{"id":383,"date":"2010-09-20T00:01:25","date_gmt":"2010-09-20T00:01:25","guid":{"rendered":"http:\/\/www.unitarismobiblico.com\/1\/?p=383"},"modified":"2018-02-01T12:28:50","modified_gmt":"2018-02-01T15:28:50","slug":"a-trindade-de-tertuliano","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.unitarismobiblico.com\/w\/2010\/09\/20\/a-trindade-de-tertuliano\/","title":{"rendered":"A Trindade de Tertuliano"},"content":{"rendered":"<p>Certamente voc\u00ea j\u00e1 ouviu falar que os chamados pais da igreja eram trinit\u00e1rios e deve ter lido cita\u00e7\u00f5es deles que parecem n\u00e3o deixar d\u00favidas acerca disso. O que pretendo mostrar \u00e9 que os trechos usados pelos def\ufeffensores desse dogma apresentam apenas parte da hist\u00f3ria. \u00c9 ponto pac\u00edfico entre os estudiosos da hist\u00f3ria dos primeiros s\u00e9culos do cristianismo que os primitivos crist\u00e3os n\u00e3o ensinavam sobre a trindade, e que muitos n\u00e3o tinham uma ideia como se tem hoje sobre isso (por que ser\u00e1 que eles n\u00e3o tinham?). Mas, se assim \u00e9, por que, ent\u00e3o, se alega, por exemplo, que Tertuliano era defensor da trindade. Bem, vamos ler um pouco a respeito:<\/p>\n<p>A Tertuliano, crist\u00e3o desde 193 d.C, considerado um dos pais latinos, se atribui a cria\u00e7\u00e3o da palavra \u201c<em>trinitas<\/em>\u201d para referir-se a trindade. O uso dessa palavra fez com que Tertuliano fosse um dos antigos apologistas mais citados na hist\u00f3ria da igreja como defensor da doutrina trinit\u00e1ria. Mas, ser\u00e1 que Tertuliano era defensor desse dogma, na sua forma niceno-constantinopolitana? A palavra latina \u201c<em>trinitas<\/em>\u201d foi usada por ele para elencar Pai, Filho e Esp\u00edrito Santo como seres distintos<a href=\"#sdfootnote1sym\"><sup>1<\/sup><\/a>, mas n\u00e3o como coiguais ou coeternos por causa da consubstancia\u00e7\u00e3o entre as tr\u00eas pessoas. Na verdade, o conceito de coigualdade ou mesmo de consubstancialidade n\u00e3o era de aceita\u00e7\u00e3o geral nos dias de Tertuliano, pelo contr\u00e1rio, nem entre os latinos, nem, segundo ele, entre os gregos havia aceita\u00e7\u00e3o dessa ideia. Na obra Contra Praxeas, por exemplo, onde Tertuliano se op\u00f5e ao sabelianismo daquele, ao tempo em que defende que Pai, Filho e Esp\u00edrito Santo s\u00e3o Deus em consubstancia\u00e7\u00e3o, nos \u00e9 informado no cap\u00edtulo 3 que \u201c<em>Os Simples, de fato (n\u00e3o vou cham\u00e1-los de tolos ou ignorantes), que sempre constituem <\/em><em><strong>a maioria dos fi\u00e9is est\u00e3o <\/strong><\/em><em><span style=\"text-decoration: underline;\"><strong>chocados<\/strong><\/span><\/em><em><strong> com a dispensa\u00e7\u00e3o (dos Tr\u00eas em Um)<\/strong><\/em>\u201d e mais a frente nesse mesmo cap\u00edtulo lemos: \u201c<em>enquanto <\/em><em><strong>gregos justamente <\/strong><\/em><em><span style=\"text-decoration: underline;\"><strong>se recusam<\/strong><\/span><\/em><em> a entender a economia, ou dispensa\u00e7\u00e3o (dos Tr\u00eas em Um)<\/em>\u201d. Este testemunho mostra, de forma clara, que \u00e0 \u00e9poca em que foi escrito, ao contr\u00e1rio do que \u00e9 afirmado hoje pelos defensores do dogma da trindade, o ensino \u201c<em>dos Tr\u00eas em Um<\/em>\u201d n\u00e3o era cren\u00e7a corrente, nem facilmente aceito no seio da igreja; nem dos latinos, nem dos gregos e a teologia de Tertuliano come\u00e7ava a introduzir, ainda que de forma diferente dos conc\u00edlios posteriores, esse novo conceito. Isso termina por provar que a rejei\u00e7\u00e3o da cren\u00e7a \u201c<em>dos Tr\u00eas em Um<\/em>\u201d n\u00e3o era algo acidental ou localizada, mas geral na igreja antiga.