Em defesa do eterno conceito de Deus como um e único

Mês: maio 2010

Jo. 20.27,28

Jo. 20.27-28 Certamente o foco desses versos recai sobre a expressão “meu Senhor e meu Deus” (ὁ κύριός μου καὶ ὁ θεός μου). A questão é sabermos se Tomé estava identificando quem era o que estava diante dele, a exemplo da revelação que Pedro teve, ou se dirigindo a Ele expressando admiração ou espanto pelo que via ser possível acontecer pelo poder de Deus.

O fato do apóstolo João não haver registrado a forma vocativa do grego em Jo. 20.28, algo que era de se esperar se fosse intenção de Tomé direcionar aquelas palavras exatamente a pessoa de Jesus, tem feito alguns trinitarianos reivindicarem a existência do vocativo com caso nominativo (fato que poderia acontecer no grego koiné) para esse versículo em específico. Mas, embora o vocativo possa se servir de nominativo, deve-se destacar que o nominativo “ο κύριος” (ho kyrios) como vocativo articular é o tipo de construção fraseológica que não se manifesta em lugar algum do evangelho de João, nem antes, nem depois da ressurreição. Sempre que alguém se dirige a Cristo o chamando de Senhor usa “κύριε” (kyrie), o vocativo, nunca o nominativo “κύριος” (kyrios). O nominativo da palavra “Senhor”, indicando Jesus, mas não se dirigindo a ele ocorre em cinco lugares nesse evangelho, são elas: Jo. 4.1; 13.13,14; 21.7,12. Em todas as outras ocorrências da palavra “Senhor” quando alguém se dirige a Jesus no evangelho de João é usado o vocativo, expresso como tal: κύριε. Assim, era de se esperar que, se fosse intenção de Tomé dirigir as palavras a Jesus, referindo-se a ele, dizer-lhe, então: “κύριε μου”, seguindo o padrão de registro de como se dirigir ao Senhor Jesus. Isso, por si só, já deveria nos fazer refletir sobre as reais intenções de Tomé. No entanto, poderá se reivindicar justamente a questão do uso vocativo com nominativo grego para descaracterizar essa reflexão (embora que João seja uniforme em seu evangelho em todas as 29 ocorrências da palavra “Senhor” no vocativo se dirigindo a Jesus) e dizer que Tomé estava se referindo, de fato, a Cristo em Jo. 20.28. Mas, vale ressaltar que mesmo que Tomé houvesse usado o vocativo no caso nominativo este se refere ao seu Deus, O Imortal, O Pai, e não a Jesus, que voltara a vida por aqueles dias.

Mas, além dessa questão gramatical reflitamos, agora, contextualmente. A primeira aparição de Jesus após a ressurreição, Tomé não estava presente, causou pavor entre os discípulos Lc. 24.37 “E eles, espantados e atemorizados, pensavam que viam algum espírito”. Uma conclusão imediatista, que inclusive é, com relação a essa passagem bíblica, a usual nos dias de hoje, passa pela desconsideração total sobre qual era a paisagem em que o Novo Testamento se formou. Tomé precisaria ser um judeu muito leviano, a despeito do que todos os escritos históricos, salmos, proféticos e sapienciais em milênios de história ensinaram acerca de Deus, inclusive na sua época e mesmo depois, ao dizerem em passagens como Dt. 10.17 “Pois Yahweh vosso Deus é o Deus dos deuses, e o Senhor dos senhores, o Deus grande, poderoso e terrível, que não faz acepção de pessoas, nem aceita recompensas”, I Rs. 8.27 “Mas, na verdade, habitaria Deus na terra? Eis que os céus, e até o céu dos céus, não te poderiam conter…”, Ex. 33.20: “Nenhum homem verá a minha face e viverá”, II Sm. 22.14 “Do céu trovejou Yahweh, o Altíssimo fez soar a sua voz.” Sl. 76:7 “Tu, sim, tu és tremendo; e quem subsistirá à tua vista, quando te irares?”, Sl 89:7 “um Deus sobremodo tremendo na assembleia dos santos, e temível mais do que todos os que estão ao seu redor?”, Jr. 23.24 “… Porventura não encho eu os céus e a terra? diz o Yahweh.” Ou ainda para nós, Ap. 20.11 “E vi um grande trono branco e o que estava assentado sobre ele, de cuja presença fugiram a terra e o céu; e não foi achado lugar para eles.”. O próprio apóstolo Paulo mostrou que essa percepção de Deus não havia mudado com a vinda de seu Filho Jesus. A graça e a verdade que a Bíblia diz ter vindo por Jesus Cristo Nosso Senhor não passa pela mudança da percepção de quem é o Deus Eterno de Israel, Aquele conhecido pelos antigos patriarcas, profetas, reis e etc., pois o apóstolo escreveu: I Tm. 6. 16 “Aquele que tem, ele só, a imortalidade, e habita na luz inacessível; a quem nenhum dos homens viu nem pode ver, ao qual seja honra e poder sempiterno. Amém.” Nas Escrituras ainda estão escritos “Não executarei o furor da minha ira; não voltarei para destruir a Efraim, porque eu sou Deus e não homem, o Santo no meio de ti; eu não entrarei na cidade.” (Oz. 9.11), e “Deus não é homem, para que minta; nem filho do homem, para que se arrependa; porventura diria ele, e não o faria? Ou falaria, e não o confirmaria?” (Nm. 23.19). Qualquer que seja a interpretação dada a todos esses versículos e outros semelhantes, tais informações certamente não leva ninguém a acreditar que Yahweh, o Deus Eterno, iria se materializar se fazendo carne diante dos homens e se tornando aquilo que ELE disse não ser: o homem. Tomé como judeu que era, acostumado a recitar o Shemá: “Ouve, Israel, Yahweh nosso Deus, Yahweh é um”, acostumado a perceber Deus como um e único, imortal, invisível, imensurável, indescritível e etc., passar, agora, a entender Deus como mortal, visível e, quem sabe, revelado por “hipóstases” como sendo pelo menos dois, passando a admitir que Ele, Deus, havia morrido, ressuscitado e estava em “carne e ossos” ali diante dele palpável é algo completamente sem nexo se considerarmos que para a Bíblia existe um contexto não somente histórico, mas, também, religioso; muito mais quando nos lembramos que um recado foi endereçado aos discípulos, versículos antes, pelo próprio ressuscitado Senhor Jesus Cristo, nos seguintes termos Jo. 20.17 “mas vai para meus irmãos, e dize-lhes que eu subo para meu Pai e vosso Pai, meu Deus e vosso Deus”. Tomé mesmo foi testemunha das palavras de Jesus em João 5.30: “Eu não posso de mim mesmo fazer coisa alguma” e o mesmo Evangelista registra em vários momentos essa dependência de Jesus em relação a Deus. Além do mais Jesus mesmo testifica qual era a compreensão que os apóstolos tinham dele e a confirma em Jo. 13.13 “Vós me chamais Mestre e Senhor, e dizeis bem, porque eu o sou.”, não Deus e Senhor, mas Mestre e Senhor. É realmente muito difícil imaginar que diante de tudo isso Tomé tenha contrariado o próprio Jesus Cristo, que ao endereçar um recado aos discípulos inclui o próprio Tomé, chamando todos de “meus irmãos” e afirmado eu subo para…meu Deus”, passasse, agora, a afirmar ser Ele (Jesus) exatamente aquele conhecido como O Deus de Israel, O Eterno.

Há quem ache impossível Tomé haver respondido a Cristo e não estar se referindo diretamente a Ele, ainda que Jesus mesmo não tenha feito nenhuma pergunta a Tomé. Mas, é interessante saber que fato semelhante já havia acontecido com Jesus ao ser tentado pelo Diabo, quando este pede que Jesus o adore temos as seguintes palavras do Salvador: “Vai-te para trás de mim, Satanás; porque está escrito: Adorarás o Senhor teu Deus, e só a ele servirás” (Mt. 4.10). Ora, diante de tudo aquilo que a Bíblia relata a respeito de Satanás é difícil que o pai da mentira considere Yahweh seu Deus. O pedido que ele fez a Jesus reflete isso pelo desrespeito, e o próprio Yahweh já condenou o Diabo, de modo que uma ordem a um condenado dessa natureza não seria dada e nem seria acolhida. Logo, a citação de Jesus não é dirigida ao Opositor embora tenha sido dita a ele. É, portanto, uma referência ao mandamento dado por Moisés para informar ao maldizente que Jesus só adoraria e serviria a Deus, seu Pai e não um aconselhamento ao Maldizente.

