Em defesa do eterno conceito de Deus como um e único

Autor: valdomiro Page 6 of 7

Jo. 1.18

Jo. 1.18Ninguém jamais viu a Deus. O Deus unigênito, que está no seio do Pai, esse o deu a conhecer.” (ARA), “Deus unigênito” ou “Filho unigênito” conforme lemos na Almeida Corrigida. Alguns afirmam que “segundo os manuscritos mais antigos, os melhores, essa [Deus unigênito] era a redação original”; no entanto, essa não parece ser uma opinião aceita em todos os ciclos. John H. Dobson informa-nos: “Alguns dos antigos Mss. lêem μονογενὴς θεὸς ou ο μονογενὴς θεὸς. Eles são apoiados por uma ou duas [p66 e p75] traduções antigas e diversos Pais. A maioria dos Mss., versões e Pais apoiam a leitura μονογενὴς υἱὸς .1 Concluiu o Prof. Dobson: “Se João escreveu θεὸς é difícil enxergar o que a sentença, como um todo, quer dizer. Preferiremos a leitura ο μονογενὴς θεὸς. Nessa publicação da CPAD, descobrimos que apenas dois manuscritos, embora muito antigos, trazem a formação “μονογενὴς θεὸς”, somente dois manuscritos; e ambos foram usados para elaboração do TC. Esses manuscritos ao serem investigados se revelam como não sendo dos melhores. De P66 um dos manuscritos que contém a expressão “Deus unigênito”, o Dr. Norman Wilbur Pickering, defensor do TR, cita Colwell, em seu livro Qual o Texto Original do Novo Testamento informando que “Ele localizou e revelou que p66 tem 400 itacismos2 mais 482 leituras singulares3 outras, 40 porcento das quais são sem sentido. ‘p66 edita [i.e, introduz as opiniões do copista], como faz com todo o mais – de forma desleixada’. Em suma, p66 é uma cópia extremamente ruim.” De p75, o outro manuscrito que contem a passagem, a obra citada diz: “p75 é colocado próximo a p66 quanto à data de origem. Embora não seja tão ruim quanto p66, dificilmente poderia ser dito que é uma boa cópia. Colwell localizou e revelou que p75 tem cerca de 145 itacismos, mais 257 outras leituras singulares, 25 porcento das quais são sem sentido”. Isso revela que, via de regra, o copista não conhecia bem a língua já que trocava as letras com fonemas parecidos. Além do mais “μονογενὴς θεὸς” não é expressão usual de João; ele sempre usa “μονογενὴς υἱὸς” como em João 3:16, 18; 1 João 4:9. Pelas razões expostas, Jo. 1.18 na versão da ARA (Deus Unigênito) é mais um verso que não é mais usado em defesa da igualdade absoluta da deidade de Jesus com Deus, seu Pai.

1 Dobson, John H. in Aprenda o Grego do Novo Testamento, Edições CPAD, 1994, pág. 384

2 Itacismo significa a substituição de uma vogal ou um ditongo por outro/a que se pronuncia de forma igual ou muito parecida.

3 Ou seja, encontrada apenas nele.

Ap. 21.7

Em Ap 21.7 lemos: “a quem vencer eu serei o seu Deus …”. Esse verso é interessante porque embora não esteja explícito que tenha sido Jesus quem disse isso, algumas pessoas fazem essa associação por causa de um versículo citado no começo de Apocalipse, em 1.17. Porém olhando para os versos anteriores, já em 20.4, Jesus é identificado como Jesus, e, Deus como Deus. Em 20.6, Jesus é identificado como Cristo, e, Deus como Deus. Adentrando no capítulo 21 de Apocalipse temos João falando que ouviu uma voz, e essa voz (v.3) fala de Deus nos versos 3, 4, mas Ele, Deus, já tinha sido citado também no verso 2. O verso 5 se refere ao que “estava assentado sobre o Trono”, aquele mesmo “de cuja presença fugiu o céu e a terra”. O v. 7 é confirmação do v.3. Mais adiante Jesus é identificado como Cordeiro, e, Deus como Deus. Ou seja, não há elementos textuais no trecho em que o versículo está inserido para afirmar que foi Jesus. Somente pela regra costumeiramente usada pelos Tjs de comparação por associação de pessoas, a mesma que faz eles pensarem que Jesus é Miguel, é que se ventila essa possibilidade. Pensa-se que se em Ap. 1.17 Jesus disse que é “o primeiro e o último”, e em Ap. 1.8 e Ap. 21.6 Deus, o Pai, diz: “eu sou o Alfa e Ômega, o princípio e o fim”, então, são o mesmo “ser”.

Para clarificarmos essa questão talvez seja oportuno analisarmos, paralelamente, outros textos que referencia Jesus e Deus numa suposta condição de exclusividade de expressões. Como por exemplo “rei dos reis”. Se é “rei dos reis”, quantos “reis dos reis” podem existir? Segundo a própria Bíblia mais de um: Ed. 7.12 “Artaxerxes, rei dos reis, ao sacerdote Esdras, escriba da lei do Deus do céu, paz perfeita, etc.”, Ez. 26.7 “Porque assim diz o Senhor DEUS: Eis que eu, desde o norte, trarei contra Tiro a Nabucodonosor, rei de Babilônia, o rei dos reis, com cavalos, e com carros, e com cavaleiros, e companhias, e muito povo.”, perceba que as Escrituras chama tanto Artaxerxes quando Nabucodonosor de “rei dos reis”, eles não eram e nunca foram uma única pessoa; um ente consubstancial, e de igual modo as Escrituras chamam Deus Pai de “rei dos reis” em I Tm. 6.15 e a Jesus de “rei dos reis” em Ap. 17.14. Assim fica evidente que tais expressões não condicionam a um possível ineditismo, mas revela a possibilidade de um mesmo título ser aplicado com perspectiva não exclusivista a mais de uma pessoa.

Com isso em mente observemos o contexto onde as palavras foram escritas, ao dizer, Jesus, que era o “primeiro e o último”. Ele, Jesus, segue falando sobre haver sido morto e estar vivo, e, de fato, ele foi o primeiro, porque foi morto antes da fundação do mundo, e o último porque venceu o império da morte, talvez por isso Ele não tenha usado exatamente as mesmas palavras que Deus usou em Ap. 1.8 e Ap. 20.6. De qualquer forma, devemos lembrar que Apocalipse é um livro que até hoje ninguém conseguiu entender por completo. Vejamos, por exemplo, Ap. 22.8-13 “ (v.8)… prostrei-me aos pés do anjo que mas mostrava para o adorar. (v.9) E disse-me: Olha não faças tal; …Adora a Deus. (v.10) E disse-me: Não seles as palavra…(v.11) Quem é injusto…(v.12) E, eis que cedo venho… (v.13) Eu sou o Alfa e o Ômega, o princípio e o fim, o primeiro e o derradeiro”, em uma leitura simples e seguida não se identifica Deus ou Jesus como os comunicadores dessas palavras, mas o ANJO. Somente no verso 16 lemos “Eu Jesus, enviei o meu anjo,…”. Ora, mas foi o anjo mesmo quem disse “Eu sou o Alfa e o Ômega”. Seria aquele anjo, que disse isso, a Quarta Pessoa da “trindade”, que a essa altura precisaria ser reformulada? Ou devemos considerar a questão mais contextualizada? Contextualizar não somente a ocorrência nessa passagem, mas em todas as outras em que aparece em Apocalipse? Se alegarmos que o Anjo disse o que Jesus diria, então precisamos ir mais além e lembrar que o conteúdo de Apocalipse é revelação dada por Deus a Jesus e não o contrário, Ap. 1.1. Assim, porque não está dito que foi Jesus quem falou em Ap. 21.7, é preferível entender contextualmente Deus, como Deus nessa passagem, e não como Jesus; motivado por uma possibilidade insegura de associação.

Jd. v.4

Jd. 4 … que convertem em dissolução a graça de Deus e negam a Deus, único dominador e Senhor nosso, Jesus Cristo.” A ideia aqui é a dissolução da graça de Deus e negar o único dominador, ao Senhor Jesus Cristo. A Bíblia do Peregrino verte assim: “… que traduzem o favor de Deus em dissolução e renegaram o único patrão, o Senhor nosso Jesus Cristo.” Já a “Bíblia do Pão” (Editoras católicas Vozes e Santuário) assim, verteram: “… que transformam em libertinagem a graça de nosso Deus e negam nosso único soberano e Senhor, Jesus Cristo”. A CNBB entendeu: “… pois abusam da graça de nosso Deus para a devassidão e negam o nosso único soberano e Senhor, Jesus Cristo.” A BJ traduziu: “… que convertem a graça de nosso Deus num pretexto para licenciosidade e negam Jesus Cristo, nosso único mestre e Senhor”. O padre Matos Soares, da vulgada latina, traduziu: “… os quais trocam a graça do nosso Deus em luxúria, e negam a Jesus Cristo, nosso único Dominador e Senhor.