<\/p>\n<p>Ainda que Tertuliano tem usado a palavra \u201ctrindade\u201d, devemos considerar, em respeito ao seu ponto de vista, que ele n\u00e3o a defendia em sua forma niceno-constantinopolitana. Na verdade, muitas de suas posi\u00e7\u00f5es ser\u00e3o rejeitadas pelos nicenos e ele mesmo seria considerado herege se pudesse as expor ali; pois mesmo os termos comuns nas duas teologias n\u00e3o tinham o mesmo sentido. Ao falar de \u201csubst\u00e2ncia\u201d, por exemplo, tertuliano n\u00e3o est\u00e1 se referindo a \u201cqu\u00edmica\u201d, por assim dizer, da Divindade, ou mais tecnicamente falando, n\u00e3o est\u00e1 evocando caracter\u00edsticas metaf\u00edsicas da Divindade; mas leva em conta, como advogado que era, sua conota\u00e7\u00e3o jur\u00eddica conforme esclarece Justo L. Gonz\u00e1lez: \u201c<em>O termo &#8216;subst\u00e2ncia&#8217; deve ser entendido aqui, n\u00e3o num sentido metaf\u00edsico, e sim num sentido legal. Dentro deste contexto, &#8216;subst\u00e2ncia&#8217; \u00e9 a propriedade e o direito que uma pessoa tem de fazer uso dessa propriedade. No caso da monarquia, a subst\u00e2ncia do Imperador \u00e9 o Imp\u00e9rio, e \u00e9 isto que torna poss\u00edvel para o Imperador partilhar sua subst\u00e2ncia com seu filho \u2013 como de fato era comum no Imp\u00e9rio Romano. &#8216;Pessoa&#8217;, por outro lado, deve ser entendida como &#8216;pessoa jur\u00eddica&#8217; e n\u00e3o no sentido comum.<\/em> \u201d<a href=\"#sdfootnote2sym\"><sup>2<\/sup><\/a> Nenhuma dessas acep\u00e7\u00f5es para essas palavras foram usadas, nem pelos bispos dos conc\u00edlios que ocorreram depois, nem por Agostinho de Hipona que tamb\u00e9m usa desses termos. \u00c9 interessante que quem cita, hoje, Tertuliano, em favor da trindade, ignora essa peculiaridade de seus escritos e termina por dar um conota\u00e7\u00e3o diferente \u00e0s suas palavras com rela\u00e7\u00e3o aquilo que ele pretendeu dizer, ainda que ele mesmo tenha advertido as pessoas sobre essa tend\u00eancia natural do homem no cap\u00edtulo 3 de Contra Praxeas quando falando a este, diz: \u201c<em>Eu preferiria que voc\u00ea ao contr\u00e1rio pensasse no significado da coisa do que no som da palavra<\/em>\u201d, ou seja, ainda que tenham sons iguais \u201cSubst\u00e2ncia\u201d e \u201cPessoa\u201d, em Tertuliano n\u00e3o tem conota\u00e7\u00e3o metaf\u00edsica ou ontol\u00f3gica, mas jur\u00eddica. Outra coisa que \u00e9 facilmente confundida nos escritos desse antigo crist\u00e3o, por causas das preconcep\u00e7\u00f5es trinit\u00e1rias convencionadas posteriormente, \u00e9 a fus\u00e3o ou confus\u00e3o do termo \u201cunidade\u201d, bastante usado por ele, com \u201ccoigualdade\u201d, n\u00e3o usado por ele. Para Tertuliano, ser da mesma \u201csubst\u00e2ncia\u201d aufere \u201cunidade\u201d. Nesse sentido, para ele, Jesus \u00e9 o mesmo Deus que o Pai, ainda que em grau inferior a ELE,  pois ser da mesma \u201csubst\u00e2ncia\u201d n\u00e3o aufere ao Filho \u201ccoigualdade\u201d na eternidade, por isso ele diz em Contra Praxeas 9.2: \u201c<em>Pois o Pai \u00e9 a inteira subst\u00e2ncia (<\/em><em><strong>pater enim tota substantia est<\/strong><\/em><em>); o Filho \u00e9 deriva\u00e7\u00e3o e por\u00e7\u00e3o do todo  (<\/em><em><strong>filius vero derivatio tortius et portio<\/strong><\/em><em>)<\/em>\u201d. Nesse mesmo sentido encontramos no cap\u00edtulo 13 a seguinte declara\u00e7\u00e3o: \u201c<em>Pois eu posso dar o nome de &#8220;sol&#8221; at\u00e9 mesmo para um raio de sol, considerado em si mesmo; mas se eu for mencionar o sol de onde o raio emana, eu certamente devo imediatamente abandonar o uso do nome de sol para o mero raio<\/em>.