Paralelamente Tomé ao dizer “Senhor meu e Deus meu” usa ou cita uma expressão muito parecida com a do Salmo 35.23 “Desperta e acorda para o meu julgamento, para a minha causa, Deus meu e Senhor meu”. O Salmo está inserido em um contexto de perseguição e acusações. Tomé havia passado 8 (oito) dias dizendo não acreditar na afirmação dos apóstolos (Jo. 20.26), por não tê-lO visto, certamente deve ter temido ser acusado pelos demais discípulos depois da Prova do milagre estar ali diante dele. Muitos procuram descaracterizar essa verdade alegando que essa afirmação de Tomé seria blasfema se fosse uma citação não dirigida ao próprio Jesus, pois no entender deles estaria usando o nome de Deus em vão. Alguns alegam, ainda, que Tomé deveria está habituado com as teofanias de Deus nas Escrituras portanto acharia normal Deus está ali diante dele e estaria, por conta disso, dirigindo as palavras ao Senhor Jesus como sendo o próprio Deus, mas essa é uma análise incompleta dos fatos. Como já vimos Tomé não precisava, forçosamente, direcionar as palavras a Cristo, os Salmos nos ajuda nesse entendimento e é difícil defender que as teofanias de Deus no passado tenham convencido Tomé que Jesus fosse o próprio Deus, pois as teofanias são manifestações temporárias de Deus através de algo ou alguém, e essa descrição de teofania não se encaixa na pessoa de Jesus Cristo, que tinha uma mãe conhecida por todos, além de irmãos e irmãs, e um pai adotivo.

Um detalhe adicional a observar é que o milagre da ressurreição não seria o suficiente para uma conclusão trinitária por parte Tomé, pois ele não tinha ciência por qual tipo de ressurreição Jesus havia passado, e, pela quantidade de dias, o corpo de Lázaro havia ficado mais tempo no túmulo do que o de Jesus. Assim, o conceito trinitário só é possível se for considerado o texto isolado de seu contexto.

Admitir que Tomé tenha VISTO, aquele que MORREU e ressuscitou, e o reconhecido como sendo o Deus Eterno fere frontalmente I Tm. 6.16 que diz: “Aquele que tem, ele só, a imortalidade, e habita na luz inacessível; a quem nenhum dos homens viu nem pode ver…”. 1

Se levantarmos a questão coloquial, há ainda o fato de que na antiga escrita grega não existia pontuação, o que não permitiu registrar a entonação da frase de Tomé. Isso poderia dar também a real dimensão do que nos disse o apóstolo, mas como não sabemos como ele entonou é preferível ficar com a contextualização bíblica que por si só já dá informações suficientes para se compreender perfeitamente as palavras de Tomé.

João fecha a questão, no mesmo capítulo, de forma muita clara em 20.31 “Estes, porém, foram escritos para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais vida em seu nome.” ou seja, o que ele escreveu não foi para que creiamos que Jesus é Deus, mas “que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus

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1 Esse verso é interessante porque também desfaz a reivindicação feita por alguns de Jo. 14.9, para dizer que Jesus é o próprio Deus. Ora, se João estivesse querendo dizer que Jesus era Deus mesmo, então, I Tm. 6.16 seria uma mentira. Mas, se vê o Pai em Jesus significa que ele veio de Deus, então, ambos os versos continuam harmônicos.

Jo. 14.8

Jo. 14.8Disse-lhe Filipe: Senhor, mostra-nos o Pai, o que nos basta. 9 Disse-lhe Jesus: Estou há tanto tempo convosco, e não me tendes conhecido, Filipe? Quem me vê a mim vê o Pai; e como dizes tu: Mostra-nos o Pai?” Este versículo poderia estar incluído no próximo capítulo dessa obra, mas como alguns insistentemente ainda o usam, é oportuno fazermos algumas reflexões.

Antes de mais nada devemos fazer menção as palavras de Jesus em Jo. 6.46 “Não que alguém tenha visto o Pai, senão aquele que é vindo de Deus; só ele tem visto o Pai”, por onde se pode perceber que Jesus, nas palavras que disse a Felipe, não intencionou identificar-se como sendo o próprio Pai.

Felipe pede para ver o Pai e Jesus diz: “Quem me vê a mim vê o Pai”. Deve ser observado que tal afirmação não pode ser encarada como uma prova de identificação do Filho com a Deidade por um trinitariano; primeiro porque Jesus não disse “eu sou o próprio Pai (Deus)”, segundo porque eles creem que o Pai é uma “hipóstase” ou “pessoa” da “substância” Deus, assim, se a afirmação de Jesus for uma reivindicação de igualdade absoluta seria, então, Filho e Pai ao mesmo tempo e isso é mais sabeliano que trinitariano. Não querendo deixar dúvida de que a afirmação não era de consubstanciação ou co-igualdade com a Deidade, Jesus afirma em seguida, já no verso 10: “As palavras que eu vos digo não as digo de mim mesmo, mas o Pai, que está em mim, é quem faz as obras”. É por esta razão que Jesus diz que quem o vê, vê o Pai. Tudo que Jesus faz, o faz pela vontade do Pai, sendo assim o reflexo de Deus na terra. Jesus mais uma vez mostra não ser Deus e depender DELE, pois Deus, o Pai, faz suas obras por meio de Cristo. Tudo aquilo que se pode ver de Deus é percebido em seu Filho, Jesus Cristo. Ele é a “imagem do Deus invisível”. Mas, Deus mesmo continua invisível e habitando na luz inacessível.

Jo. 10.30

Sobre Jo. 10.30Eu e o Pai somos um”. Agostinho chega a afirmar que Jesus queria dizer “‘O que ele é, eu sou’, segundo a essência e não segundo a relação1, esse entendimento, porém, não parece ser o que a Bíblia apresenta, e ele disse isso porque o verso remeteria em uma leitura direta às hipóstases (a relação de pai e filho) e não a essência, porém Agostinho não nos traz nenhum versículo bíblico para tentar provar essa suposta verdade, simplesmente confia na sua autoridade de filósofo e clérigo católico, doutor da igreja2, e com essa “autoridade” afirmava: “Ego vero Evangelio non crederem, nisi me catholicae Ecclesiae commoveret auctoritas – Eu não creria no Evangelho, se a isto não me levasse a autoridade da Igreja Católica”. Mas, precisamos ler esse versículo de João considerando o conjunto das Escrituras e, nesse sentido, quando olhamos para a oração sacerdotal, esta sim está na Bíblia, registrada por João mesmo, encontramos as palavras do Senhor nos seguintes termos: “para que todos sejam um; assim como tu, ó Pai, és em mim, e eu em ti, que também eles sejam um em nós” (Jo. 17:21). Aqui Nosso Senhor mostra que suas palavras não intentaram igualdade de “essência” ou de pessoas (hipóstases) por incluir Ele e o Pai juntamente com os discípulos em uma mesma unidade; até porque essa questão de “essência” ou “substância”, relacionada a Divindade, é produto teológico muito posterior ao período bíblico. Vale lembrar, ainda, que aqui é usado ἕν “hen” (“um” neutro em grego) em ambas as passagens, diferente do uso que a Septuaginta fez do “um” no Shemá3, quando usou εἷς “heis” (um masculino em grego). Se estivesse na mente de Jesus dizer que era igual na Deidade, ou seja, um Deus consubstancial, então, a palavra Deus é masculina singular, ou se mesmo na remotíssima hipótese de ele haver pensado na palavra “homoousios”4 (mesma substância) esta é, também, masculino singular, desse modo, pelo menos εἷς “heis” era de se esperar, mas isso não aconteceu. Se fosse “ἴσος” (isos) a palavra usada a questão estaria liquidade em benefício dos trinitários, mas isso também não aconteceu. É interessante observar que em Jo. 10.29, Jesus diz: “Meu Pai, que mas deu, é maior do que todos; …”, a conclusão descontextualizada é que se o Pai é Maior que todos, por ser Deus, e Jesus diz que “Eu e o Pai somos um”, então, Jesus seria Deus da mesma forma que o Pai é, mas se é desse jeito, então, somos todos Deus, pois em Jo. 17.21, já lido, Deus continua sendo o que é, Jesus também, e nos de igual modo continuamos sendo o que somos, mas o Nosso Senhor diz, com relação a ser UM com seus discípulos: “ASSIM COMO tu ó Pai, és em mim, e eu em ti”, parafraseando para o sentido correto teríamos: “Embora eu seja um contigo mesmo não sendo igual a tu, que eles seja um conosco, mesmo não sendo igual a nós”. Acerca dEle mesmo em relação ao Pai, levando em conta a questão de grau de superioridade, Jesus disse em Jo. 14.28 : “… o Pai é maior do que eu.5 Note bem este último verso! Jesus está falando na condição de Filho, por isso diz “o Pai”, Ele não está falando de sua condição de homem no relacionamento com Deus, mas Filho para com o Pai, e como Filho, Ele diz que o Pai é maior de que Ele, anulando a pretensão agostiniana do requerimento de igualdade entre o Pai e o Filho, quando o teólogo tentou desfazer a afirmação de Jesus “… o Pai é maior do que eu” alegando que isso é correto apenas em certo sentido, e afirma que por esse ângulo Jesus “É inferior a sim mesmo6, porque se esvaziou a si conforme está escrito em Fl. 2.6, mas o católico parece ignorar o fato de que Jesus não é somente Filho de Deus na terra, quando encarnado, mas já o era no céu antes do esvaziamento, de modo que se ele era filho antes, é agora, e, será eternamente, então, ele falou em sua condição de Filho. Dessa forma, ainda que fosse verdadeira a hipotética ideia (digo hipotética porque a expressão não está na Bíblia, é uma expressão criada) de um “Deus Filho”, ainda assim Ele informa ser menor que o Deus Pai, mostrando, por via de consequência, não poder ser igual a Deus.