I Jo. 5.20

I Jo. 5.20E sabemos que já o Filho de Deus é vindo e nos deu entendimento para conhecermos o que é verdadeiro; e no que é verdadeiro estamos, isto é, em seu Filho Jesus Cristo. Este é o verdadeiro Deus e a vida eterna.” (ACF). Este versículo é muito bom e muito digno de ser estudado, considerando o tema que o envolve! Aqui há aparentemente duas dificuldades. A primeira é quando se diz que “estamos no verdadeiro, isto é, em seu Filho Jesus Cristo” e a segunda é “Este é o verdadeiro Deus e a vida eterna”. A preposição colocada aqui é “ἐν” (en), que, em grego, é usada com locativo, instrumental e raros dativos. Como instrumental pode significar “por” e “com”1. Nesse ponto, vale lembrar que a expressão “isto é” constante da Almeida Corrigida Fiel, e que seria a primeira dificuldade, não está presente nos originais gregos, e foi acrescentada como um indutor de conclusão, o que mostra que todos os tradutores, inclusive os das nossas Bíblias, acrescentam ou modificam textos bíblicos para favorecer determinada crença. Deve-se registrar que as expressões “e no que é verdadeiro estamos” e “em seu Filho Jesus Cristo”, apresentam a mesma forma grega em uma construção ligeiramente diferente por conta do verbo na primeira delas. O uso do verbo “estar” influi nesse julgamento, pois quando se diz “estamos no verdadeiro” temos a ideia locativa. Já o trecho “em seu Filho Jesus Cristo”, pode ser traduzida “por seu Filho Jesus Cristo” ou “com seu Filho Jesus Cristo”. E fica a interrogação: Qual a melhor forma de entender a expressão? Bem, basta entender o que o verso, como um todo, quer dizer. Observe que o versículo principia informando que Jesus veio para nos dá a conhecer o Verdadeiro, então, indubitavelmente ele é o instrumento para esse fim (Mt. 11.27, Lc. 10.22, Jo. 1.18), logo, é natural entendermos “e nós estamos no Verdadeiro, por seu Filho”. Se for usado “com” deve ser entendido como o uso na frase “fiquei bom com remédio”, onde remédio foi o veículo para a finalidade. Para mostrar as várias conceituações do versículo, listo 3 (três) versões católicas:

Sabemos que o Filho de Deus veio e nos deu entendimento para conhecermos o Verdadeiro. E estamos no Verdadeiro, nós que estamos em seu Filho Jesus Cristo. Este é o verdadeiro Deus e a vida eterna.Bíblia Ave Maria.

Sabemos que o Filho de Deus veio e nos deu inteligência para conhecer o Verdadeiro. Estamos com o Verdadeiro e com o seu filho Jesus Cristo. Ele é o Deus verdadeiro e vida eterna.A Bíblia do Peregrino.

Mas sabemos que veio o Filho de Deus e que nos deu entendimento para que conheçamos o verdadeiro Deus e estejamos no seu verdadeiro Filho. Este é o verdadeiro Deus e a vida eterna.Matos Soares.

Como se pode perceber esses tradutores trinitários não entenderam que a palavra “Verdadeiro” esteja se referindo a Deus e a Jesus ao mesmo tempo naquele trecho do versículo, como parece dar a entender a Almeida Corrigida Fiel, e confirmam a ideia instrumental do Filho no processo de nos fazer conhecer a Deus. Mas isso, é relativamente simples de se entender, porém ao concluir o verso com “Este é...” o tradutor faz muita gente pensar que João esteja se referindo a Jesus; visto que todos nós aprendemos que em português se deve usar “este” para o que está perto e “esse” para o que está longe, pois bem, “Este” no verso sucede imediatamente a expressão “Jesus Cristo”, assim essa parte de I Jo. 5.20 poderia ser algo que causasse dificuldade na defesa do monoteísmo estrito, mas a forma de expressão da língua grega é diferente do nosso português, embora nossa língua tenha alguma coisa dela. W. C. Taylor, em sua gramática, comentando sobre outro assunto, nos dá uma informação valiosa para a compreensão desse uso em grego, ele diz: “… não há pronome correspondente ao nosso ‘esse’, pois ‘hode’ é quase equivalente de ‘este’”2. No versículo que estamos estudando, não foi usado “hode”, que costumam usar para “esses”, mas “houtos” que os dicionários normalmente traduzem por “este”, mas como não há um equivalente exato para “esse” em grego, ainda que devêssemos entender “esse”, “houtos” poderia estar lá da mesma forma. E sobre isso o Gramático escreve: “…houtos pode se referir a um assunto que está mentalmente mais perto da atenção de quem fala ou escreve, embora na ordem anterior das palavras seja mais remoto.”3 Tal entendimento é provado em versículos como At. 7.18, 19 “Até que se levantou outro rei, que não conhecia a José. (19) Esse, usando de astúcia contra nossa linhagem, maltratou nossos pais”, em grego temos: “ἄχρι οὗ ἀνέστη βασιλεὺς ἕτερος ἐπ’ Αἴγυπτον ὃς οὐκ ᾔδει τὸν Ἰωσήφ, οὗτος κατασοφισάμενος τὸ γένος ἡμῶν ἐκάκωσεν τοὺς πατέρας”, perceba que a mesma palavra grega foi traduzida por “Este” em I Jo. 5.20 e por “Esse” At. 7.19, também pode-se ver situação semelhante em At. 4.10,11 “Seja conhecido de vós todos, e de todo o provo de Israel, que em nome de Jesus Cristo, o Nazareno, aquele a quem vós crucificastes e a quem Deus ressuscitou dentre os mortos, em nome desse é quem este está são diante de vós. (11) Ele é a pedra que foi rejeitada por vós…”, aqui οὗτος (houtos) foi traduzida por “Ele”, referindo-se não a quem estava imediatamente mais próximo no relado, mas a Jesus que foi citado no início do verso anterior, pois doutra sorte o paralítico é quem seria “a pedra que foi rejeitada” e não Jesus. Mas, talvez a ocorrência mais significativa seja I Jo. 2.22, visto que estaremos buscando exemplo nos próprios escritos de João, ali lemos “Τίς ἐστιν ὁ ψεύστης εἰ μὴ ὁ ἀρνούμενος ὅτι Ἰησοῦς οὐκ ἐστιν ὁ Χριστός; οὗτος ἐστιν ὁ ἀντίχριστος ὁ ἀρνούμενος τὸν πατέρα καὶ τὸν υἱόν.”, perceba que “οὗτος” (houtos) segue imediatamente “ὁ Χριστός” (Cristo), mas seria completamente descontextual, e porque não dizer esdrúxulo, requerer o demonstrativo “este” ao invés de “esse” por conta da presença da partícula “οὗτος” (houtos), pois estaríamos chamando o Cristo de anticristo. Isto posto, olhemos para I Jo. 5.20 e consideremos o que João aprendeu quando Jesus ainda andava com ele nas ruas da judeia. Se João era um homem devoto, e cremos que sim, certamente não era de seu desconhecimento as ocorrências na Bíblia da expressão “verdadeiro Deus”, pois essa expressão aparece em II Crônicas 15.3, Jeremias 10.10, João 17.3 e I Tessalonicenses 1.9, em todas as vezes ela se refere apenas ao Pai. Uma delas João ouviu do próprio Jesus Cristo. O Evangelista também corrobora em 1.18 de seu evangelho, que o Filho nos deu a conhecer o Pai. Façamos, então, uma releitura de I Jo. 5.20: A parte “a” do verso diz “E sabemos que já o Filho de Deus é vindo, e nos deu entendimento para conhecermos o que é verdadeiro; e no que é verdadeiro estamos…” Perceba que até aqui não há como achar que João esteja chamando Jesus de “verdadeiro” para concluir que ele seja o “verdadeiro Deus”, embora que ele seja o verdadeiro Filho, pois o foco recai sobre a ação do Filho de Deus em nos dar entendimento. Não parece razoável presumir que o “verdadeiro” acerca do qual o Filho nos veio dar conhecimento seja ele mesmo já que o próprio Jesus disse não testificar de si, logo ele é o instrumento para chegarmos ao conhecimento de Deus. Dessa elucidação decorre o entendimento da parte seguinte do verso: “e no que é verdadeiro estamos”. Em I Jo. 4.15 lemos: “Qualquer que confessar que Jesus é o Filho de Deus, Deus está nele, e ele em Deus. 16 E nós conhecemos, … e quem está em amor está em Deus, e Deus nele”; note, aqui mais uma vez é feita a distinção de Jesus como Filho e de estarmos em Deus (Deus um outro ente) por causa da nossa aceitação ao Filho. Então, até esse ponto temos a compreensão natural de que o “Verdadeiro” acerca de quem Jesus nos deu entendimento para o conhecermos não é ele próprio, mas aquele de quem ele é Filho. O verso de I Jo. 5.20 segue dizendo: “… em seu Filho Jesus Cristo.” (exclui o “isto é” inexistente do original grego), aqui o português e a tradição trinitária prejudica a naturalidade do entendimento do verso, porque a expressão “em seu Filho” pode ter, pelo menos, duas acepções, mas só é vista de uma forma: que o Verdadeiro referenciado por João é o Filho. Essa é forma que quebra a sequência do que vimos até agora, e ignora um detalhe bem importante da frase, pois ao dizer “Em seu Filho”, esse pronome “SEU” está se referindo a alguém! Quem? Façamos uma releitura do trecho: “e no que é verdadeiro estamos, em seu Filho Jesus Cristo”, ora é natural percebermos que existe um personagem no verso além do Filho, que é a causa do verso e através do Filho estamos NELE. Ora, se esse “SEU” não se refere ao “verdadeiro”, em quem estamos, da frase anterior, a quem, então, se refere? É provável que todos concordemos que Jesus não pode ser Filho dele mesmo! Logo ao dizer “em seu Filho” esse “EM” não tem intenção de relacionar “e no que é” para se concluir que “O Verdadeiro” e o Filho do “Verdadeiro” sejam uma coisa só, mas mostrar que pelo Filho, ou no Filho, se obtém o entendimento para conhecermos o “Verdadeiro Deus e a vida eterna”, por isso Jesus disse, orando ao Pai: “E a vida eterna é esta: que te conheçam, a ti só, por único Deus verdadeiro”.