\u201d Assim, o escritor admite que Jesus \u00e9 Deus por deriva\u00e7\u00e3o e vontade do Pai, n\u00e3o por iner\u00eancia eterna de seu pr\u00f3prio ser<a href=\"#sdfootnote3sym\"><sup>3<\/sup><\/a>. Isto se v\u00ea confirmado no cap\u00edtulo 7 quando diz: \u201c<em>Assim Ele <\/em>(Deus Pai)<em> o faz <\/em>(ao Filho)<em> igual a Ele: pois por proceder d&#8217;Ele mesmo, Ele se torna seu Filho primog\u00eanito<\/em>\u201d e, ainda, \u201c<em>Em que forma de Deus? Claro que ele diz <\/em><em><strong>em alguma forma<\/strong><\/em><em>, e n\u00e3o em nenhuma<\/em>\u201d e \u00e9 nessa forma determinada pelo Pai, no entender de Tertuliano que o Filho \u00e9 igual a Deus, n\u00e3o em sua totalidade: \u201c<em>Ele mostra que h\u00e1 dois, a quem Ele coloca em igualdade e une em um<\/em>\u201d (Contra Praxeas, C. 22), lembremos sempre igualdade na unidade, mas n\u00e3o na totalidade da \u201csubst\u00e2ncia\u201d. A percep\u00e7\u00e3o de desigualdade entre o Pai e o Filho, embora da mesma subst\u00e2ncia, \u00e9 bem delineado nos escritos de Tertuliano e focando isso ele chega a dizer: \u201c<em>a Palavra \u00e9 Deus, porque procedendo de Deus, mas ainda n\u00e3o realmente igual \u00e0quele de quem Ele procede<\/em>\u201d (Contra Praxeas, c. 26), nesse mesmo cap\u00edtulo endossa que o Filho, se considerado Deus, o \u00e9 por ser por\u00e7\u00e3o da \u201csubstancia\u201d de Deus, e n\u00e3o o Pr\u00f3prio Deus, o Pai, a quem Tertuliano considera a origem do segundo (o Filho), donde vem o terceiro (o Esp\u00edrito). E por falar em consubstancia\u00e7\u00e3o, uma das frases mais usadas atribu\u00eddas a Tertuliano, como defesa da trindade nicena, \u00e9 \u201c<em>Uma s\u00f3 subst\u00e2ncia em tr\u00eas pessoas<\/em>\u201d, mas essa que ficou conhecida como a forma cl\u00e1ssica das palavras de Tertuliano, n\u00e3o \u00e9 o que esse antigo crist\u00e3o escreveu. Ele, na verdade, disse: \u201c<em><strong>unam substantiam in tribus cohaerentibus<a href=\"#sdfootnote4sym\"><sup>4<\/sup><\/a><\/strong><\/em>\u201d que significa \u201c<em>Uma s\u00f3 subst\u00e2ncia em tr\u00eas interligados<\/em>\u201d<a href=\"#sdfootnote5sym\"><sup>5<\/sup><\/a> e isso n\u00e3o reflete coigualdade no pensamento dele sobre o Pai, o Filho e o Esp\u00edrito Santo, como j\u00e1 vimos e veremos mais em seguida; reflete unidade. Deve-se ter claro que esta n\u00e3o \u00e9 a \u00fanica fala de Tertuliano que foi ligeiramente modificada para tornar mais \u201cexplicito\u201d o \u201ctrinitarianismo\u201d dele. Mas, vale a pena registrar tamb\u00e9m que ele, ao falar dos Tr\u00eas, disse: \u201c<em>A unidade dever ser procurada n\u00e3o na ess\u00eancia, <\/em><em><strong>mas na origem das pessoas<\/strong><\/em>\u201d<a href=\"#sdfootnote6sym\"><sup>6<\/sup><\/a>, ele tamb\u00e9m disse: \u201c<em>a Trindade, atrav\u00e9s de uma s\u00e9rie de degraus cruzados e interligados, <\/em><em><strong>descende do Pai<\/strong><\/em><em> e n\u00e3o se op\u00f5e \u00e0 monarquia, mas protege a natureza da economia<\/em>\u201d<a href=\"#sdfootnote7sym\"><sup>7<\/sup><\/a>. Logo se percebe que a aplica\u00e7\u00e3o do termo \u201cess\u00eancia\u201d ou \u201csubst\u00e2ncia\u201d na \u00e9poca de