Há quem argumento que não haveria sentido Jesus dizer que o Pai era maior do que ele se não fosse apenas em função, pois naturalmente todos são menor que o Pai, de modo que Jesus não cairia em uma redundância óbvia dessas, mas esse raciocínio é negado por Jesus mesmo ao usar outra expressão de mesmo peso incluindo toda a humanidade: “porque meu Pai é maior do que eu” (Jo. 14.28), ou seja, por mais que seja óbvio, era prazer do Filho mostrar que seu Pai era maior. Não somente maior do que todos, mas maior do que o Filho.

Inexplicavelmente ignorando o argumento acima, muitos dizem que o sentido de Jo. 10.30 foi o de realmente se igualar a Deus, o Pai, porque nos versos seguinte se vê uma tentativa de apedrejamento de Jesus por parte dos judeus. Mas, na sequencia vemos que Ele perguntou aos seus opositores e obteve uma resposta: Jo. 10:32 “Disse-lhes Jesus: Muitas obras boas da parte de meu Pai vos tenho mostrado; por qual destas obras ides apedrejar-me? 33 Responderam-lhe os judeus: Não é por nenhuma obra boa que vamos apedrejar-te, mas por blasfêmia; porque, sendo tu homem, te fazes Deus.” Por esse verso ser seguinte a expressão “Eu e o Pai somos um”, a interpretação imediatista é que a blasfêmia, assim entendida pelos judeus, seria por essa afirmação, mas a informação textual não para no verso 32, e vale a pena lermos o restante: “34 Tornou-lhes Jesus: Não está escrito na vossa lei: Eu disse: Vós sois deuses? 35 Se a lei chamou deuses àqueles a quem a palavra de Deus foi dirigida (e a Escritura não pode ser anulada), 36 àquele a quem o Pai santificou, e enviou ao mundo, dizeis vós: Blasfemas; porque eu disse: Sou Filho de Deus?”. O curioso do estudo dessa passagem bíblica é que todos reconhecem a visão errada dos judeus, principalmente a má interpretação que os fariseus sempre fizeram das palavras de Jesus em todo Novo Testamento, e que estes constantemente o acusavam enganosamente, mas surpreendentemente os que defendem a co-igualdade entre Cristo e o seu Deus acham, agora, que os fariseus haviam entendido acertadamente(?), de forma indubitável, que Jesus teria afirmado ser o próprio Deus ao invés de ser mais uma das falsas afirmações farisaicas acerca de Jesus, mas o Mestre mostra o engano de ambos ao continuar o diálogo e explicita que não haveria motivo para espanto. O primeiro ponto a observar é que nem os judeus e nem Jesus se reportaram, na sequencia, a afirmação “Eu e o Pai somos um”. Está claro no fechamento das palavras de Jesus: “dizeis vós: Blasfemas; porque eu disse: Sou Filho de Deus?”, que a causa foi a afirmação ocorrida quatro vezes desde o verso 25 do capítulo, que Deus era seu Pai. Jesus lembra aos judeus que as Escrituras já haviam chamado homens de “deuses” e ela, a Escritura, não pode ser anulada. Ele poderia ter falado também dos falsos deuses que são chamado de “deus”, mas nesse caso, como não se tratava do uso legítimo do termo “deus”, pois são falsas divindades, Jesus não citou, mas no caso dos juízes foi o próprio Yahweh, através dos escritores sacros, quem os chama assim. Jesus, porém, sequer reivindicou igualdade de situação com eles e até que poderia, mas, pelo contrário, justificou que não estava se auto proclamado “Deus”, e nem o poderia fazer, pois no verso 36, do mesmo contexto, vemos sua afirmação: “àquele a quem o Pai santificou, e enviou ao mundo”. Ora Ele não poderia passar pelo processo de santificação (separação) antes de vir ao mundo e ser Deus ao mesmo tempo. Ele apenas nos disse ser Filho de Deus. Perceba dessa resposta de Jesus que os fariseus não levaram a cabo a intenção de apedrejar o Mestre pela clareza da explicação; no entanto, deveriam ter feito se o entendimento deles estivesse correto, mas mudaram, então, para tentativa de aprisionamento, Jo. 10.39. É como se Ele estivesse dizendo: “eu não estou falando que sou Deus, estou dizendo que sou Filho. Na Bíblia há a afirmação de pessoas com a designação de ‘deus’, como os juízes de Israel, e vocês consideram normal, então, não me estranhem.” Há que se observar, também, que chamar Deus de Pai não era uma exclusividade de Jesus, os próprios fariseus que tentaram condená-lo por isso, também chamavam Deus de Pai, Jo. 8.41 “… Nós não somos nascidos de prostituição; temos um Pai, que é Deus.”, ora se eles próprio chamavam Deus de Pai, porque Jesus, com muito mais propriedade, por ser o Messias prometido, não poderia fazê-lo? Fica claro o tamanho da deturpação que os fariseus fizeram das palavras de Jesus com o objetivo de o incriminar7. O lamentável é que hoje se usam aquelas palavras do Nosso Divino Mestre em conjunto com a dos fariseus para O deificar, mesmo Ele tendo explicado, naquela época que esse conceito é errado. E isto se vê provado não somente pelo já exposto, mas também pelo contido em Fp. 2.6, pois se Ele, na condição divina que tinha antes de encarnar, não quis elevar-se ao status de igualdade com Deus, mas esvaziou-se a si mesmo e assumiu a forma de servo, como iria querer, nessa forma de servo, anular a afirmação e o propósito do esvaziamento de Fp. 2.6 e querer fazer-se, agora, diante de todos, igual a Deus? Jesus incansavelmente rebatia quem afirmava que ele estava se fazendo Deus. Vejamos outro exemplo; em Jo. 5.18 “…mas também dizia que Deus era seu próprio Pai, fazendo-se igual a Deus.”, ele logo no verso seguinte, no v.19, traz um esclarecimento, como resposta, que anula qualquer pretensão de uma suposta reivindicação de igualdade com Deus, seu Pai: “Mas Jesus respondeu, e disse-lhes: Na verdade, na verdade vos digo que o Filho por si mesmo não pode fazer coisa alguma, se o não vir fazer o Pai; porque tudo quanto ele faz, o Filho o faz igualmente.” Um dos atributos de Deus é a auto-suficiência, de modo que se o Filho alegou que não podia por si mesmo fazer coisa alguma, então fica óbvio: Ele não estava afirmando ser Deus.

Temos ainda uma terceira implicação se considerássemos corretos os termos técnicos usados pela teologia pós-apostólica da trindade. Em Jo. 10.30, Ele, Jesus, afirma enquanto Filho ser um com o Pai, ou seja, não seria, nesse caso, uma identificação com a deidade, mas com a hipóstase Pai. Porém o credo atanasiano, que diga-se de passagem não foi composto por Atanásio, afirma: “não confundindo as pessoas e nem dividindo a substância”. Aceitar a igualdade plena baseado nesse versículo seria confundir as pessoas, pois é delas que o texto fala (Pai e Filho), e contrariaria, ainda, Agostinho que disse: “O Pai é só Pai, o Filho unicamente Filho8. Além do mais em outro momento o Filho diz, como já visto, ser menor que o Pai, Jo. 14.28 “Vou para o Pai; porque meu Pai é maior do que eu.”, então a igualdade falada em Jo. 10.30 não está na natureza, mas na unidade de propósitos. Há que ser observado ainda o fato de como Jesus contava ele e o Supremo Ser, em Jo. 8.17, ele diz: “Eu sou o que testifico de mim mesmo, e de mim testifica também o Pai que me enviou.”, ele disse isso quando reivindicou a validade da lei do testemunho que exige dois, se ele fosse um único ente com o Pai, não poderia reivindicar legitimamente a lei. Em João 14.1 lemos: “Não se turbe o vosso coração; credes em Deus, crede também em mim”. Tanto na identificação do Eterno como seu Pai ou como Deus, Jesus ao incluir-se em uma contagem, conta como entes distintos, dois e não um. Assim, parece realmente, por vários e vários motivos, não haver razão para achar que Jesus tenha pretendido ser Deus, nem mesmo igual a Deus quando afirmou: “Eu e o Pai somos um”.

1 Agostinho in A trindade, Paulus Editora, 2ª Edição – 1994, pág. 219. Essa afirmação de Agostinho é prejudicada pela construção grega que não usa “ἴσος” (isos) mas, “ἕν” (hen), o neutro de “εἷς” que significa “um”. Se fosse usado “Isos” poderia ser traduzido por “igual” ou “equivalente”. “Isos” é a mesma palavra usada em Fp. 2.6 quando é dito que Jesus NÃO quis valer-se de sua divindade para tentar se apossar de igualdade com Deus.