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1 Taylor, W. C in Introdução ao Estudo do Novo Testamento Grego, Juerp 1990, pág. 29

2 Taylor W. C. Op cit, pág. 293

3 idem

Hb. 1.8

Hb. 1.8 Mas do Filho diz: O teu trono, ó Deus, subsiste pelos séculos dos séculos, e cetro de equidade é o cetro do teu reino.” A romanização da fé condicionou os crentes atuais a acharem que sempre que aparece a palavra “Deus”, esta se refira ao Deus Eterno, Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo e por via de consequência o próprio Cristo. Isso gerou dificuldades para várias pessoas não só no entendimento de muitas passagens bíblicas, mas, também, a própria rejeição inconsciente da contextualização histórica do uso do termo “deus” dentro da Bíblia. Vale ressaltar que nos originais da Bíblia, seja hebraico, aramaico ou grego não havia distinção capitular nos caracteres, ou seja, todas as letras eram escritas do mesmo tamanho, assim, a tradução para as nossas Bíblias da palavra elohim, por exemplo, por “Deus” ou “deus” ou ainda “deuses” vai depender da compreensão que o tradutor tem de determinada passagem. Para se ter uma ideia o termo “elohim” (deus) aparece em torno de  2.500 vezes no Antigo Testamento hebraico, sendo que nada menos que umas 240 ocorrências não se referem ao Deus Eterno, de modo que seus outros usos não podem ser considerados exceções. Em alguns casos vemos que o termo é aplicado individualmente a falsos deuses pagãos em, pelo menos, 19 ocorrências: A Baal, 5 vezes (Jz 6.31; 1Rs 18.24,25,27; Jz 8.33); a Quemós, 2 vezes (Jz 11.24; 1Rs 11.33); a Milcom, 1 vez (1Rs 11.33); a Dagom, 5 vezes (Jz 16.23,24; 1Sm 5.7); a Baal Zebube, 4 vezes (2Rs 1.2,3,6,16); a Nisroque, 2 vezes (2 Rs 19.37; Is 37.38). O próprio Bezerro de ouro que era um único, feito por Arão, foi chamado de “elohim” em Ex. 32.4. Aqui se poderia questionar a legitimidade dessas falsas divindades serem chamadas de “deus” e, de fato, dentro do contexto bíblico, baseado em Gl 4.8, eles não têm legitimidade, mas o uso da palavra aplicada a elas, por si só, já descarta a reivindicação da existência implícita da trindade em “elohim”; uma suposta pluralidade de pessoas na palavra, pois cada uma dessas falsas divindades não são uma trindade por serem chamadas de elohim. O Bezerro de Ouro, por exemplo, não era mais de um em nenhum aspecto. Destaque-se que quem os classificavam de elohim não eram os povos pagãos, eles tinham os seus termos nas línguas nativas para os definir, mas os próprios escritores sagrados que falavam e escreviam hebraico. Essa palavra se não tomada em sentido singular não pode significar “pessoas” na deidade, pois em seu sentido plural significa literalmente “deuses”, não pessoas, e nenhum trinitário afirmará que Pai, Filho e Espírito Santo sejam três deuses. Vale ressaltar que tal termo também é aplicado a homens. Quando lemos a palavra “juízes” em nossas Bíblias, por exemplo, em Ex. 21.6 “então seu senhor o levará perante os juízes, e o fará chegar à porta, ou ao umbral da porta, e o seu senhor lhe furará a orelha com uma sovela; e ele o servirá para sempre.” ou Ex. 22.28 “Aos juízes não maldirás, nem amaldiçoarás ao governador do teu povo”, se lêssemos em uma Bíblia hebraica estaríamos lendo “elohim”, ou seja “deus” ou “deuses” ao invés de “juízes”, como ocorre no conhecido Salmo citado por Jesus, Sl. 82.6 “Eu disse: Vós sois deuses (elohim), e filhos do Altíssimo, todos vós”. Devemos relembrar que tal Salmo não é a única ocorrência do termo “deus” aplicado a homem, foi, apenas, traduzido de forma explicita por conta da Septuaginta e do uso referencial que Jesus fez do Salmo. Isso é uma impropriedade? Os homens são, agora, iguais ao Deus Eterno por serem chamados de elohim (deus)? É alguma consubstanciação entre o Eterno Deus e os homens encarregados de julgar o povo hebreu? Note que nesse caso não se verifica um reconhecimento errôneo de algum povo pagão acerca de alguém, nem podemos acusar o escritor sacro de haver registrado alguma ilegitimidade, pois o próprio Yahweh Elohim, ou seus inspirados, foi quem os chamou assim. Para o povo hebreu não seria algo esdrúxulo ou blasfemo um “juiz” ou “rei” de Israel ser chamado de “deus”, pois o são por concessão de quem o pode conceder e não em essência. Aliás, é esse tipo de pensamento contextual judaico que permite um israelita recitar esse salmo sem crise de consciência e sem ver nele contradição alguma com Is. 45.5 “Eu sou o Senhor, e não há outro; fora de mim não há Deus.” ou mesmo com o Shamá.

O verso em estudo como se sabe é referência de Sl 45.6-7, e, a esse respeito a Tradução Ecumênica da Bíblia (TEB), elaborada por Católicos e Protestantes, da Editora Loyola, assim comenta o Salmo: “Deus, palavra que por vezes é aplicada a homens (cf. Ex. 4.16), parece aqui designar o rei. Segundo as versões, o v. 7 se dirige a Deus. Contudo, Hb. 1.8-9 o aplica ao Filho. Os modernos muitas vezes têm interpretado ‘teu trono é (o) de Deus’ (cf. I Cr. 29.23), ou então ‘teu trono é (como o de) Deus’”. Perceba que o comentarista mesmo trinitário reconhece que o pensamento de atribuição desse verso ao Deus Eterno se dá nas versões, ou seja, não é o texto ou o contexto hebraico, por si só, que força esse entendimento, pelo contrário, se formos ler o texto só olhando para o hebraico o entendimento natural seria “Teu trono é de Deus” ou que a palavra “Deus” ali represente o monarca e não um ente Divino. Isto pode ser constatado também na Bíblia de Jerusalém que traduz o Salmo a partir do hebraico assim: “Teu trono é de Deus, para sempre e eternamente! O cetro do teu reino é cetro de retidão!”, ainda em nota de rodapé na mesma Bíblia se encontra: “O grego traduz: ‘Teu trono, ó Deus…’, vendo no termo elohim um vocativo qualificando o rei; este título protocolar é de fato aplicado ao Messias (Is.9.5), assim como aos chefes e aos juízes (Ex. 22.6/ Sl. 82.6), a Moisés (Ex. 4.16/ 7.1) e à casa de Davi (Zc. 12.8).” Aqui da mesma forma os comentaristas trinitários, reconhecem que o termo “elohim” nessa passagem é um “título protocolar”, que pode ser aplicado tanto a governante (chefes) e juízes, ou seja, não é uma atribuição de deidade a quem foi dirigido o Salmo. A Bíblia do Peregrino preferiu traduzir “Teu trono, como o de um Deus.” e parece ter respeitado o sentido bíblico do uso do termo aplicado a monarcas (Zc. 12.8 “e a casa de Davi será como Deus”) e juízes de Israel. E nesse sentido aponta para a dinastia davídica I Cr. 29.23 “Assim Salomão se assentou no trono de Yahweh, como rei em lugar de seu pai Davi, e prosperou; e todo o Israel lhe prestou obediência”.