Tertuliano \u00e9 completamente diferente daquela empregada mais de um s\u00e9culo depois pelos nicenos, ou mesmo por Agostinho quando disse que \u201c<em>Deus \u00e9 uma subst\u00e2ncia<\/em>\u201d composta por tr\u00eas pessoas. Tertuliano usou o termo para dizer que o Filho e o Esp\u00edrito Santo participam da divindade por deriva\u00e7\u00e3o direta, diferente de como os humanos participam. O Filho deriva do Pai e o Esp\u00edrito do Pai atrav\u00e9s do Filho. A prova da diferen\u00e7a do uso do termo \u201csubst\u00e2ncia\u201d se revela no pr\u00f3prio trato que os pr\u00f3prios nicenos davam a palavra. Eles abertamente n\u00e3o se sentiam \u00e0 vontade para usar a palavra conforme proclamada no credo praticamente 150 anos depois de Tertuliano, porque l\u00e1 ela tinha outra denota\u00e7\u00e3o. Embora tenha origem distinta podemos dizer Tertuliano usou o termo em simplicidade como reconheceria o credo ariano ao dizer \u201c<em>A palavra ousia [subst\u00e2ncia], porque foi usada pelos Pais em simplicidade [que significa dizer, com boa inten\u00e7\u00e3o], mas n\u00e3o sendo compreendida pelas pessoas, ocasionou esc\u00e2ndalos, n\u00e3o est\u00e1 contida nos Escritos Sagrados\u201d<\/em>. De fato, hoje citam as palavras de Tertuliano como se ele usasse a palavra \u201csubst\u00e2ncia\u201d com o mesmo sentido que esta no credo niceno ou no credo atanasiano e isso n\u00e3o \u00e9 verdade. Assim, embora Tertuliano tenha sido o primeiro a usar o voc\u00e1bulo \u201c<em>trinitas<\/em>\u201d donde veio a palavra \u201ctrindade\u201d, ele n\u00e3o ensinava a trindade como ser\u00e1 concebida posteriormente nos conc\u00edlios e usada, nesse novo sentido, at\u00e9 hoje. Na verdade Tertuliano seria mais propriamente classificado como unit\u00e1rio que trinit\u00e1rio, pois ainda que admitia Jesus como Deus, este n\u00e3o era Deus igual ao Pai, assim o criam muitos unit\u00e1rios nas \u00e9pocas dos conc\u00edlios. E, no contexto em que ele usou a palavra \u201ctrindade\u201d o sentido \u00e9 completamente heterodoxo ao que se crer hoje. Isto se conclui facilmente quando analistas das afirma\u00e7\u00f5es de Tertuliano confirmam: \u201c<em>Ao falar da gera\u00e7\u00e3o do Filho, sem querer comprometer a sua divindade, admite uma certa grada\u00e7\u00e3o, desde uma fase anterior \u00e0 cria\u00e7\u00e3o, em que o Logos de Deus se contempla a Si mesmo, para passar a contemplar a economia salv\u00edfica, e \u00e9 engendrado de forma imanente em Deus, at\u00e9 \u00e0 cria\u00e7\u00e3o, em que a Palavra se realiza como tal ao ser proferida. <\/em><em>Cristo \u00e9, assim, o primog\u00eanito do Pai, gerado antes de todas as coisas, mas n\u00e3o \u00e9 eterno<\/em><em>. O Filho \u00e9 como que uma por\u00e7\u00e3o ou emana\u00e7\u00e3o do Pai.<\/em>\u201d<a href=\"#sdfootnote8sym\"><sup>8<\/sup><\/a> Tal assertiva j\u00e1 deveria ser o suficiente para se questionar a afirma\u00e7\u00e3o dos te\u00f3logos trinit\u00e1rios de que Tertuliano defendia esse dogma como \u00e9 aceito hoje e havia cunhado aquela palavra para melhor defini-la. O antigo te\u00f3logo disse tamb\u00e9m \u201c<em><strong>Houve um tempo em que n\u00e3o havia Filho e nem pecado, quando Deus n\u00e3o era nem pai nem juiz<\/strong><\/em>\u201d<a href=\"#sdfootnote9sym\"><sup>9<\/sup><\/a>. Por mais clara que seja essa declara\u00e7\u00e3o de temporalidade do Filho na compreens\u00e3o de Tertuliano (veremos mais adiante que n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 dele), que o admitia preexistente, mas