versos, nesses trechos, não é gramatical. Apenas consta “kyrios” onde na outra consta, exatamente na mesma posição, sôtêros.

Mas, o tradutor verteu de forma diferente, dando sentido diferentes aos versos:

“de nosso Deus e do Senhor Jesus Cristo” (II Ts. 1.12) ACF

(aqui se identifica dois personagens e suas respectivas qualidades)

“do nosso Deus e Salvador Jesus Cristo” (II Pe. 1.1) ACF

(Aqui se identifica um personagem com duas qualidades)

Em linhas simples, poderíamos nos perguntar porque não colocaram o “DO” em II Pe. 1.1, como fizeram em II Ts. 1.12, já que a estrutura é a mesma. Note que se lermos o v.2 de II Pe. 1:“pelo conhecimento de Deus, e de Jesus nosso Senhor”, o apóstolo parece mostrar de forma clara que ele não quis apresentar Jesus como Deus e Salvador ao mesmo tempo no v.1, pois o distingui na sequência imediata no v.2.

Em linhas complexas, a reivindicação de Jesus ser apresentado como Deus e Salvador em II Pe. 1.1 é a mesma de Tt. 2.13 e tem a ver com uma regra inventada (o seu autor diria descoberta) por um inglês, pelos idos de 1800 d.C, chamado Granville Sharp. É mais ou menos como se um inglês declarasse haver descoberto uma regra de sânscrito que nem mesmo os autores dos remotos vedas e os estudiosos daquela língua sonhavam existir. Ou seja, Sharp e seus defensores acreditam ter achado algo que nenhum gramático de grego da antiguidade, em quase 3.000 de origem da língua, postulou.

A suposta regra é, basicamente, o seguinte: Artigo + Substantivo + KAI + Substantivo, indicaria que os dois substantivos se referem a mesma pessoa. Isso é a primeira regra dele (existem seis).

O problema é que se for tomada apenas assim, logo surgem problemas para sua aplicação, porque existiriam uma miríade de exceções que descaracterizaria a regra. Então, ele acrescentou à definição várias restrições: Se um ou os dois substantivos forem plurais a regra pode não se aplicar. Se for nomes próprios, por questões óbvias, a regra não se aplica. Se for referentes a coisas ou lugares a regra não se aplica, Se for numerais não se aplica. Se for plurais semânticos pode não se aplicar e segue um lista de não aplicação.

Na verdade todo o esforço de listar as supostas exceções que são variadas e numerosas é para excluir os invalidadores da regra e tentar mantê-la viva, pois caso contrário cada um desses impedimentos a derrubaria. O problema é que tentaram por em regra aquilo que se define pelo contexto. Isso se percebe porque se plurais, inclusive os semânticos, lugares, nomes próprios e etc, não se encaixam, a razão é simples; pelo contexto se percebe que não poderiam ser a mesma pessoa ou grupo, então, não é a suposta regra quem determina isso.

Depois de toda restrição, pegam as ocorrências onde a “regra” parece funcionar, digo parece, porque depois que se tira todas as exceções possíveis e imagináveis, realmente sobra os casos onde a “regra” parece funcionar, e a apresentam. Em outras palavras, criaram uma “regra” extremamente restrita e com finalidade específica (eu diria Ad hoc): Tentar provar a deidade trinitária de Jesus.

Sharp não esbarrou em uma regra que ninguém antes dele, nos milhares de anos da língua grega havia achado, ele estava procurando um meio de legitimar o dogma da trindade através da gramática, porque não há afirmação bíblica sobre a trindade. Assim, não há imparcialidade na redação da “regra”. Todas as flagrantes objeções linguísticas são postas fora do escopo para tentar legitimá-la.

Mas, ainda que se use a “regra” em seu sentido mais restrito (no “só para isso”), a gosto de seus depuradores, ainda assim, há exceções: Pv. 24.1 (LXX) é um dos casos bíblicos, mas há também na literatura externa. Ou seja, é uma base insegura para se definir aquilo que se deve definir pelo contexto. Certamente ninguém precisa de uma regra para traduzir “ὁ θεὸς καὶ πατὴρ” (II Co. 1.3), que está no arranjo “artigo” + “substantivo” + KAI + “substantivo” por “O Deus e Pai” se referindo ao Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo. Não seria uma regra que indicaria ali que os dois substantivos se referem ao mesmo ser. Ninguém antes de 1800 usou a “regra” (ela não existia) e ninguém se confundiu com essa tradução e outras passagens em uma suposta construção Sharp.