A promessa do trono eterno, para a casa de Davi, já é vista desde II Sm. 7.12 “Quando teus dias forem completos, e vieres a dormir com teus pais, então farei levantar depois de ti um dentre a tua descendência, que sair das tuas entranhas, e estabelecerei o seu reino. 13 Este edificará uma casa ao meu nome, e eu estabelecerei para sempre o trono do seu reino. 14 Eu lhe serei pai, e ele me será filho. E, se vier a transgredir, castigá-lo-ei com vara de homens, e com açoites de filhos de homens; 15 mas não retirarei dele a minha benignidade como a retirei de Saul, a quem tirei de diante de ti. 16 A tua casa, porém, e o teu reino serão firmados para sempre diante de ti; teu trono será estabelecido para sempre.

Analisando o contexto histórico do Salmo 45.6-7, podemos perceber que, conforme reconhecem os próprios comentarista trinitarianos, trata-se de um salmo dirigido a um monarca de israel, e que profeticamente aponta para Cristo, mas, perceba, o aponta como monarca, conforme o salmo, e não como o Deus Eterno.

O restante do Salmo, normalmente deixado de lado por muitos, dá informações importantes sobre essa realidade. Já no primeiro versículo vemos o escritor falar que dirige seus versos ao Rei, a quem chama de o mais formoso entre os filhos dos homens e que Deus o abençoou. Se diz, também, que esse rei foi escolhido dentre outros companheiros; o verso 9 diz que aquele que foi chamado de “Deus” tem donzelas a sua disposição e já tem uma rainha, inclusive uma filha, e filhos que ficaram no lugar de seus pais. Então, ao invés de imaginarmos o Salmo 45.6 como um versículo isolado, como se este fosse um adendo no texto bíblico que foi usado em Hebreus, precisamos vê-lo como parte de um maravilhoso contexto, não somente do restante do próprio Salmo, mas de toda a Bíblia e entendê-lo como todo aquele que se preocupa em ler a Bíblia por completo entenderia; que a palavra “Deus” no verso 6 não é atribuição de deidade, mas reconhecimento de poderio e da origem do trono daquele monarca e nesse sentido, com caráter profético, aplicado em Hebreus.

Se só lermos Hb.1.8, isoladamente, buscando uma solução trinitária, deveríamos antes parar para meditar: Se o texto diz que Deus, o Deus de “Deus”, o ungiu, não só teríamos um subordinacionismo ontológico, que é rejeitado pelos trinitarianos por negar a co-igualdade entre as hipóstases, como também “Deus” fora de Deus, cuja possibilidade é negada em Is. 44.6. Ou seja, um Deus ungindo um outro co-igual é algo não enpermitido e nem ensinado na Bíblia. Os versos não dizem que Deus está se auto-ungindo(?). Portanto se o texto se referir a primeira ocorrência da palavra Deus como Deidade absoluta, temos, por via de consequência dois “Deus(es)”; o ungido e o que unge. Agora, se o entendemos como um texto que foi dirigido, como o próprio nome da epístola diz, aos HEBREUS, e nos lembrarmos que eles estavam familiarizados com os usos do termo “Deus” (Elohim) nas escrituras Hebraicas e o lia agora em grego, então, tudo se harmoniza, pois como regente da casa de Davi, Jesus, o Filho de Deus, assentará no trono eterno de Yahweh como o fez Salomão; será juiz (Cetro de Equidade), como o foram Jafé e muitos outros, e por consequência “Elohim” (Deus), mas não no mesmo sentido que seu Pai é. Os hebreus não estranhavam quando alguém era chamado de “Elohim” (Deus) quando o contexto nitidamente apontava para aquele que fora designado pelo Eterno e tinha o poder de reger e julgar o povo escolhido. Os fariseus ilegitimamente censuraram Jesus porque não o reconheciam como Regente da parte de Deus. Assim Hb. 1.8, longe de atribuir deidade a Cristo, o reconhece, nos moldes Bíblicos, como Governante:. O Messias que como rei regeria o seu povo.

Tt. 2.13

Tt. 2.13 – Precisamos saber porque ele foi traduzido “aparecimento da glória do nosso grande Deus e Salvador Cristo Jesus,” e 2 Ts.1.12, que tem igual construção em língua grega foi traduzido por “a graça de nosso Deus e DO Senhor Jesus Cristo” (destaquei). O texto original de Tt. 2.13, pode tranquilamente e corretamente ser traduzido por “Aguardando a bem-aventurada esperança e o aparecimento do grande Deus e DO nosso Salvador Jesus Cristo“. A própria versão católica (religião berço da formulação do trinitarismo cristão), conhecida como a Bíblia Pão Nosso, da Editora Vozes em conjunto com a Editora Santuário, verteu assim o verso de Tt. 2.13: “Aguardando nossa esperança feliz e a vinda gloriosa do grande Deus e do Salvador nosso, Jesus Cristo.”, e não foi a única tradução a fazer a distinção, a Bíblia do Peregrino, também católica, verteu: “Esperando a promessa feliz e a manifestação da glória do nosso grande Deus e do nosso Salvador Jesus Cristo.” Ou seja, imparcialmente até mesmo um trinitariano traduzirá Tt. 2.13 como se traduz II Ts. 1.12. Deve-se levar em consideração que o fato de outros versos como II Ts. 1.12 que tem a mesma construção apresentarem preposição na versão para nossa língua é digno de nota, por mostrar a desuniformidade das traduções que, consequentemente, terminam por influenciar, de uma forma ou de outra, o entendimento dessas passagens bíblica entre nós. Talvez se pergunte: Por que não usar os dois sem preposição ao invés de ambos com preposição já que o grego permite? A resposta é simples. Além do respeito ao modo de escrever de Paulo que sempre faz distinção clara entre Jesus e Deus como sendo seu Pai, precisamos lembrar que o uso da preposição em grego é diferente do de nossa língua, bem como o artigo. Na verdade, quando estamos falando de ausência da preposição em português, nessas passagens, estamos falando de ausência do artigo grego. Ambos os substantivos, “Deus” e “Jesus” estão no genitivo, mas apenas “Deus” está com artigo. Nesse caso temos “do Deus” por causa do artigo e “de Jesus” pela ausência do artigo, se tivesse artigo seria “do Jesus”, construção possível em grego, mas não usual em português. Também não é usual dizermos, mesmo tendo o artigo “do Deus”, como não é usual dizermos “de Senhor Jesus”, mesmo sem o artigo, mas “de Deus” e “do Senhor Jesus Cristo”. Assim, nas traduções indicadas, nada foi acrescentado, apenas traduzido. A prova disso é o testemunho de muitas passagens bíblicas com construções anartas1: At. 15.11, Rm. 1.7, I Co. 1.3, II Co. 1.2, Ef. 1.2, Fp. 1.2, Cl. 1.2, I Ts. 1.1, II Ts. 1.2, I Tm 1.1,2, I Tm. 5.21, Tt. 1.4, Fl. 1.1, Tg. 1.1, II Jo.1.3. Quando se usa a expressão “Senhor Jesus Cristo” quase sempre é sem artigo no NT grego, e todos eles são traduzidos, de fato, “do Senhor Jesus Cristo”. Se compararmos esses versículos com Tt. 2.13 a única diferença é o troca da palavra “Senhor” por “Salvador” que, em termos gramaticais, não munda absolutamente nada. Assim, ou se concorda e considera todos esses versos com mesma tradução, por trato de uniformidade e é este, realmente, o entendimento que naturalmente se tem dos textos, ou se força a tradução em cima de Tt. 2.13 para dar margem ao dogma da trindade.