n\u00e3o coeterno com o Pai, h\u00e1 quem tente descaracterizar a incisividade dessa afirma\u00e7\u00e3o alegando que essa express\u00e3o foi usada em um momento de ousadia para combater a alega\u00e7\u00e3o de Herm\u00f3genes que acreditava ser a mat\u00e9ria eterna para poder dar a eternidade do t\u00edtulo Senhor a Deus, pois na compreens\u00e3o daquele, Deus s\u00f3 poderia ser eternamente Senhor, se houvesse algo sobre o que ser Senhor, dai alegam alguns trinit\u00e1rios que Tertuliano ousou na express\u00e3o para contrapor Herm\u00f3genes, dizendo que Deus nem sempre foi Senhor, nem   sempre Pai, nem sempre Juiz, mas, segundo eles, n\u00e3o para negar a coeternidade do Filho com seu Pai, Deus, e sim para desdizer Herm\u00f3genes, mas essa tentativa de justifica\u00e7\u00e3o n\u00e3o pr\u00f3spera, pois al\u00e9m de n\u00e3o explicar satisfatoriamente a quest\u00e3o, ignora que o que est\u00e1 informa\u00e7\u00e3o em Contra Herm\u00f3genes n\u00e3o foi a \u00fanica declara\u00e7\u00e3o de Tertuliano nesse sentido. Em Contra Praxeas, por exemplo, vemos essa compreens\u00e3o dele confirmada em suas pr\u00f3prias palavras nas seguintes declara\u00e7\u00f5es:<\/p>\n<ul>\n<li>\u201c<em>Mas quanto a mim, que <\/em><em><span style=\"text-decoration: underline;\"><strong>deriva<\/strong><\/span><\/em><em> o Filho de nenhuma outra fonte que n\u00e3o a subst\u00e2ncia do Pai<\/em>\u201d \t(Cap\u00edtulo 4).<\/li>\n<li>\u201c<em>&#8230;mesmo antes da cria\u00e7\u00e3o \tdo universo Deus n\u00e3o estava sozinho, desde que ele tinha em Si \tpr\u00f3prio tanto Raz\u00e3o e, inerentemente \u00e0 Raz\u00e3o, Sua Palavra, que \tEle <\/em>(Deus)<em> <\/em><em><span style=\"text-decoration: underline;\"><strong>fez \toutro<\/strong><\/span><\/em><em><strong> em Si<\/strong><\/em><em> por agit\u00e1-la em Si mesmo <\/em>\u201d \t(Cap\u00edtulo 5), o \tFilho aqui ainda n\u00e3o \u00e9 pessoa distinta do Pai, mas \u00e9 feito, \tsegundo ele, no interior do Pai, como mais a frente se dir\u00e1  gerado \t\u201c<em>do \t\u00fatero de Seu pr\u00f3prio cora\u00e7\u00e3o<\/em>\u201d.<\/li>\n<li>\u201c<em>Ele \tme <\/em><em><span style=\"text-decoration: underline;\"><strong>criou<\/strong><\/span><\/em><em> e me <\/em><em><span style=\"text-decoration: underline;\"><strong>gerou<\/strong><\/span><\/em><em> em Sua pr\u00f3pria intelig\u00eancia<\/em>\u201d \t(Cap\u00edtulo 6). Tertuliano parafraseia, claramente, Pv. 8.22, \tadmitindo cria\u00e7\u00e3o e gera\u00e7\u00e3o.<\/li>\n<li>\u201c<em>Este \t\u00e9 o perfeito <\/em><em><strong>nascimento<\/strong><\/em><em> da Palavra, quando Ela <\/em><em><strong>procede<\/strong><\/em><em> de Deus &#8211; formada por Ele primeiro<\/em>\u201d \t(Cap\u00edtulo 7).<\/li>\n<li>H\u00e1 \tum \u201c<em>gerado \tpor Deus, de uma forma peculiar a Si mesmo, do \u00fatero de Seu pr\u00f3prio \tcora\u00e7\u00e3o<\/em>\u201d \t(Cap\u00edtulo 7), perceba que h\u00e1 sempre um feitor ou gerador e outro \tfeito ou gerado, Um que \u00e9 antes e outro que \u00e9 depois.<\/li>\n<li>\u201c<em>Ele \tse tornou ent\u00e3o o Filho de Deus, e foi gerado quando Ele procedeu \td&#8217;Ele<\/em>\u201d \t(Cap\u00edtulo 7). Reconhece a temporalidade da condi\u00e7\u00e3o de Filho.<\/li>\n<li>\u201c<em>Ele \tfez de Sua Palavra um Filho para Si mesmo<\/em>\u201d(Cap\u00edtulo \t11.)<\/li>\n<li>\u201c<em>Sua \tprimeira declara\u00e7\u00e3o \u00e9 de fato feita, quando o Filho n\u00e3o havia \taparecido ainda<\/em>\u201d \t(Cap\u00edtulo 12).