2 Ele desafia aos que discordam de suas reflexões e afirma: “apresente a sua explicação, se o quiser, e impugne a minha se puder.” Op. Cit. Pág. 29

3 Shemá é uma palavra hebraica que significa “OUVE” e esta inicia Dt. 6.4 “Ouve, Israel, o Yahweh nosso Deus. Yahweh é um.” que é a declaração de fé do monoteísmo bíblico e a esta referencia.

4 “homoousios” significa “mesma substância”, é a palavra usada atualmente nos meios teológicos trinitários para dizer que Deus e Jesus são a mesma deidade.

5 Agostinho tenta desfazer as palavras de Jesus, dizendo que apesar dessa afirmação Ele é igual, e filosofa, nos seguintes termos: “... em que o Pai é maior? Se é maior, há de ser pela grandeza. Mas como o Filho é sua grandeza não pode ser maior do que aquele que o gerou nem o Pai é maior do que a grandeza pela qual é grande. Portanto, é igual.” (Op. Cit pág. 220) , perceba que além de ir contra o que está sendo afirmado na Bíblia, ele não usa a Bíblia para defender esse estranho argumento, apenas lança premissas que não passariam pelo crivo do restante das Escrituras, e nem pela lógica, pois ele intencionou criar uma situação circular que seria: O Pai é maior que o Filho pela grandeza, mas como o Filho é a grandeza do Pai, então, é igual. O que é esse marabalismo senão uma agressão ao que a Bíblia afirma: “o Pai é maior do que eu” e, por via de consequência é, também, uma agressão à percepção de quem estuda a Bíblia.

6 Agostinho in A trindade, Paulus Editora, 2ª Edição – 1994, pág. 53

7 Quando Jesus já estava preso e sendo julgado o sumo sacerdote lhe perguntou: “Conjuro-te pelo Deus vivo que nos digas se tu és o Cristo, o Filho de Deus”. Vemos que a expressão “Filho de Deus”, no sentido messiânico, associa-se com a palavra “Cristo”. O Sacerdote insistia com Jesus, para que ele disse, pelo Deus vivo, se era o Cristo, Filho de Deus. Para o Sumo Sacerdote a expressão “Filho de Deus” não o identificava como “Deus”, mas como “Cristo”. Isto estava na mente dos judeus da época, como se confirma nas palavras de Marta, em Jo. 11.27; nas palavras de João, o evangelista, em Jo. 20.31; e até os demônios em Lc. 4.41, além de outras ocorrências. Os fariseus O rejeitavam porque não viam nEle, Jesus, o cumprimento das profecias, então, para eles, se Jesus se auto afirmava “o Cristo”, era se fazer Deus, não no sentido da igualdade, pois o Ungido de Deus, não é o próprio Deus, mas de tomar o lugar para ter autoridade de se auto proclamar Cristo, pois somente Deus pode designar o seu Cristo. Se os fariseus cressem nas Escrituras de forma correta creriam em Jesus e não o acusariam , pois perceberiam que Deus o havia enviado, e porque não o criam, entendiam que Jesus estava querendo se fazer como Deus para se proclamar Cristo, daí o acusarem de blasfêmia.

8 Agostinho embora tenha dito isto, tenta, ele mesmo, desfazer o que disse usando de extrema subjetividade ao afirmar acerca de Jo. 10.30 que “Portanto, o Pai e o Filho são um pela unidade de substância…” – A Trindade, pág. 220

Jo. 8.58

Jo. 8.58 diz: “Respondeu-lhes Jesus: Em verdade, em verdade vos digo que antes que Abraão existisse, eu sou.” O verbo grego εἰμί (eimi)contido no final desse verso, pode ser traduzido por “SOU”, “ESTOU”, “EXISTO” e sentidos similares, daí precisamos verificar qual desses verbos em português, melhor se aplica ao caso.

Ora, no verso anterior os judeus perguntaram “ainda não tens cinqüenta anos, e viste Abraão?”, isso é uma pergunta temporal, de indagação sobre preexistência. A partícula πρὶν (antes), usada por Jesus para responder aos judeus, introduz uma cláusula temporal, e, foi seguida pelo verbo γίνομαι, verbo afim ao verbo εἰμί, que só não foi usado também porque não possui a forma para o aoristo. Logo, a comparação clara do contexto das palavras de Cristo indica a intenção do Senhor Jesus em declarar-se anterior a Abraão e isto já estava delineado no verso 38 do mesmo capítulo “Eu falo do que vi junto de meu Pai, …“. Assim, o verbo em português que melhor traduz o contexto é o verbo “EXISTIR”. Das raras versões, em português, que preferiram concordar com o contexto encontramos a Bíblia do Peregrino: “Asseguro-vos: antes que Abraão existisse, eu existo.”(grifei), não há contraste entre o verbo γίνομαι e εἰμί nessa passagem.

Para preferir “eu sou”, o tradutor, precisará rebaixar o contexto ao segundo plano, diminuir a intensidade da cláusula temporal, desvinculando, por completo, o verbo εἰμί dela, fazendo uso da sua própria crença de que Jesus é o “EU SOU” de Ex. 3.14 (expressão que está se tornando um termo técnico), quando o contexto daquela passagem de Êxodo não se relaciona com a de João. Alguns Tradutores/Editores chegaram ao exagero de usarem o “EU SOU” com letras maiúsculas, para fazer lembrar a expressão de Êxodo, foi o caso da Bíblia de Jerusalém e da Almeida Revista e Atualizada, ao passo que Almeida Revista e Corrigida, usou todas as letras em minúsculas. No hebraico de Êxodo, nem no grego da Septuaginta e do Novo Testamento não havia diferenciação de maiúscula e minúscula.

Fatalmente a escolha do verbo para o português, ou outra língua, dependerá da fé e do ponto de vista do tradutor. O normal seria todas as traduções para o português trazerem a tradução “EU EXISTO”.

Não estou afirmando que a tradução “eu sou” não é correta e que “eu existo” seja a correta, ambas estão corretas porque o verbo εἰμί permite as duas; apenas acho que se Jesus quisesse fazer alusão ao “ὁ ὤν” (ho On) de Ex. 3.14, teria usado a idêntica construção, e não precisaria tomar por base a existência de Abraão.

A propósito, vale dizer que Deus em Ex. 3.14 não disse ser um certo “Ego Eimi” (eu sou), ele disse ser “Aquele que é” ( ho On), a ideia foi dizer “Eu sou AQUELE QUE É’”, tanto é que quando Moisés perguntou o que diria quando fosse indagado sobre quem o enviou, Deus manda Moisés responder “HO ON (AQUELE QUE É) me enviou a vós”, Ele não disse “’Ego Eimi’ me enviou a vós”. O problema é que há traduções que verteram HO ON como “AQUELE QUE É’” na primeira ocorrência e o mesmo HO ON como “Eu Sou” na ocorrência seguinte. A expressão HO ON não está em Jo. 8.58. Todos os livros e comentários que você já leu, digo com simplicidade e sem medo de errar, estão equivocados quando tentam comparar Jo. 8.58 com Ex. 3.14 dizendo que Jesus é o EU SOU do Antigo Testamento, porque simplesmente as construções são diferentes. Se considerarmos o hebraico, que é a língua em que originalmente foi escrito o livro de Êxodo ai é que se descarta mesmo, porque a construção verbal do hebraico, daquela passagem, é causativa e em João é, seguramente, grego no presente do indicativo ativo. Se for os dois em grego, um é particípio e o outro presente do indicativo ativo.

Vamos, para ficar didaticamente mais visível, dividir o verso de Êxodo em duas partes: A + B.

A) “καὶ (e) εἶπεν (disse) ὁ θεὸς (Deus) πρὸς (a) μωυσῆν (Moisés) ἐγώ (eu) εἰμι (sou) ὁ ὤν (AQUELE QUE É).

Pergunto o seguinte: Deus em “A” disse ser “ego eimi” ou Deus disse ser “HO ON”?

B) καὶ (e/também) εἶπεν (disse:) οὕτως (assim) ἐρεῖς (dirás) τοῖς (aos) υἱοῖς (filhos [de]) ισραηλ (Israel) ὁ ὢν(AQUELE QUE É [aqui, desuniformemente as Bíblias vertem para EU SOU, donde decorre a associação com Jo.8.58]) ἀπέσταλκέν με (enviou-me) πρὸς (a) ὑμᾶς (vós).

A pergunta que faço agora é a seguinte: Moisés identificou Deus, em “B”, como “ego eimi” ou como “HO ON”?

Onde está a expressão “ego eimi” na parte “B” para os tradutores verterem “EU SOU” ao invés de “AQUELE QUE É”? Percebamos que não existe um “ego eimi” nessa parte e que estranhamente, praticamente todos os tradutores colocam nessa parte “B” a tradução como “Eu sou me enviou a vós”? E a Bíblia de Jerusalém ainda faz mais e coloca em maiúsculo “EU SOU me enviou a vós?” Quando o procedimento uniforme seria “AQUELE QUE É me envio a vós”.