Neste ponto, vale a pena abrir um espaço para comentar uma regra elaborada por Granville Sharp, criada sobre substantivos anartros, justamente pela referência que muitos fazem de Tt. 2.13 com a invocação dessa regra, e que termina por revelar a parcialidade de certos gramáticos e como estes influenciam muitos estudantes da Bíblia.

Granville Sharp (1735 a 1813) foi um filantropo inglês, defensor da abolição da escravatura, com inúmeros trabalhos escritos tanto cristãos como relacionados aos direitos humanos. Um homem notável. Sua dedicação e fé o levou a estudar o grego procurando provas da deidade de Jesus. Era um teólogo não acadêmico. Ao se deparar com Tt. 2.13, ele percebeu que na redação do versículo poderia haver um padrão de escrita que talvez pudesse ser usado como elemento comprobatório de que os antigos cristãos entendessem Jesus como sendo o próprio Deus. O grande problema de Sharp foi o de considerar as milenares gramáticas da língua grega vencidas e insuficientes para satisfazer o desejo de ver na Bíblia alguma prova incontestável da deidade de Jesus, então, resolveu, ele mesmo, criar regras gramaticais. O resultado foi a produção de seis enunciados, envolvendo o estudo dos substantivos articulados, conhecidos como o cânon de Sharp. Embora as ideias de Sharp a esse respeito já sejam conhecidas a uns 200 anos, suas conclusões não tem sido usadas para a produção de novas traduções da Bíblia; atribui-se isso a influência de Georg Benedict Winer2 que discordava de suas compreensões e foi gramático influente. Mas, na verdade, como veremos, Granville Sharp produziu um terreno de areias fofas e o chamaram de regra, e, foi isso percebido por inúmeros estudiosos do assunto que veem no enunciado do filantropo algumas dificuldades que inviabilizam sua aplicação sem riscos de desvio exegético, mesmo que favorecendo a ortodoxia doutrinária, dentre eles se pode notar Calvin Winstanley que, além de contemporâneo de Sharp, também era ortodoxo trintário e, no entanto, refutou a requerida infalibilidade de regra sugerindo inclusive seu abandono para fins de prova da deidade de Cristo. Ele reconhecia que uma regra de gramática que era verdade, não dentro da língua grega ou em toda Bíblia, mas somente no Novo Testamento, e ainda assim somente em determinadas circunstâncias, era demasiado frágil para se tentar provar a deidade de Cristo.

Alguns atanasianos invocam a primeira regra objetivando legitimar a crença trinitária, informando que é uma regra básica usada por estudantes iniciais da língua grega. A regra diz que: “Quando a copulativa KAI liga dois substantivos do mesmo caso, se o artigo HO, ou qualquer dos seus casos, precede o primeiro dos referidos substantivos ou particípios, e não é repetido antes do segundo substantivo ou particípio, diz respeito este último sempre a mesma pessoa que está expressa ou descrita pelo primeiro substantivo ou particípio.: isto é, denota além disso a descrição da primeira pessoa que recebeu a especificação”3. Ela parece se encaixar como uma luva na construção gramatical de Tt. 2.13, mas você perceberá que na verdade foi criada praticamente olhando somente para Tt. 2.13, ou a alguma referencia parecida e desprezou-se o restante do NT, de modo que a regra está mais para um artifício gramatical.

Observe Tt. 2.13 “τοῦ μεγάλου Θεοῦ καὶ σωτῆρος ἡμῶν Ἰησοῦ Χριστοῦ” (TOU megalou Theou KAI sôtêros hemôn Iêsou Christou).

Estão ai presentes os pressupostos; o artigo “τοῦ” (TOU), que é a forma genitiva do “HO”, e a copulativa “καὶ” (KAI) separando substantivos no mesmo caso grego. Por essa regra será que teríamos inquestionavelmente a tradução: “do nosso grande Deus e Salvador Jesus Cristo”, dando a ideia de se referir a mesma pessoa ou mesmo ser? Será que essa regra é realmente válida se considerarmos os textos bíblicos?

O fato é que a exegese é um campo difícil, principalmente quando falamos em termos gramaticais gregos. Visto que os escritores do N.T eram judeus não podemos cobrar deles erudição na escrita, mas o uso dos elementos básicos de comunicação, pois não era sua língua pátria ou ainda considerar que às vezes o autor ditava e a escrita ficava a cargo de um amanuense. O enunciado de Sharp é chamado de regra, mas penso que, REGRA significa algo que sempre acontece quando há condições semelhantes, infelizmente não é o caso do enunciado do gramático, a não ser que se descarte propositalmente todas as exceções. O texto trazido em nossas Bíblias é apenas uma possibilidade de tradução, porém não por causa da regra, mas por causa do texto associado a opção do tradutor. Será mostrado, mais a frente, que não há base sólida na Regra de Sharp.

Como estamos falando de tradução e exegese, precisamos considerar o modo de como o escritor sagrado, no caso Paulo, apresenta Deus e Jesus, e ele o faz em abundantes passagens com distinção. Além disso o próprio Paulo usa a partícula KAI entre substantivos, nas condições abrangidas pela Regra, sem que esses substantivos sejam exatamente a mesma coisa ou pessoa, e, curiosamente tanto os tradutores quanto os gramáticos, além de não tentarem justificar ou desfazer, entendem que, de fato, não são a mesma coisa ou pessoa, pois na realidade não são, e, o que é melhor, essa identificação está ao alcance de todos nós, em especial ao estudante da Bíblia mais atento, por exemplo: Ef. 2.20: “Edificados sobre o fundamento dos apóstolos e dos profetas” – “ἐπὶ τῷ θεμελίῳ τῶν ἀποστόλων καὶ προφητῶν” (epi tô[i] Themeliô[i] TON apostolon KAI profêtôn), naturalmente não se pode admitir iguais apóstolos e profetas, pois muitos sequer viveram na mesma época. E o próprio NT diz que o Senhor deu: “… outros para pastores e mestres” (τοὺς δὲ ποιμένας καὶ διδασκάλους) – Ef. 4.11, mostrando que são distintos.

At. 17.18 “τῶν Ἐπικουρείων καὶ Στοϊκῶν” (TÔN Epicureiôn KAI Stoikôn) Evidentemente Estóicos e Epicureus não eram os mesmos filosófos.

II Co. 10.1 “τῆς πραΰτητος καὶ ἐπιεικείας τοῦ Χριστοῦ” (TÊS prautêtos KAI epieikeías tou Chistou), Paulo, nitidamente, não pretendeu dizer que mansidão e benignidade fossem uma só qualidade de Cristo.

I Ts. 2.12 “εἰς τὴν ἑαυτοῦ βασιλείαν καὶ δόξαν” (heis TEN heautou basileian KAI doxan), também reino e glória não são coisas iguais.

Ef. 3.18 “τί τὸ πλάτος καὶ μῆκος καὶ βάθος καὶ ὕψος” (ti TO platos KAI mêkos KAI bathos KAI hypsos) não há dúvidas que há distinção entre “largura”, “comprimento”, “altura” e “profundidade”.

Não é somente em Paulo que vemos não ser válida a regra de Sharp, pois nos evangelho também encontramos situações em que a “regra” não se aplica. Mt. 21.12 “ἐξέβαλεν πάντας τοὺς πωλοῦντας καὶ ἀγοράζοντας ἐν τῷ ἱερῷ” (ekebalen pantas tous pôlountas kai agorazontas en tô hierô), certamente “vender” e “comprar” não são a mesma coisa.

Entender Tito 2.13, como se estivesse falando da mesma pessoa (Essência, divindade, etc.) só se admite quando já se crê de antemão nisso, não que o texto grego, por si só, o indique, caso contrário, nos exemplos citados; “apóstolo” e “profeta” seriam a mesma coisa, de igual modo “reino” e “glória”, também “largura”, “comprimento”, “altura” e “profundidade”, dentre outros, posto que a regra de Sharp “determina” isso.