<\/li>\n<li>\u201c<em>n\u00f3s \treconhecemos o Filho como sendo vis\u00edvel em raz\u00e3o da dispensa\u00e7\u00e3o \tda Sua exist\u00eancia derivada<\/em>\u201d \t(Cap\u00edtulo 14).<\/li>\n<li>\u201c<em>e \tnaquele princ\u00edpio Ele foi prolatado pelo Pai<\/em>\u201d \t(Cap\u00edtulo 19).<\/li>\n<li>\u201c<em>Agora, \tpor dizer &#8216;o Esp\u00edrito de Deus&#8217; (apesar de que o Esp\u00edrito de Deus \u00e9 \tDeus,) e <\/em><em><strong>por \tn\u00e3o nomear diretamente Deus, <\/strong><\/em><em><span style=\"text-decoration: underline;\"><strong>ele \tquis que fosse entendida aquela por\u00e7\u00e3o de toda a divindade, que \testava prestes a se retirar para a designa\u00e7\u00e3o de &#8216;Filho&#8217;<\/strong><\/span><\/em><em>. \tO Esp\u00edrito de Deus nesta passagem deve ser o mesmo que a Palavra<\/em>\u201d \t(Cap\u00edtulo 26).<\/li>\n<\/ul>\n<p>Diante dessas declara\u00e7\u00f5es \u00e9 dif\u00edcil negar que sua afirmativa em Contra Herm\u00f3genes, quando disse: \u201c<em><strong>Houve um tempo em que <\/strong><\/em><em><span style=\"text-decoration: underline;\"><strong>n\u00e3o havia Filho<\/strong><\/span><\/em><em><strong> e nem pecado, quando Deus n\u00e3o era nem pai nem juiz<\/strong><\/em>\u201d, tenha sido acidental ou mera ret\u00f3rica e n\u00e3o reflexo de sua pr\u00f3pria convic\u00e7\u00e3o de que o Filho, ainda que Deus por participa\u00e7\u00e3o na subst\u00e2ncia do Pai a partir de sua gera\u00e7\u00e3o, n\u00e3o \u00e9, de fato, eterno preteritamente.<\/p>\n<p>Em Contra Praxeas se v\u00ea distribu\u00eddo no corpo do texto a atribui\u00e7\u00e3o das caracter\u00edsticas do Filho como \u201cderivado\u201d, \u201cpor\u00e7\u00e3o da Divindade\u201d, \u201cprolatado\u201d, \u201cformado\u201d, \u201cfeito\u201d, \u201cprocedido\u201d, \u201cgerado\u201d, \u201cnascido\u201d e \u201ccriado\u201d antes da cria\u00e7\u00e3o do mundo. \u00c9 dif\u00edcil crer que ele tenha usado todos esses predicativos para querer denotar a eternidade de algu\u00e9m. Assim, o Filho \u00e9 parte da \u201csubst\u00e2ncia\u201d, derivado dela, mas n\u00e3o toda subst\u00e2ncia e sempre o segundo na posi\u00e7\u00e3o. Tertuliano confirma a realidade do princ\u00edpio do Filho ao contrastar com a eterna exist\u00eancia do Pai dizendo: \u201c<em>O Pai, contudo, n\u00e3o teve princ\u00edpio, n\u00e3o procedendo de ningu\u00e9m<\/em>\u201d (Cap\u00edtulo 19). Aqui fica claro que ao usar a palavra \u201cproceder\u201d Tertuliano esta falando de ter um princ\u00edpio, pelo fato de o Pai por n\u00e3o ser \u201cprocedido\u201d n\u00e3o teve princ\u00edpio; e essa palavra ele usa com rela\u00e7\u00e3o ao Filho. Portanto, por conta dessa clara posi\u00e7\u00e3o qualquer afirma\u00e7\u00e3o em defesa da trindade niceno-constantinopolitana atribu\u00edda a Tertuliano \u00e9 prec\u00e1ria e equivocada, pois ele n\u00e3o a pode ter defendido e ensinado se entendia que o Filho n\u00e3o era preteritamente eterno e sua pr\u00f3pria concep\u00e7\u00e3o de Jesus com Deus decorre de sua vis\u00e3o de que Ele, Jesus, era uma por\u00e7\u00e3o ou emana\u00e7\u00e3o do Pai, sa\u00eddo de Deus para atendimento dos prop\u00f3sitos da cria\u00e7\u00e3o<a href=\"#sdfootnote10sym\"><sup>10<\/sup><\/a> e salva\u00e7\u00e3o. Claramente se percebe que Tertuliano n\u00e3o usou a palavra trindade no sentido de identifica\u00e7\u00e3o ontol\u00f3gica de Deus, mas para contrapor o sabelianismo de Pr\u00e1xeas que n\u00e3o acreditava existir tr\u00eas: Pai, Filho e Esp\u00edrito; mas apenas um que se manifestava de tr\u00eas