Ora, se “ego eimi” significa “eu sou” e “HO ON” significa “eu sou” exatamente com a mesma semântica, então, a parte “A” deveria ser traduzida por “Disse Deus a Moisés: Eu sou Eu sou” (ego eimi ho on[?]), e ai teríamos, ao menos, uniformemente na segunda com “Eu sou me enviou a vós”. Mas se HO ON é traduzida por “AQUELE QUE É” na parte “A” não há razão para não ser, também, na parte “B” pela mesma expressão, a não ser que haja a intenção de criar a associação que os trinitários hoje defendem1.

Uma outra comprovação da irregularidade cometida pelos defensores da co-igualdade entre o Pai e o Filho usando esses versos são as funções sintáticas que envolvem a questão. ὁ ὤν (HO ON) é um particípio, e conforme pode ser encontrado em qualquer gramática do grego bíblico: “um particípio pode funcionar, ou como adjetivo, ou como verbo. Para descobrir de que maneira um particípio está sendo usado, é importante observar duas coisas: o contexto, principalmente, o artigo. … – Com artigo: é usado como adjetivo atributivo ou como adjetivo substantivo.”2 . Com artigo é o caso de Ex. 3.14. O artigo ὁ (HO) acompanhado do particípio do verbo “ser” ὤν (ON).

O mesmo autor diz “Um particípio e seu artigo podem estar relacionados a um pronome ou substantivo para descrever ou qualificá-lo. Aparecem, então, na posição e com a função de um adjetivo atributivo. Nesse uso, o particípio e seu artigo concordam com a palavra que modificam em gênero, número e caso. Representam uma oração subordinada adjetiva.3. Fica fácil identificar que “HO ON”, qualifica o substantivo Deus (Theos), e seu correspondente pronome “eu” (ego – aquele mesmo do ego eimi que confundem com um declarativo e que aqui é pronome junto ao verbo que liga os elementos da oração) é modificado pelo “HO ON”. Depois de Deus ser qualificado ou descrito como “HO ON”, segue-se a declaração “HO ON me enviou a vós”, e não “ego eimi me enviou a vós.” Lembremos, mais uma vez, que o particípio não é usando em Jo. 8.58.

A ausência de relação entre Ex. 3.14 com João 8.58 pode-se ver inclusive nas versões hebraicas da Bíblia. Em Êxodo encontramos a expressão “אהיה” ( ‘EHIEH) 3 (três) vezes e esta não ocorre nenhuma vez no NT em hebraico da Sociedade Bíblica Trinitariana, lá em Jo. 8.58 está “אני הוא” (‘ANI HU).

Ainda podemos falar da própria identificação bíblicas dos personagens envolvidos nos versos comentados. Veja que em Ex. 3.15, o verso imediatamente posterior encontramos: “E Deus disse mais a Moisés: Assim dirás aos filhos de Israel: Yahweh Deus de vossos pais, o Deus de Abraão, o Deus de Isaque, e o Deus de Jacó, me enviou a vós; este é meu nome eternamente, e este é meu memorial de geração em geração.”, agora compare com At. 3.13 “O Deus de Abraão, de Isaque e de Jacó, o Deus de nossos pais, glorificou a seu filho Jesus” É fácil perceber que O Deus que foi identificado em Êxodo é identificado como o Pai de Jesus e não como sendo o próprio Jesus.

Outra questão que deveríamos levar em conta é a preferência dos tradutores em verter Ex. 3.14 pela forma presente ao invés de futuro, como podemos ver na primeira versão da Bíblia de Almeida. Traduzem em Ex. 3.12 “E disse: Certamente eu serei contigo”, אהיה por “Eu Serei” e dois versos depois a mesma palavra é traduzida por “Eu Sou”, se houvesse um padrão com o verso 12, teríamos além de todas as evidências, mais uma mostrando o equívoco trinitário.

Com relação ao v.59, que diz que os judeus procuravam matá-lo, o que faz alguns pensarem que foi pelo fato de uma suposta identificação de Jesus com o Eterno, devemos lembrar do verso 40 do mesmo capítulo onde o próprio Jesus diz: “Mas agora procurais matar-me, a mim, homem que vos tem dito a verdade que de Deus tem ouvido; Abraão não fez isto.” Veja que já havia uma predisposição real anterior para se matar Jesus mesmo antes de sua afirmação de preexistência no v.58. Ora um homem dizer que era antes de Abraão não podia esperar outra reação dos judeus. Perceba que ele não disse ser Deus, ao contrário, disse ser homem. Assim, o uso das pedras sempre estavam à mercê do que os judeus da época entendiam por blasfêmia, Mt. 23.37, At. 7.58, II Co. 11.25 e Hb. 11.37. Muitos trinitários chegam a apresentar um lista do que a Lei reconhecia como blasfêmia para tentar legitimar uma suposta tentativa de identificação de Jesus com Deus em Jo. 8.58, o que teria gerado aquela reação dos judeus, mas como já foi visto não há relação daquela passagem com Ex. 3.14. Além do mais o próprio Jesus disse muito claramente: “Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas, e apedrejas os que te são enviados!” (Mt. 24.37); mostrando que não é razoável supor que todos esses profetas e enviados que foram apedrejados e mortos pelos judeus tenham blasfemado, pelo contrário, sem blasfemarem em absolutamente nada foram mortos. Jesus seria, na lista dos fariseus, mais um dos profetas que seria morto. Para um fariseu só o fato de Jesus dizer que era antes de Abraão, já seria o suficiente para querer matá-lo, mas seguramente não foi pela expressão “eu sou” (ego eimi), pois essa expressão, além de não ser a mesma usada em Ex.3.14, era super comum. Até nós se vivêssemos naquele lugar e época a usaríamos. Observe, por exemplo, as palavras do cego de nascença que fora curado em Jo. 9.9: “Uns diziam: É ele. E outros: Não é, mas se parece com ele. Ele dizia: Sou eu.” A expressão “Sou eu” é a mesmíssima usada por Cristo no episódio que estamos comentando. No grego temos o cego dizendo: “ἐκεῖνος ἔλεγεν ὅτι ἐγώ εἰμι”, literalmente é: “ele dizia: Eu sou.”

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1 Depois de vários e vários anos defendendo a associação de Ex. 3.14 com Jo. 8.58 há trinitários, hoje, que estão, ante as evidências, declinando dessa defesa.

2 Lourenço Stélio Rega in Noções do Grego Bíblico, Editora Vida Nova – 2004 , pág. 200, 201

3 Idem, pág. 222

Jo. 1.2,3

Jo. 1.2,3 trazem informações que não podem passar desapercebidas, pois ao dizerem que “todas as coisas foram feitas por intermédio dele, e sem ele nada do que foi feito se fez”, leva alguém a refletir: “… se todas as coisas foram feitas por meio do Verbo, não existe nada que não tenha sido feito por Ele. Logo, Ele não pode ter sido feito, do contrário existiria alguma coisa que não foi feita por meio d’Ele (Ele mesmo)”, esse tipo de raciocínio levanta, no entanto, por não considerar a forma de expressão dos escritores sagrados, algumas dificuldades para quem pensa assim, envolvendo o Espírito Santo. Ao observarmos o argumento proposto, considerando o conjunto das Escrituras, temos, por exemplo, versículos como Lc. 10.22 que diz: “… e ninguém conhece quem é o Filho senão o Pai, nem quem é o Pai senão o Filho, e aquele a quem o Filho o quiser revelar”. Ora, pelo princípio da exclusão completa e absoluta, então, decorre que o Espírito Santo está de fora do conhecimento de quem é Deus, pois se somente o Filho conhece o Pai, e o Pai, o Filho; então, o Espírito não conhece nenhum dos dois, mas isso é algo que sabemos não ser plausível afirmar, não por causa do versículo em si, pois, de fato, nos baseando apenas nesse verso, isoladamente, que é o que fazem com os versos 2 e 3 de João 1, essa conclusão seria inevitável e, na realidade, até que poderia ser assim mesmo, mas, justamente por causa de outros versículos das Escrituras, que complementam e esclarecem aquela passagem, essa exclusão não é plausível, e a prova disto encontramos em I Co 2.11 “ Assim também ninguém sabe as coisas de Deus, senão o Espírito de Deus.” Além disso precisamos refletir ainda acerca do Espírito Santo considerando o “argumento da exclusão”, pois se João 1.1-3 fala do Logos numa pretendida condição de existencialidade eterna e todo o restante sendo criado por Ele, então, pelo princípio da exclusão completa, defendida pelos trinitários, o Espírito Santo passa a fazer parte das coisas abrangidas pela expressão “todas as coisas foram feitas por intermédio dele”, tendo sido “criado” pelo Verbo em algum tempo na eternidade. Assim, mesmo que se reivindique a ideia de procedência relativamente ao Espírito isto não resolveria o requerimento proposto, que aliás, diz J. N. D. Kelly “Agostinho sempre encontrou dificuldade para explicar… em que difere [o Espírito] da geração do Filho”. Temos ainda Hb. 1.6 “E outra vez, ao introduzir no mundo o primogênito, diz: E todos os anjos de Deus o adorem.” Ora, se são absolutamente todos, então o chamado Anjo do Senhor também deve reverenciar Jesus; mas, ai surge um outro problema, pois os trinitarianos veem nesse Anjo o próprio Jesus, o que mais uma vez mostra a falibilidade da argumento da exclusão completa. Quanto lemos em Cl. 1.16 “Porque nele foram criadas todas as coisas que há nos céus e na terra, visíveis e invisíveis, sejam tronos, sejam dominações, sejam principados, sejam potestades. Tudo foi criado por ele e para ele.”, então, seu Pai, o Deus invisível, também foi criado por ele? Já que ele criou todas as coisas que há nos céus, e nos céus é onde Deus habita? Certamente que a expressão “todas as coisas” é entendida não no sentido amplo e irrestrito. Ainda em Jo. 3.35 lemos: “O Pai ama o Filho, e todas as coisas entregou nas suas mãos”, embora se diga “todas as coisas”, o Pai não está incluído, e esse dito no evangelho do João se prova na carta de Paulo em I Co. 15.27 “Mas, quando diz que todas as coisas lhe estão sujeitas, claro está que se excetua aquele que lhe sujeitou todas as coisas”. Até mesmo que lemos “Porque todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus”, claro está que a expressão “todos pecaram” exclui um, o Senhor Jesus Cristo, pois “em tudo foi tentado, mas sem pecado”. Logo se percebe que esse argumento, traz mais dificuldades para um trinitariano que soluções. Aqui não se pretende afirmar que o Filho foi o meio de sua auto-criação, pois fica provado que tais palavras não denotam uma expressão absoluta de totalidade das coisas existentes, pelo contrário, é de se notar pelos exemplos dados que Ele não está incluído na expressão “todos as coisas” por duas razões simples: 1) Por haver sido gerado, não criado, pelo Pai antes, e, 2) por ser o executor da ordem criativa do Pai. Assim, como não foi intenção do escritor sagrado afirmar que o Pai se auto-entregou ou se auto-submeteu ao Filho nas palavras “todas as coisas” (I Co. 15.27), quanto lhe submete tudo, assim também a criação de tudo pelo Filho no o exclui de uma origem. “Todas as coisas” lhe foram entregues menos uma, o próprio Pai; também quando se diz “todos os anjos” (Hb. 1.6) se excetua um, que é a teofania de Yahweh, o Anjo do Senhor. Quando se diz “todos pecaram” se exclui um: o Senhor Jesus. De igual modo quando se usa a expressão “Todas as coisas …” (Jo. 1.3), ao se fala da criação se excetua um, ele próprio, que foi gerado pelo Pai. E, se é forte aplicar a palavra criação, como objetivamente está escrito em Ap. 3.14 “princípio da criação de Deus” com relação ao Filho, não o é o termo geração (Hb. 1.5), no entanto ambas denotam irremediavelmente início. O artifício da teologia pós-apostólica da “geração eterna do Filho” não é ensinado na Bíblia nem de forma direta, nem de forma indireta.