Aqui podemos falar também da questão semântica, que é outro problema da regra. Ainda sobre II Co. 1.3: Pai já é uma referência comum a Deus, de modo que ainda que tentem colocar expressões como essa sob a regra, ela é inócua e desnecessária e o texto não depende dela para ser compreendido, pois se elenca designações já conhecidas. É justamente a questão semântica que faz alguns defensores da regra de Sharp admitir correta a tradução “de nosso Deus e do Senhor Jesus Cristo” em II Ts. 1.12, pois consideram ai a palavra “Senhor” como parte de um nome composto como “Senhor Jesus Cristo”, ou seja, nome próprio composto, o que faria a expressão sair do escopo da regra. Nesse ponto a suposta regra adquire alguma subjetividade, pois “Salvador” também pode ser considerado parte de um nome composto em “Salvador Jesus Cristo”. Essa “particularidade” semântica, ao que parece, é desconhecida pelos mais dedicados apologetas trinitários aqui do Brasil. E essa questão é mais um problema que torna a tal regra insegura, incerta e não aproveitável para o fim ao qual foi criada, pois se considerarmos “Salvador Jesus Cristo” como um termo técnico, um nome próprio composto, a regra deixa de ser aplicável tanto a II Pe. 1.1 quanto Tt. 2.13. A própria expressão “Grande Deus” em Tito, pode ser um termo técnico de identificação da Divindade (Ed. 5.8, Ne.8.6, Dn. 2.45, Ap. 19.17), que também anularia a aplicabilidade da regra ali. E se admitirmos que a palavra “Deus”, de fato, em vários casos adquiri o status de nome, então, não devemos confiar na “regra” por mais de uma razão.

Mas, mas mesmo que admitíssemos os postulados de Sharp como regras válidas, os trinitarianos ao tentar ganhar uma suposta evidência da deidade de Jesus perderiam outras. A sexta regra, por exemplo, elaborada por Sharp, apresenta uma situação ligeiramente modificada da primeira, ela determina que se houver uma construção: Artigo + Substantivo + KAI + Artigo + Substantivo, então, se referiria a pessoas diferentes. Se as regras dele fossem verdadeiras e legítimas, um trinitário ganharia II Pe. 1.1 como um verso que chama Jesus, na visão deles, de Deus e perderia outro que, na visão deles, chama Jesus de Deus, Jo. 20.28 “ὁ κύριος μου καὶ θεός μου”. O verso de João, “Senhor meu e Deus meu”, está exatamente na construção em que Sharp diria que são pessoas diferentes. Mas, nesse caso, providencialmente, ele e os trinitarianos admitem ser uma exceção à regra.

Os cristoteistas tem usado muito II Pe. 1.11 , cujo texto diz: “a entrada no reino eterno de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo”, como ponto base de convencimento de que se Jesus está sendo chamado de “Senhor e Salvador” nesse verso, deve estar sendo chamado realmente de Deus e Salvador em II Pe. 1.1, a partir do acolhimento da regra de Sharp, já que o v.11 tem a estrutura requerida (ASKS) por Sharp: “τοῦ κυρίου ἡμῶν καὶ σωτῆρος Ἰησοῦ Χριστοῦ”. Nesse texto, com relação a II Pe. 1.1, há apenas a substituição da palavra “θεοῦ” por “κυρίου”. No entanto, como já dissemos, o contexto deve determinar a tradução, não uma regra que se mostra falha em todas as instâncias. Até porque “nosso Senhor” em em II Pe. 1.11 pode se referir sem qualquer dificuldade a Deus e na segunda parte se referir a Cristo. Isso se vê confirmado em um versículo que também fala de REINO: “Os reinos do mundo vieram a ser de nosso Senhor e do seu Cristo” (Ap. 11.15). Ainda que haja artigo antes de “Senhor” e antes da palavra “Cristo”, o texto prova que Deus é também nítida e naturalmente chamado de “Senhor”, de modo que, em II Pe. 1.11 “Senhor” pode, sem dificuldades, se referir a Deus e o segundo personagem no verso é Jesus.

Por causa desses vários problemas a regra passou quase 200 anos, desde de sua criação, praticamente morta. Poucos davam crédito ou a citavam para tentar validar uma identidade de Jesus com a Deidade. O Dr. Daniel B. Wallace tentou ressuscitar a regra em uma tese de doutorado em 1995 chamada Sharps Redivivus. Nesse trabalho o Dr. Wallace precisou encolher a “regra” ainda mais, ante as provas contrárias, para tentar mantê-la viva. Mas, mesmo seu trabalho de doutorado já foi avaliado e a “regra” continua devendo, já que ele mesmo não conseguiu solucionar todos os problemas conhecidos.

Ainda outra questão é oportuna falar se tudo isso fosse ignorado. A partir de Jo. 1.1, não existe reservas em chamar Jesus de “Deus”. A questão será sempre em que sentido, relativamente a posição do Pai, a palavra polissêmica “Deus” é usada em aplicação a Cristo. Sabemos por Jo. 17.3, nas palavras de Jesus mesmo, que não pode ter o mesmo sentido. Como não tem o mesmo sentido quando é aplicada aos juízes, anjos, reis, governantes e até Moisés.

Tudo isso mostra que a escassez de provas sobre uma requerida igualdade entre Jesus e seu Deus é tão grande que o trinitarismo tem que criar suas próprias provas. Se a trindade fosse uma realidade bíblica, ter-se-ia provas cabais e explícitas, a ausência disto leva a esse caminho que Sharp tomou.

Bem, há outros detalhamentos, mas essa exposição, penso, já dá uma visão panorâmica das coisas que envolvem a passagem de II Pe.1.1 e os problemas da suposta regra.

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