modos. Na verdade, essa percep\u00e7\u00e3o de que a gera\u00e7\u00e3o do Filho se deu por emana\u00e7\u00e3o (gera\u00e7\u00e3o)  ou deriva\u00e7\u00e3o se assemelha muito a de outros te\u00f3logos daquela mesma \u00e9poca como, por exemplo, Taciano, que foi disc\u00edpulo de Justino, autor do Discurso Contra os Gregos (160 d.C), em Roma, e Diat\u00e9ssaron (172 d.C), que escreveu acerca de Jesus: \u201c<em>Antes da cria\u00e7\u00e3o, Deus estava s\u00f3; o Logos estava imanente nEle como Sua potencialidade para criar todas as coisas. <\/em><em><strong>No momento da cria\u00e7\u00e3o, por\u00e9m, Ele irrompeu do Pai como Sua &#8216;obra primordial&#8217; (ergon prototokon).<\/strong><\/em><em> &#8216;esp\u00edrito derivado de esp\u00edrito, racionalidade derivada do poder racional&#8217;\u201d<\/em> Perceba a semelhan\u00e7a de ideias bem como a proximidade das datas entre os dois,  e perceba que ambos s\u00e3o do II s\u00e9culo.<\/p>\n<p>___________<\/p>\n<p><a href=\"#sdfootnote1anc\"><span style=\"font-size: x-small;\">1<\/span><\/a><span style=\"font-size: x-small;\"> Ele \tfez uso da palavra <\/span><em><span style=\"font-size: x-small;\">trinitas<\/span><\/em><span style=\"font-size: x-small;\"> em oposi\u00e7\u00e3o \ta Pr\u00e1xeas que defendia ser o Pai o pr\u00f3prio Filho e por isso \tPr\u00e1xeas dizia que o Pai foi quem morreu na cruz. Esse pensamento \tera conhecido como patripassionismo (a pax\u00e3o teria sido sofrida \tpelo Pai).<\/span><\/p>\n<p><a href=\"#sdfootnote2anc\"><span style=\"font-size: x-small;\">2<\/span><\/a><span style=\"font-size: x-small;\"> <\/span><em><span style=\"font-size: x-small;\">Apud<\/span><\/em><span style=\"font-size: x-small;\"> Justo \tL. Gonz\u00e1lez in \u201cUma Hist\u00f3ria do Pensamento Crist\u00e3o, Ed. Cultura \tCrist\u00e3, 2004, vol. I, p\u00e1g. 174\/5<\/span><\/p>\n<p><a href=\"#sdfootnote3anc\"><span style=\"font-size: x-small;\">3<\/span><\/a><span style=\"font-size: x-small;\"> Para Tertuliano, tamb\u00e9m o Esp\u00edrito Santo n\u00e3o \u00e9 Deus em sua \ttotalidade, mas uma deriva\u00e7\u00e3o desse atrav\u00e9s do Filho. Ele \tconfirma isso ao dizer no cap. 26 de Contra Praxeas: \u201c<\/span><em><span style=\"font-size: x-small;\">Agora, \tpor dizer &#8216;o Esp\u00edrito de Deus&#8217; (apesar de que o Esp\u00edrito de Deus \u00e9 \tDeus,) e por n\u00e3o nomear diretamente Deus, ele quis que fosse \tentendida <\/span><\/em><em><strong><span style=\"font-size: x-small;\">aquela por\u00e7\u00e3o<\/span><\/strong><\/em><em><span style=\"font-size: x-small;\"> de toda a divindade\u201d.<\/span><\/em><\/p>\n<p><a href=\"#sdfootnote4anc\"><span style=\"font-size: x-small;\">4<\/span><\/a><span style=\"font-size: x-small;\"> De \t&#8220;<\/span><em><span style=\"font-size: x-small;\">cohaereo<\/span><\/em><span style=\"font-size: x-small;\">&#8220;: Estar unido, estar pegado, concordar, \tcombinar<\/span><\/p>\n<p><a href=\"#sdfootnote5anc\"><span style=\"font-size: x-small;\">5<\/span><\/a><span style=\"font-size: x-small;\"> Contra Praxeas cap\u00edtulo 12<\/span><\/p>\n<p><a href=\"#sdfootnote6anc\"><span style=\"font-size: x-small;\">6<\/span><\/a><span style=\"font-size: x-small;\"> Enciclop\u00e9dia \tCat\u00f3lica  &#8211; verbete Tertuliano \t(http:\/\/oce.catholic.com\/index.php?title=Tertullian)<\/span><\/p>\n<p><a href=\"#sdfootnote7anc\"><span style=\"font-size: x-small;\">7<\/span><\/a><span style=\"font-size: x-small;\"> Padovese, \tLuigi in Introdu\u00e7\u00e3o \u00e0 Teologia