A regra elaborada pelo estudioso, como se vê, não dá apenas uma segurança aparente ao estudante da língua grega, e, embora seja trinitariano termina, também, por contrapor um outro versículo muito usado pelos defensores dessa doutrina que é Jo. 20.28, pois lá lemos, em grego: “ὁ κύριός μου καὶ ὁ θεός μου”, a frase muito lida mas pouco estuda: “Senhor meu e Deus meu” é o oposto do determinado pela regra de Sharp, ou seja, por sua regra este não se refere ao mesmo ente. Essa ideia está ratificada em sua sexta regra: “E, como a inserção da copulativa KAI entre substantivos do mesmo caso, sem artigos, indica que o segundo substantivo exprime uma outra pessoa, coisa, ou qualidade, a partir do substantivo anterior, assim, de igual modo, o mesmo efeito copulativo quando cada um dos substantivos é precedido de artigos.”, e ele cita como apoio a essa regra as ocorrência contidas em Jo. 1.17, Jo. 2.22, Jo. 11.44, Cl. 2.2, II Tm. 1.5, I Pd. 4.11. De modo que, tanto pela primeira regra de Granville Sharp, quanto pela sexta regra, Jo. 20.28 não se refere a mesma pessoa ou ser, curiosamente se coloca esse verso de João com exceção às regras que definem o entendimento sobre Tt. 2.13. Mas, só para, humildemente, mostrar que ao menos essas duas regras de Sharp não servem nem para uma coisa, nem para outra, seria oportuno lermos Ap. 2.26 “Ao que vencer, e ao que guardar as minhas obras até o fim, eu lhe darei autoridade sobre as nações” que apresenta “καὶ ὁ νικῶν καὶ ὁ τηρῶν” (KAI HO nikôn KAI HO têrôn), não como pessoas diferentes, mas o mesmo indivíduo. Todos individualmente têm que “Vencer” e “Guardar”. O mesmo precisará ser VENCEDOR e GUARDADOR.

Ao que parece Sharp estava procurando um meio de legitimar sua própria crença preexistente, e criou regras que, olhando para os versículos citados, parecem não ter apoio pleno das escrituras. Assim, sugere-se ao leitor que antes de tomar como base as regras desse ilustre gramático, se detenha, como sempre tenho insistido e mostrado, ao contexto amplo das escrituras para poder firmar seu entendimento.

Recentemente Sharp ganhou um defensor de peso, o Dr. James R. White. Ele escreveu um artigo4 defendendo a “infalibilidade” da regra de Sharp, embora se saiba que há gramáticos e estudiosos trinitaristas e unitaristas como Calvin Winstaley, representante do primeiro grupo, e Andrews Norton, representante do segundo, que não concordam com infalibilidade ou mesmo validade da dita regra.

O próprio James White registra que além de não ser aceita por todos os peritos em grego há, ainda, gramáticos que mesmo concordando com ele, tem definições diferentes de sua regra. A esse respeito respeito ele diz: “… para minha surpresa, eu descobri que nenhuma destas definições, mesmo a de Dana e Mantey, refletem com exatidão o que Granville Sharp realmente disse ou quis dizer5, ou seja, a regra de Sharp é tão polêmica e sujeita a nuances que mesmo os gramáticos não captaram, conforme afirma James White, com exatidão a ideia que se atribui ao estudioso.

Segundo White, Sharp determinou que “Quando um kai copulativo conecta dois nomes do mesmo caso [ou seja nomes (tanto substantivo ou adjetivo ou particípio) de descrição pessoal, a respeito de ofício, dignidade, afinidade ou conexão e atributos, propriedades ou qualidades, bom ou mal,] se o artigo ho, ou qualquer um de seus casos, preceder o primeiro dos distos nomes ou particípios, e não for repetido antes do segundo nome ou particípio, o último sempre se relaciona à mesma pessoa que é expressa ou descrita pelo primeiro nome ou particípio: isto é, ele denota uma maior descrição da primeira pessoa nomeada” (site idem). Obs.: Aqui não se sabe se os colchetes e parênteses, também são de Graville Sharp. A redação indicada por White, no que difira da de Dana & Mantey, não é suficiente para mudar o argumento contrário à regra.

Curiosamente White diz que “essa regra não possui exceção”, mas não é isso que os próprios textos gregos, como vimos, mostraram. Na verdade, ele mesmo se encarrega de informar as restrições da dita “regra”, pois avisa de antemão que em uma frase toda de acordo com a “regra” se aparecerem nomes próprios, então, ela não se aplica. Isso é uma típica exceção à definição “Quando um kai copulativo conecta dois nomes do mesmo caso”. Mas, não se aplica por uma questão óbvia; ela seria uma proposta esdrúxula em determinadas ocorrências! Veja um exemplo prático: Se disséssemos levando em conta as informações contidas no N.T, em grego: “O Paulo e negador Pedro”. A palavra “negador” está indubitavelmente associada a Pedro e jamais inferiríamos que Paulo e Pedro fossem um único “negador”. A questão é clara quando há nomes próprios, e, clara também é a impossibilidade da regra, por isso, de cara, o defensor dela exclui a exceção para começar a construir uma regra “sem” exceções. O problema é que se disséssemos “O Deus e Salvador Jesus”, construção idêntica, Sharp teria pretendido reconhecer ai uma identidade: Jesus como sendo Deus e Salvador, mas nesse caso Pedro também seria Paulo, que também seria “negador”. Pela flagrante fragilidade da regra é que se exclui os nomes próprios, embora que o próprio nome JESUS, em Tt. 2.13, é um nome próprio, mas nesse caso ele seria considerado fora do escopo da regra, embora pertencente a frase em que a regra seria aplicada. Outra necessidade é a de considerarmos “Deus” ali como título e não como substituto indicativo do nome do Pai, como se vê, por exemplo, em Jo. 8.42 “Se Deus (Iahweh) fosse o vosso Pai”. Mas não para por ai. Outras exceções precisam ser elencadas e desconsideradas para que os ditos de Sharp, nos moldes propostos por White, possam ter “validade”.

Outra construção de exceção à regra é quando houver plurais, ou seja, mesmo que todos os requisitos ditos pela “regra” estejam presentes, se um dos nomes ou ambos forem plurais ela não se aplica, e, não só plurais gramaticais, mas plurais semânticos também, ou seja, mesmo que tenhamos palavras no singular, se elas forem semanticamente plurais a regra não se aplica. E por que não se aplicam, porque denunciaria, mais uma vez, a fragilidade da regra, pois, de cara, um plural e um singular tornará explícito o não atendimento à pretensão de Sharp. Se inclui nesse grupo também os numerais.

Mas, ainda não para por ai. Se forem objetos ou coisas, mesmo que estejam exatamente em uma construção grega abrangida pela regra, James White diz que ela também não se aplica, e ele diz isso porque de igual modo revelaria falha de aplicação.

Denuncia-se, então, a ineficácia da regra, para que ela seja considerada de alguma foram válida, ainda que nos exatos moldes requeridos por Sharp, pois despreza-se sua ocorrência quando há nomes próprios, quando há plurais na construção (inclusive semânticos e numerais), quando há objetos, coisas envolvidas ou substantivos abstratos, como, por exemplo: amor, ódio, etc. Quais as razões dessas restrições? Em termos gramaticais nenhuma, elas foram excluídas, simplesmente pelo fato de, em sendo consideradas, desterra completamente a intenção de se ver em em Tt. 2.13 a afirmação de que Jesus seja o Grande Deus. Excluindo-se todas essas exceções, então, James R. White diz: “Essa regra não tem exceções”(?). Desse jeito não poderia ter mesmo! Se simplesmente desconsiderarmos todas as exceções de todas as regras, teremos todas as regras sem exceção. Certo professor de matemática que tive na infância, brincalhão, dizia para divertir a turma: “Fulana? Ah, fulana é uma pessoa maravilhosa. Tirando todos os defeitos, ela é uma pessoa sem defeitos”. Aplicando isso à regra de Sharp: “Tirando todas as exceções ela é uma regra sem exceções”. Além do mais quem excluiu essas exceções foi Sharp mesmo ou White tentando solidificar sua crença?

White reivindica também o fato do verso 14 apontar para Jesus como uma suposta prova de que o verso 13 indica apenas Jesus, mas também isso não é verdadeiro se olharmos para outras passagens bíblicas como, por exemplo, Gl. 1.3,4: “Graça e paz da parte de Deus Pai e do nosso Senhor Jesus Cristo, (4) o qual se deu a si mesmo por nossos pecados,…”. Perceba que o verso 4 se relaciona apenas com Jesus, embora no verso 3 fala-se de Deus e de Jesus, sem misturar ambos, pois não foi o Pai que morreu por nossos pecados.