Jo. 1.1

Jo. 1.1, aqui seguramente o foco recai sobre o verso 1: “Ἐν ἀρχῇ ἦν ὁ λόγος καὶ ὁ λόγος ἦν πρὸς τὸν θεόν καὶ θεὸς ἦν ὁ λόγος.” (en arche[i] ên ho logos kai ho logos ên pros ton theon kai theos ên ro logos). É interessante perceber algumas construções gregas que em nossa língua não se permite. “πρός” (pros) é uma preposição que indica direção mas não a fusão, diferentemente de “εἷς” (heis) que indica na direção e para dentro, isso pode não parecer nada, mas significa que o logos estava junto, à direção de Deus, de forma íntima, face-a-face, mas não “se fundia” com Ele, ou seja, não é algo que indique uma única divindade absoluta com o Pai, daí decorre a segunda parte “καὶ θεὸς ἦν ὁ λόγος” (kai Theos em ho logos). No grego existe a função atributiva e a função predicativa. Esta última parte do verso é uma construção predicativa, e é importante, pois “pros ton Theon kai Theos…”, ao se referir “com Deus”, João usa “τὸν θεόν” (O Deus), e ao falar do λόγος (logos) usa a palavra θεὸς (Theos) na forma predicativa, permitindo concluirmos a origem divina do Logos, mas não como sendo O Deus Yahweh; de modo que o texto seria melhor entendido como: “O Verbo era divino”, e é exatamente dessa forma que o trinitariano Rev. Dr. Waldyr Carvalho Luz entende Jo. 1.1 e este comenta esse texto nos seguintes termos: “Da própria fraseologia se verá que o substantivo anartro não tem acepção quantitativa, a individualizar, mas, ao contrário, qualitativa, a qualificar, exatamente o oposto do termo articulado. Logo, θεός é o predicativo, ὁ λόγος o sujeito; – Destarte, o predicativo θεός não está a destacar a pessoa do λόγος mas a expressar-lhe a natureza. Em outras palavras, θεός não está individualizando ὁ λόγος, dizendo-o UM DEUS, mas indicando-lhe a essência divinal, qualificando-o como DIVINO; – Nesta modalidade, o elemento anartro é o predicativo, o articulado o sujeito, aquele a especificar a natureza deste.”1 Vale destacar dessas palavras do Dr. Waldyr a informação que θεός (Theos) nessa construção não é quantitativo, ou seja, não foi intenção de João dizer que Jesus era Deus em sua completude, e embora o Dr. Waldyr use a palavra “essência” em seu comentário, está claro que o faz de forma distinta de outros trinitarianos como Agostinho, por exemplo. Definir Deus como uma substância composta por hipóstases não é uma definição bíblica, mas uma arranjo teológico da era pós-apostólica para tentar justificar, ante as dificuldades que surgem quando analisada mais a fundo, a doutrina da trindadeo. Conforme vimos em “καὶ θεὸς ἦν ὁ λόγος” se qualifica sem quantificar.

Assim, fica claro que a função predicativa qualifica, mas não atribui igualdade na deidade. Para atribuir-lhe igualdade o segundo θεός (Theos) também deveria vir com “ὁ” (ho), artigo grego, e com isto concorda o Dr. W. C. Taylor, outro trinitariano, ao citar I Jo. 3.4 “καὶ ἁμαρτία ἐστὶν ἀνομία” (lit: o pecado é a iniqüidade) como exemplo de equivalência por conta da presença do artigo ( ἡ ) ante os dois substantivos2. A presença do artigo em ambos os substantivos, nesse tipo de construção é a situação em que os estudiosos veriam equivalência. Fritz Rienercker & Cleon Rogers, também trinitários, informam sobre o Logos em Jo.1.1: “A palavra está sem o artigo e é o predicado que enfatiza a qualidade: ‘o Verbo tinha a mesma natureza de Deus‘”3, ou seja, o verbo não era o próprio Deus, mas tinha a mesma natureza dEle, portanto divino. A própria tradução literal sugerida por alguns “e Deus era o Verbo” é rejeitada por W. C Taylor. Embora em tempos recentes gramáticos como Colwell, tenham produzido uma nova regra4 em cima da milenar gramática grega e angariado seguidores dessa regra, pela qual se alega que quando na função predicativa o substantivo não exige artigo para ser considerado identificativo ao invés de qualificativo, porém a ausência desse artigo não permite asseverar a igualdade reivindicada, a ponto do atributo, como intentam defender aqueles que acreditam na consubstanciação absoluta entre Deus e Jesus. A própria regra de Colwell só é aplicável em certas circunstâncias e ainda assim não de forma definitiva. Estudiosos do Evangelho de João questionam sua eficácia na aplicação sobre Jo. 1.1. Assim, parece haver concordância entre os imparciais, mesmo entre especialistas trinitarianos, que essa passagem está informando a natureza do verbo e não afirmando que ele seja o próprio Deus, que abundantemente é identificado, nas Escrituras, como sendo o seu Pai.

Embora existam ocorrências no NT onde o Pai é indicado como Deus sem o artigo, tais ocorrências não estão na mesma condição de construção de João 1.1, dai vários especialistas escreverem o que escreveram.