Patr\u00edsitica, Edi\u00e7\u00f5es Loyola, \tp\u00e1g. 68<\/span><\/p>\n<p><a href=\"#sdfootnote8anc\"><span style=\"font-size: x-small;\">8<\/span><\/a><span style=\"font-size: x-small;\"> http:\/\/pt.wikipedia.org \/wiki\/Tertuliano<\/span><\/p>\n<p><a href=\"#sdfootnote9anc\"><span style=\"font-size: x-small;\">9<\/span><\/a><span style=\"font-size: x-small;\"> Enciclop\u00e9dia \tCat\u00f3lica  &#8211; verbete Tertuliano \t(http:\/\/oce.catholic.com\/index.php?title=Tertullian)  &#8211; Essa frase \tdita por Tertuliano aparece na obra Contra Herm\u00f3genes que \tacreditava ser a mat\u00e9ria eterna.<\/span><\/p>\n<p><a href=\"#sdfootnote10anc\"><span style=\"font-size: x-small;\">10<\/span><\/a><span style=\"font-size: x-small;\"> Em Contra Praxeas, cap\u00edtulo 12, Tertuliano diz: \u201c<\/span><em><span style=\"font-size: x-small;\">Mas \tem respeito aos pr\u00e9vios trabalhos do mundo o que diz as Escrituras? \tSua primeira declara\u00e7\u00e3o \u00e9 de fato feita, quando o Filho n\u00e3o \thavia aparecido ainda: &#8216;E Deus disse, haja luz, e houve luz&#8217;. \tImediatamente aparece a palavra, &#8216;aquela verdadeira luz, que ilumina \to homem em sua vinda ao mundo&#8217;, e atrav\u00e9s dele tamb\u00e9m vem a luz ao \tmundo. <\/span><\/em><em><span style=\"text-decoration: underline;\"><span style=\"font-size: x-small;\">A \tpartir deste momento Deus quis que a cria\u00e7\u00e3o fosse efetuada na \tPalavra<\/span><\/span><\/em><em><span style=\"font-size: x-small;\">, \tCristo sendo presente e ministrando para Ele&#8230;<\/span><\/em><span style=\"font-size: x-small;\">\u201d<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Certamente voc\u00ea j\u00e1 ouviu falar que os chamados pais da igreja eram trinit\u00e1rios e deve ter lido cita\u00e7\u00f5es deles que parecem n\u00e3o deixar d\u00favidas acerca disso. O que pretendo mostrar \u00e9 que os trechos usados pelos def\ufeffensores desse dogma apresentam apenas parte da hist\u00f3ria. \u00c9 ponto pac\u00edfico entre os estudiosos da hist\u00f3ria dos primeiros s\u00e9culos [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3],"tags":[],"class_list":["post-383","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-comentarios"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.unitarismobiblico.com\/w\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/383","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.unitarismobiblico.com\/w\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.unitarismobiblico.com\/w\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.unitarismobiblico.com\/w\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.unitarismobiblico.com\/w\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=383"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.unitarismobiblico.com\/w\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/383\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1005,"href":"https:\/\/www.unitarismobiblico.com\/w\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/383\/revisions\/1005"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.unitarismobiblico.com\/w\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=383"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.unitarismobiblico.com\/w\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=383"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.unitarismobiblico.com\/w\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=383"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}