A “regra” de Sharp é de tal forma precária, que depois de enunciá-la não poderemos aplicá-la a qualquer texto grego que possivelmente seria abrangido por ela, sem antes termos que selecioná-los, escolher os textos, excluindo todos aqueles onde ela se mostra falha, chamando-os de restrições, para podermos dizer que ela se aplica em determinado lugar. Na verdade, ela nem deveria ser chamada de regra de gramática, pois é igualmente deficiente se tentarmos aplicá-la a textos gregos fora do Novo Testamento, e não se pode fundamentar um regra de gramática de uma língua em apenas partes selecionadas de determinada obra, no caso o Novo Testamento, visto que ele é apenas uma pequena parte, independentemente do grau de importância, da multidão de obras escritas em Koiné6 no período em que esse dialeto esteve em uso no mundo grego.

Excluindo-se as construções bíblicas que denunciam a inexistência ou mesmo ineficácia da regra de Sharp, o que restou foram os pontos onde se pode ter ou não alguma ambiguidade. É fazendo uso dessa possibilidade que Sharp “determina”, em Tt. 2.13, é a mesma pessoa. No entanto, ao desconsiderar a contextualização, não somente local, mas a investigação ampla de como o escritor sagrado percebia Pai e Filho, veremos que a sugestão de Sharp produz leituras estranhas ao que é ensinado na Bíblia de forma abrangente e consolidada. Há, por exemplo, uma reivindicação de Ef. 5.5 como sendo ocorrência da regra: “Porque bem sabeis isto: que nenhum devasso, ou impuro, ou avarento, o qual é idólatra, tem herança no reino de Cristo e de Deus.” Aqui a Almeida Corrigida Fiel verteu similarmente a King James Version: “For this ye know, that no whoremonger, nor unclean person, nor covetous man, who is an idolater, hath any inheritance in the kingdom of Christ and of God.” Em ambas as traduções de original grego, “οὐκ ἔχει κληρονομίαν ἐν τῇ βασιλείᾳ τοῦ Χριστοῦ καὶ θεοῦ”, se tem o entendimento direto, comum e natural do que o verso quer dizer: “… não tem herança no reino de Cristo e de Deus”, dois entes distintos e separados, Pai e Filho, mas, segundo a regra em estudo deveríamos entender “… no reino de Cristo, [nosso] Deus.” ou “… no reino de Cristo e Deus” (entendido como um só ente), ou seja, ele estaria falando de Jesus duas vezes além de excluir a comum identificação do Pai no reino, quando isso é abundantemente atestado nas escrituras em pelo menos 70 (setenta) ocorrências da expressão “Reino de Deus”, ao passo que “Reino de Cristo”, temos uma única, o próprio Ef. 5.5. Jesus Cristo, nas Escrituras, não é identificado como o Deus que reina, mas como o Rei constituído por Deus e que na consumação de todas as coisas entregará o reino a Deus, seu Pai. I Co. 15.24.

A chamada regra de Sharp tem encolhido seu campo de abrangência com o passar dos anos, para que alguns ainda a possam chamar de regra. D.A Carlson, acredita que apenas “esta versão ‘mais branda’ da regra de Sharpe realmente se sustenta”.

Dentro da Bíblia mesmo, em Pv. 24.21 temos, na septuaginta “φοβοῦ τὸν θεόν υἱέ καὶ βασιλέα … ” (…teme ao Senhor, filho, e ao rei), de modo que ainda que se busque atender todos os requisitos pelo Dr. James R. White para tornar a regra de Sharp plenamente válida, ainda assim, este verso de Provérbios mostra que ela é falha.

Agora, além de todos esses fatos, considere a questão da razoabilidade. Todos sabem que uma das coisas que difere o grego koiné do clássico é a quebra de regras, a falta de um padrão estrito. Até mesmo no clássico há quebra de regras e no koiné isso é muito mais acentuado. Era a língua das massas. A proposta de Sharp, ainda que deficiente, mesmo nos moldes de White, revelaria que os escritores do Novo Testamento não teriam se preocupado em ensinar aberta e explicitamente o dogma trinitário na época em que viveram, eles teriam achado mais apropriado ensinar o dogma fazendo uso de uma forma meio codificada de escrita, e ainda assim, sabe-se lá porque razão, tal expediente teria ficado oculto esse tempo todo, quase vinte séculos, e somente descoberta depois de séculos e séculos de plena atividade tanto de história literária quanto de gramática grega. Embora não haja qualquer evidência em nenhum documento gramatical ou em qualquer fonte antiga do ensino da língua grega que essa regra tenha existido ou mesmo que os antigos escrevessem tendo por base esse paradigma, admitamos, na remotíssima hipótese, que os escritores do Novo Testamento e somente eles em todo mundo de fala grega do primeiro século tenham usado aquilo que Sharp diz ter existido, então, os apóstolos teriam preferido uma regra deficitária, polêmica e contestável, cheia de exceções e geradora de mais debates do que produção de resultado, para que alguém depois de excluir as exceções a chamasse de regra sem exceção, e, somente depois disso se afirmasse com ela que o grego ensina indubitavelmente a trindade, ou seja, quem ensinaria a trindade dentro da Bíblia não é explicitamente as Escrituras, mas uma “regra” oculta por quase 20 séculos que teria passado despercebida por todos os peritos que debateram a questão cristológica em seu auge, essa que seria uma ferramenta óbvia para provar a deidade de Cristo. Isso equivale dizer que o próprio Deus teria se negado a se identificar como dois ou três para, então, por meio de um suposta regra oculta aos olhos dos gramáticos e dos debates teológicos em milênios de história da língua grega, passar, agora, a ensinar a seus filhos, incluídos ai as pessoas de saber simples, que ele na verdade é, pelo menos, dois e no máximo três (?), se afastando da simplicidade que há em Cristo. II Co. 11.3.

A quem reivindique a ocorrência da palavra “ἐπιφάνεια” (epifaneia) em Tt. 2.13 como aquela que sempre aponta para Jesus e com isso pretendem considerar o ser de “Deus” e o ser de “Jesus” nesse versículo como sendo o mesmo, mas é de se observar que o verso de Tito, em estudo, não diz que Deus irá aparecer, nem fala da epifaneia de Deus, fala, na verdade, do “aparecimento da glória do grande Deus”, e, nesse sentido Jesus mesmo diz em Jo. 8.54 ”…quem me glorifica é meu Pai, o qual dizeis que é vosso Deus” e, ainda, Mt. 16.27 que mais explicitamente diz: “Porque o Filho do homem virá na glória de seu Pai, com os seus anjos; e então dará a cada um segundo as suas obras”, bem como lucas Lc. 9.26 “…o Filho do Homem, quando vier na sua glória, e na do Pai e dos santos anjos.”, Jesus Cristo virá na glória de Deus, seu Pai. Não é Deus que virá pessoalmente com ele.

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1 Sem artigo

2 Georg Benedict Winer – Filho de um padeiro de Viena, Austria, que tornou-se PhD em Teologia pela Universidade de Rostock. É escritor de vários livros na área e autor de A Grammar of the idiom of the New Testament (Gramática do Idioma do Novo Testamento), e Hebrew and Chaldee lexicon to the Old Testament Scriptures (Léxico Hebraico e Caldeu para os Livros do Antigo Testamento) produzido originalmente em latim.

3 Apud Dana & Mantey in A Manual of The Greek New Testament, pág. 147

4 http://www.e-cristianismo.com.br/pt/teologia/apologetica/129-granville-sharp

5 Idem

6 Koiné significa comum ou popular, assim era conhecido o dialeto grego comumente falado na época de Jesus.

Cl. 2.8,9

Cl. 2.8.9, “τὸ πλήρωμα τῆς θεότητος” (plenitude da divindade), é lido em conjunto com Cl. 1.19 “Porque foi do agrado do Pai que toda a plenitude nele habitasse,” então, inclusive a plenitude da divindade que Jesus hoje possui é provida pelo Pai. E, nós também seremos participantes da divindade, II Pe. 1.4 διὰ τούτων γένησθε θείαςparticipantes da natureza divina”, a mesma que é descrita em Cl.2.9 e Rm. 1.20 αὐτοῦ δύναμις καὶ θειότης” “como a sua divindade”. Ainda podemos ler Ef. 3.19 diz “ἰνα πληρωθῆτε εἰς πᾶν τὸ πλήρωμα τοῦ Θεοῦ” (hina plêrôthête eis pan to plôrôma tou Theou) que se traduz “afim de que sejais repletos em toda plenitude de Deus”. Logo, se constata que ainda que sejamos participantes da natureza divina e cheios da plenitude de Deus ou plenitude da divindade, nenhuma, nem outra coisa é condição de co-igualdade com Deus.