O testemunho da história eclesiástica talvez seja útil para, complementarmente, mostrar que a expressão “O Verbo era Deus”, no original grego não denotava a coigualdade entre Deus e seu Verbo, como facilmente parecem acreditar hoje muitos leitores e estudiosos. O concílio de Nicéia em 325 d.C, todos sabem, tornou-se o primeiro concílio ecumênico na história da igreja e objetivava equacionar, dentre outras coisas, a questão de coigualdade ou não de Deus com seu Filho Jesus Cristo. Dele participaram poucos clérigos da fala latina: Marcos de Calabria da Itália, Ceciliano de Cartago da África, o próprio Ósio de Córdova da Espanha, Nicácio de Dijon da França, e Dominus de Stridon da província do Danúbio, o restante era a esmagadora maioria de língua grega, mesmo que os latinos tenham vindo com suas respectivas comitivas. A quantidade geral de participantes é imprecisa, mas estima-se que de 150 a 300 bispos. Em especial estavam ali aqueles que viviam sob o domínio religioso do Bispo Alexandre e simpatizantes da coigualdade, destaque-se o próprio ocidental Ósio de Córdoba, àquela época conselheiro do Imperador o que praticamente determinava qual seria o resultado do concílio. Pois bem, todos aqueles eminentes teólogos nascidos em um ambiente de fala grega, e por consequência bons conhecedores de sua própria língua materna e que eram a favor da coigualdade, concluíram que não havia palavra ou versículo na Bíblia que afirmasse cabalmente que Jesus era o próprio Deus, mesmo eles conhecendo a expressão “καὶ θεὸς ἦν ὁ λόγος” (kai theos em ho logos) e, também, os outros versos costumeiramente citados. Esse fato deveria comunicar alguma coisa aos leitores e estudantes atuais do evangelho de João, ao menos que a expressão é plenamente suficiente para dizer que o verbo é divino, mas não plenamente suficiente para dizer que ele seja o próprio Deus. Perceba que não se pode ignorar o grande número de teólogos de fala grega que estavam ali para requerer a coigualdade entre Deus e seu Filho, mas eles não o puderam e nem podiam fazer de forma eficaz usando só a Bíblia, pois ela não ensina isso. “Consequentemente, se se queria eliminar qualquer ambiguidade, era preciso superar os limites da linguagem bíblica5 e foi essa a saída nicena. Para solucionar o “problema”, com o apoio e a pedido do patrono do concílio, o Imperador Constantino, os que eram a favor da coigualdade editaram um credo que incluía a palavra “homoousios” (consubstancial) para indicar a relação entre o Pai e o Filho numa tentativa de um suposto reconhecimento de coigualdade; só que o termo é estranho à Bíblia, pois não consta nem no Antigo Testamento, nem no Novo Testamento, mas foi essa a solução encontrada por aqueles doutrinadores para satisfazer, ainda que precariamente6, a sua teologia. Tal fato termina por provar documentalmente, visto que todos eles assinaram o credo que, mesmo na visão deles, gregos de nascença e de fala, nenhum versículo nos originais da Bíblia satisfaz o requerimento trinitário de igualdade entre Deus, o Pai, e Nosso Senhor Jesus.

Isto prova que qualquer teólogo ou gramático grego da atualidade que afirmar que Jo. 1.1 é o suficiente para provar a Deidade de Jesus está passando por cima da opinião de quem falava fluentemente, conhecia as nuanças do grego bíblico e viveu o momento da discussão lá nos primeiros séculos, pessoas de quem não se pode alegar desconhecimento da gramática e dos sentidos da língua e que acima de tudo eram a favor da coigualdade.

O próprio Orígenes parece concordar, de alguma forma, com a divindade de Cristo sem que esta signifique igualdade plena com Deus, o Pai. Embora muitas de suas posições sejam extremadas, inclusive sobre isto e ainda que católicos e protestantes use seus escritos para dizer que ele reconhecia Jesus como Deus, ele afirmou buscando recursos de gramática, via pela qual seus opositores não o podem acusar de desvio, que “só o Pai é autotheos; de maneira que João, diz ele, descreve corretamente o Filho, chamando-o somente de theos, e não de ho theos.(grifei)”7 provando que o uso que fazem de suas palavras estão plenamente descontextualizadas.

Dr. W. Barclay8, que juntamente com Dr. F. Bruce são considerados os principais eruditos em grego da Grã-Bretanha, cujas obras são estudadas, inclusive, em seminários pelo mundo todo, comenta sobre João 1.1 nos seguintes termos: “É difícil entendermos essa afirmação, e ela é difícil porque o grego, língua na qual João escreveu, tinha uma maneira diferente de dizer as coisas.[…] Quando o grego usa um substantivo quase sempre é com o artigo definido ho [“o”]. Quando o grego se refere a Deus ele não diz simplesmente theos [“deus”]; ele diz ho theos [“o deus”]. Então quando o grego não usa o artigo definido junto com um substantivo, o substantivo se torna mais um adjetivo. João não queria dizer que a palavra era ho theos [“o Deus”]; como se dissesse que a palavra fosse idêntica a Deus. Ele disse que a palavra era theos – sem o artigo definido – o que significa que a palavra tinha, por assim dizer, exatamente a mesma característica e qualidade e essência e maneira de ser de Deus. Quando João disse a palavra era Deus ele não estava dizendo que Jesus era idêntico a Deus.[…] Nesse caso é melhor entendermos com o significado de que Jesus é divino. Vê-lo é o mesmo que ver o que Deus é.”9

O seu colega Dr. F. F. Bruce que é trinitário, comenta Jo. 1.1: “A estrutura da terceira cláusula no verso 1, theos en ho logos, exige a tradução ‘O Verbo era Deus’. Desde que logos tem um artigo diante dele, é marcado como sujeito. O fato de theos ser a primeira palavra depois da conjunção kai (e) mostra que a ênfase principal da cláusula está sob ele. Se theos tivesse assim como logos precedido de artigo o significado seria que o Verbo seria completamente idêntico a Deus, o que é impossível se o Verbo também estava ‘com Deus’.10 Existe uma “região” do saber onde um erudito, por mais amante que seja de suas conficções de fé, não pode ultrapassar. F. F. Bruce é forçado a reconhecer que “Se theos tivesse assim como logos precedido de artigo o significado seria que o Verbo seria completamente idêntico a Deus, o que é impossível se o Verbo também estava ‘com Deus’, perceba que pela via da gramática ele não pode afirmar algo diferente daquilo que disse o não trinitário Dr. William Barclay citado acima, ainda que o Dr. Bruce continue seu comentário e termine por defender um Deus composto, sua contribuição do ponto de vista estritamente gramatical nesse comentário é oportuna para confirmar aquilo que já foi demostrado: João 1.1 não ensina coigualdade entre Deus e Jesus Cristo, seu Filho.

Considerando que por consequência histórica dos concílios católicos a maioria absoluta dos comentaristas ou escritores cristãos, mesmo os evangélicos, hoje, seguem a teologia do “homoousios”, não teremos abundantes informações escritas sobre traduções alternativas ao versículo de João em estudo, embora se possa achar, como as citações indicadas anteriormente, esporadicamente algum trinitário disposto a ser imparcial. De qualquer forma das poucas versões que entenderam que João está mostrando a natureza divina mas não o identificando como Yahweh estão a de Moffatt “o Verbo era divino”, A New English Bible “o que Deus era, o Verbo era”; W.C. Taylor na página 198 de sua gramática, prefere “A Palavra era deidade”, ao invés de “A palavra era Deus”, La Sainte Bible, Segond-Oltramare (1879): “E a Palavra era um ser divino.”, La Bible du Centenaire, Societé Biblique de Paris. (1928): “E a Palavra era um ser divino.”, Das Neve Testament (1946), de Ludwig Thimme: “E a Palavra era de espécie divina.”, The Authentic New Testament (1958), de Hugh J. Schonfield: “E o Verbo era divino.”

Ainda que exista a palavra θειας (theias) conforme aparece em II Pe. 1.3,4 e alguns exigiriam o uso dela em João 1.1, para poder termos uma tradução “E o Verbo era Divino”, vale lembrar que esta não se refere apenas ou especificamente a “natureza divina”, mas a qualquer coisa referente a divindade, com um campo semântico que intercepta θεός. É de se destacar que θειας (com iota e alfa) não é a palavra exigida para se ter uma tradução pelo termo “divino”, isto se percebe e se comprova em várias versões católicas, portanto trinitárias, quando preferiram traduzir θεός por “divina” em Fp. 2.6 ficando “condição divina” ao invés de “forma de Deus”, dentre elas a Bíblia de Jerusalém que é uma Bíblia traduzida por católicos e protestantes, portanto de dois ramos religiosos que defendem a trindade (Vide, em português, também a TEB, BAM, BP e CNBB); e pode acontecer o contrário também, θείας traduzido por Deus, isto se prova na Septuaginta quando lemos, por exemplo, Pv. 2.17 “Que deixa o guia da sua mocidade e se esquece da aliança do seu Deus”, onde “aliança do seu Deus” traduz o grego “διαθήκην θείαν”, e se a exigência for “θείος” (com iota e ômicron) o mesmo fenômeno ocorre quando lemos “Espírito de Deus” em Ex. 31.3 e Jó 33.4 leremos, em grego, “πνεῦμα θεῖον” e não “πνεῦμα θεοῦ”. Acerca do uso de θείας em II Pe.1.3, a Chave Linguística do Grego do Novo Testamento, Edições Vida Nova – 1988, diz: “ O termo ‘poder divino’ no gen. é o sujeito do part. e era uma frase usada no lugar de ‘Deus’” (pág. 570). Assim, a informação trazida por João em 1.1 identifica Jesus como um ser divino e portanto participante da natureza divina, o que não significa igualdade absoluta com seu Pai, Deus; visto que ele próprio disse: “eu subo para meu Pai e vosso Pai, meu Deus e vosso Deus”, se conclui que a divindade do Filho não o elevava ao mesmo “status” do Pai na Deidade, tendo Ele mesmo a Deus como seu Deus. A não ser que haja uma hierarquia de “deuses”, Jesus já ressuscitado estava dizendo que tinha um Deus, isto, sem dúvida, não parece uma consubstanciação ou igualdade. Disse ainda: “meu Pai é maior do que eu”. Como veremos mais adiante a palavra θεός é usada para homens várias vezes no VT sem que contudo isso signifique uma reivindicação de igualdade com o Eterno, e esse uso não é feito no NT porque Jesus é, sobre a igreja, o único governante, legislador e juiz e cuja a intenção não é dizer que somos divinos individualmente, mas que seremos participantes da natureza divina por meio de Jesus Cristo, o que confirma a ideia que ser divino não é ser igual a Deus, o Pai.

Ora, a bíblia diz: “para nós há um só Deus, o Pai” (I Co. 8.6) e Jesus mesmo diz, acerca de seu Pai, em Jo. 17.3 “E a vida eterna é esta: que te conheçam, a ti só, por único Deus verdadeiro. Logo, considerando toda argumentação já exposta, qual dever ser o ângulo de visão de João 1.1? Será que devemos arrumar argumentos improváveis para desfazer versículos como estes citados, que mostram Deus como um e único, o Pai? Ou devemos, sem qualquer artifício, simplesmente aplicarmos a regra da gramática grega reconhecida por escritores trinitários que vêem em Jo. 1.1 um qualificativo e não uma atribuição de igualdade?! Se somente o Pai é Deus, e a Bíblia o diz reiteradas vezes, então, acerca de Jo. 1.1 temos duas opções: 1) dizermos que não, e alegarmos que aquele versículo de I Coríntios deve ser entendido como “há um só Deus, mas não é somente o Pai”, optando, desse modo, por algo que não é ensinado na Bíblia e criarmos uma nova doutrina, ou 2) admitirmos que “o verbo era Deus” em Jo. 1.1, não está afirmando que Jesus, o Filho, é o mesmo Deus, indicado em I Co. 8.6, e nem mesmo um outro Deus, que seria pior ainda, mas o qualificando de divino, conforme já exposto nas linhas anteriores, optando, desse modo, pela busca do uso bíblico e gramatical das palavras “theos” e “elohim”, o que permite entender o texto mantendo o monoteísmo ensinado nas Escrituras desde de sempre, sem inventar uma doutrina desconhecida de todos os escritores bíblico de todos os tempos e confirmar a condição, ensinada na Bíblia, de Jesus como Filho de Deus, e não como Deus Filho.

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1 Carvalho, Waldyr Luz in Manual de Língua Grega, Vol. 1 – Casa Editora Presbiteriana – 1991, pág. 499

2 Taylor, W. C in Introdução ao Estudo do Novo Testamento Grego, Juerp – 1990, pág. 198

3 Rienecker, Fritz & Rogers, Cleon in Chave Linguística do Novo Testamento Grego – Vida Nova, pág. 161

4 A regra de E. C. Colwell foi publicada pela primeira vez no Journal of Biblical Literature em 1933, porém é muito discutível e vários gramáticos questionam sua eficácia.

5 J. N. D. Kelly in Doutrinas Centrais da Fé Cristã – 3ª Edição 2005 – Paulus. Pág. 31

6 Richard Rubenstein cita Kelly informando que “Havia poucas palavras em grego que não eram suscetíveis a tantas e tão confusas gradações de significado quanto ousia” (Kelly, Early Christian Creeds, 243)

7 Kelly, J. N. D. Op cit pág. 98

8 William Barclay não é trinitário.

9 Apud. Baclay, William in The Gospel of John, Revised Edition (1975), pp. 39, 74.

10 Apud F. F. Bruce, The Gospel of John, (Grand Rapids: Wm. B. Eerdmans, 1983), p. 31

Is. 9:6

Isaías 9.6 “… e se chamará o seu nome: Maravilhoso, Conselheiro, Deus Forte, Pai da Eternidade, Príncipe da Paz.

Deve-se observar, ao lermos este verso de Isaías, que os nomes judeus trazem uma mensagem; principalmente os nomes teofóricos, mas não necessariamente uma atribuição de identidade pessoal. É possível encontramos nas Escrituras vários nomes significativos como, por exemplo, Jeú (Yahweh, Ele o é), mas Jeú não era Yahweh; Eli (Meu Deus), mas certamente Eli não era o nosso Deus; Jeiel (Deus Consola), mas aquele homem não era o Deus que consolava e etc. Vale lembrar que traduzir os nomes em Isaías 9.6, não está errado, mas para uniformizar deveriam ter traduzido todos os nomes da Bíblia e então, se for legítimo o critério que vê em Is. 9.6 uma atribuição de deidade a Jesus, conheceríamos, por consequência um monte de candidatos a “Deus encarnado”, dentre eles Jeú, Eli, Jeiel e etc. Destaque-se que Jr. 33.16 diz que Jerusalém será chamada de “Yahweh é a nossa justiça”, mas essa afirmação não intenta dizer que a cidade de Jerusalém é o próprio Yahweh.

O nome “Deus Forte” que é um dos destaques dessa relação de nomes, comumente usado para dizer que Jesus é o próprio Deus, na verdade é tradução de “אֵל גִּבֹּור” (El-Gibor), mas além do argumento exposto acima poderemos perceber que tais palavras não atribuem deidade a quem lhes é dirigida por outro motivo. Basta verificarmos Ez. 31.11 onde vemos que os tradutores não verteram a palavra “אֵיל” por “Deus” como fazem em Is. 9.6, ao ser atribuída ao rei de Babilônia; preferiram traduzir por “poderoso”. Caso semelhante também vemos em Ez. 32.21 quando lemos “Os poderosos entre os valentes lhe falarão desde o meio do Seol, …1 (ARA), “Os poderosos” é tradução de “אֵלֵי גִבֹּורִים” (Elei-Giborim = Deuses Fortes), plural da mesma expressão usada em Is. 9.6. Não precisamos dizer que essas palavras não são um atestado de deidade àqueles a quem foi direcionado o versículo de Ezequiel2, de igual modo não o é a Nosso Senhor Jesus Cristo aquela ocorrência em Isaías. Até porque se o nascido menino Jesus (um menino nos nasceu) fosse literalmente o Deus Forte, por quem teria sido abandonado 33 anos depois, na cruz, quando disse em Mt. 27.46: “Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?”. Aqui não se pode alegar que ele tenha sido abandonado pela hipóstase (pessoa) Pai, pois o versículo não diz “Pai meu”, mas “Deus meu” (a substância3).

Quanto ao nome “Pai da Eternidade” ou “Pai Eterno” como preferem outras versões, também precisa ser contextualizado, pois, além da questão das traduções dos nomes já abordada, a Bíblia não apresenta, em sentido divino, dois “pais”, mas apenas um, Deus, que é o Pai de Jesus, e, isso é dito por Ele mesmo, Mt. 23.9 “E a ninguém na terra chameis vosso pai, porque um só é o vosso Pai, o qual está nos céus”, e, o próprio credo atanasiano, trinitário, diz: “não confundido as pessoas nem dividindo a substância”. De modo que não pode haver dois “pais”. Jesus pode ser considerado como nomeado “Pai da Eternidade”, mas não no sentido ontológico como Deus é reconhecido como Pai, mas no sentido messiânico, que por sinal é o objetivo desse verso de Isaías, pois é por Ele que obtemos a eternidade, Rm. 6.23 “… o dom gratuito de Deus é a vida eterna, por Cristo Jesus nosso Senhor”.

É de se ressaltar também que o próprio nome Jesus (Yehweh é salvação) não era um nome inédito, tanto que é uma forma do nome Josué, e como tal é encontrado em At. 7.45, Hb. 4.8, onde lemos Josué, está no original grego Jesus (iesous). O apóstolo Paulo mesmo teve um colaborador de nome Jesus, conhecido como o justo, Cl. 4.11. Diga-se de passagem que El-Gibbor (Deus poderoso) é, curiosamente, mais usado pelos trinitarianos para dizer que o Filho de Deus é Deus, que seu próprio nome de nascimento, Jesus, mas isso sem dúvidas decorre do fato do nome Jesus ser mais comum na Bíblia que o nome “El-Gibbor”, como se este último desse um ar de distinção ao argumento, no entanto está provado que “El-Gibbor” além de não ser também inédito, não é atribuição de deidade a quem o possui. Assim, por mais de um motivo não há razão para afirmar igualdade entre Jesus e Deus por conta dos nomes naquele verso de Isaías. Quando dizemos que o nome Jesus é especial não estamos nos referindo ao anagrama formado pelas letras, mas o que Ele representa.

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1 A versão da Almeida Fiel traz: “Os mais poderosos dos fortes lhe falarão desde o meio do inferno…

2 Ainda em Ez. 31.12 encontramos אֵ֣ל traduzido por governante o que parece estar em harmonia com aquele contexto que ao se refere a um rei. Se considerarmos que o Is. 9.6 também aponta para o futuro monarca, Jesus Cristo, então, cabe ali, com muita propriedade a tradução “governante forte”

3 Definir Deus como uma substância composta por hipóstases não é uma definição bíblica, mas uma arranjo teológico da era pós-apostólica para tentar justificar, ante as dificuldades que surgem quando analisada mais a fundo, a doutrina da trindade

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