II Co. 5.18,19

II Co 5.18,19 E tudo isso provém de Deus, que nos reconciliou consigo mesmo por Jesus Cristo e nos deu o ministério da reconciliação, isto é, Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo …” Aqui não há necessidade de esclarecimento pois o verso já é claro! “Deus estava em Cristo”, não “Deus era o Cristo”. Nós também estamos nEle I Jo. 2.5, e o próprio Jesus diz em Jo. 14.20 “Naquele dia conhecereis que estou em meu Pai, e vós em mim, e eu em vós”.

Fp. 2.5-6

Fp. 2.5-6 De sorte que haja em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus, que, sendo em forma de Deus, não teve por usurpação ser igual a Deus.” É interessante observarmos que a expressão não diz “sendo o próprio Deus”, mas “sendo em forma de Deus” ou “subsistindo em forma de Deus”, e isto decorre da tradução de “μορφῇ Θεοῦ ὑπάρχων” (morphe Theou hypachôn) onde se percebe o verbo “hyparchô” (começar, nascer1, ser o iniciador, dar início), que permite uma tradução literal “iniciando (ou nascendo) em forma de Deus” ou “iniciando (ou nascendo) em forma divina”. A Bíblia de Jerusalém preferiu verter assim Fp. 2.6: “Ele tinha a condição divina, e não considerou o ser igual a Deus como algo a que se apegar ciosamente”. Logo, subsistindo sim, ou seja, consciente de sua condição divina, mas, ele mesmo não se apegou a isso para se fazer igual a Deus, antes, ao invés de querer se elevar, fazendo-se equivalente, esvaziou-se. E isso parece se confirmar quando lemos que, no original, a palavra “apegar ciosamente” ou “usurpar” é a mesma palavra para “roubar”, “raptar”, “apossar-se”, “tomar a força” e etc. (ἁρπαγμὸν do verbo ἁρπάζω). Que sentido teria o Filho querer apoderar-se da condição de Deus se ele já o fosse? Assim, a expressão “ser igual a Deus”, considerando a expressão anterior que diz “sendo em forma Deus” e não “sendo o próprio Deus” é entendida naturalmente como, por exemplo, “sendo dirigente de congregação não teve por usurpação ser igual ao Pastor”, ou seja, não é afirmação de identidade, pelo contrário, é uma condição que Ele, sendo divino, não desejou se “apoderar” ou mesmo “roubar” a condição de Deus, seu Pai, e, nesse sentido, a Bíblia que melhor traduziu isso é a da Confederação Nacional dos Bispos do Brasil – CNBB “Ele, existindo em forma divina, não considerou como presa a agarrar o ser igual a Deus.” (Subscrevem esse entendimento as editoras trinitarianas: Ave-Maria, Vozes, Salesiana, Paulus, Santuário, Paulinas e Loyola, destaque-se que todas são trinitárias).

O paralelismo sugerido, entre “forma de Deus” v.6 e “forma de servo” (literalmente “aparência de ESCRAVO”) v7 de Fp. 2, não indica uma situação de inerência, pois Jesus, não pode ser classificado como um Deus-Escravo ou Deus-Servo, pois se assim fosse em nada diferiria da hierarquia de deuses do panteão greco-romano, nem dos sabores gnósticos combatidos no passado. Alguns alegam que se Jesus verdadeiramente foi servo, então, verdadeiramente é Deus, mas esquecem de continuar a reflexão e concluir que a forma de servo não reflete uma inerência do ser de Nosso Senhor, mas um estado que ele passou a ter com vistas o processo da salvação, de igual modo a forma de Deus, ele o teve com vistas o processo da Criação.

Vale ainda destacar que “forma” aqui é μορφῇ (morphê[i]), palavra que está no dativo grego e significa também: aparência, molde, semblante. Alguns pensadores trinitários buscam um sentido de “aparência exterior de uma realidade interior”, mas essa conceituação não é confirmada pelos usos dessa palavra dentro da Bíblia. Μορφή aparece outra vez no NT em Marcos 16.12 “E depois manifestou-se noutra forma a dois deles”, perceba que “forma” foi usado para designar não a essência de Jesus, mas a aparência dele naquele momento vista pelos discípulos, sua forma perceptível. Palavras construídas com morphê surgem ainda em II Tm. 5.3 “…tendo aparência de piedade…”. Como se percebe ela não é usada para atribuir igualdade ou algo inerente, mas informar a aparência. Ainda que alguns léxicos tentem falar de essência não é este o uso comum da palavra e não é este o uso que a Bíblia faz dela. Na Septuaginta, por exemplo, temos esta mesma palavra em Jz. 8.18 “…cada um parecia filho de rei.” (ὡς εἶδος μορφὴ υἱῶν βασιλέων) que pode ser lido “…cada um tinha a forma de filho de rei”. Vale lembrar que naquela época não havia rei em Israel, o que mostra ser, de fato, constatação de aparência. Também em Jó.4.16 vemos μορφή: “…não pude discernir sua aparência…”, bem como em Dn. 5.6 “Mudou-se, então, o semblante do rei…”, também em Dn. 3.19, Dn. 5.9,10; 7.28, Is. 44.13 diz: “O carpinteiro estende a régua … finalmente dá-lhe forma à semelhança dum homem…”. Perceba que a palavra reflete, em todas as ocorrências bíblicas, apenas a aparência e não a inerência daquilo do qual se diz ser forma. Nesse último verso fica claríssimo isso, pois seria difícil fazer alguém crer que ao falar em “forma” o escritor sagrado estivesse dizendo que aquela estátua esculpida fosse “aparência exterior de uma realidade interior” do algum homem.

Se analisarmos o conjunto do que foi escrito perceberemos uma expressão importante cuja compreensão torna ainda mais clara a posição do Filho, não só pretérita mas, também, atual. No verso de Fl. 2.9 se diz: “Por isso, também Deus o exaltou soberanamente, e lhe deu um nome que é sobre todo o nome”. Aqui encontramos expressão “Por isso, também Deus o exaltou”. Perceba que a exaltação que Deus lhe promoveu, não é uma mera restituição de glória, aquela que ele tinha antes da fundação do mundo, pois restituir não é exaltar, mas deu-lhe um nova posição, daí se diz: “Para que ao nome de Jesus se dobre todo o joelho dos que estão nos céus, e na terra, e debaixo da terra, e toda a língua confesse que Jesus Cristo é o Senhor, para glória de Deus Pai.” Então, porque Jesus se humilhou, esvaziando-se de sua condição divina, Deus, seu Pai, o colocou em uma posição acima de todo nome, cujo dobrar dos joelhos seria, agora, não somente perante o próprio Deus, mas, também ante o seu Filho, constituído Senhor, e tudo seria para Glória de Deus Pai.

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1 Apud Isidóro Pereira, S. J. – Dicionário Grego-Português e Português-Grego, 5ª Edição

Rm. 9.5

Rm. 9.5: “de quem são os patriarcas; e de quem descende o Cristo segundo a carne, o qual é sobre todas as coisas, Deus bendito eternamente. Amém”. Aqui, mais uma vez, é interessante observar que a visão de um tradutor interfere de forma decisiva na compreensão de milhares de leitores. Robert H. Mounce comentando sobre pontuação e silabificação nos textos grego relembra que nos manuscritos antigos, os unciais, não haviam pontuação ou divisão de versículos e “esse fato criou algumas dificuldades para os estudiosos contemporâneos, visto que o modo de um versículo ser pontuado pode ter efeito importante sobre a sua interpretação. Um dos exemplos notáveis disso é Romanos 9.5. Se uma pausa maior for feita depois da κατὰ σάρκα (lit. “segundo a carne”), a parte final do versículo seria uma declaração a respeito de Deus Pai (A NEB traz: “Que Deus, supremo sobre todos, seja abençoado para sempre! Amem”). No entanto, em se fazendo uma pausa menor naquela posição, as palavra finais da frase falariam de Cristo. A NVI diz: “[…] de Cristo, que é Deus acima de tudo, bendito para sempre! Amém”1 e conclui “O modo de a tradução lidar com um versículo ambíguo tal como esse revela as tendências teológicas do tradutor2. Imagine, então, a quantidade de traduções com tendências trinitárias que há no mundo influenciando o entendimento de milhões de pessoas. Mas, atentemos bem para a expressão “Deus bendito eternamente. Amém” dentro de seu contexto e percebamos que ela é uma glorificação que fecha um conjunto de textos inter-relacionados. Paulo poderia ter dito “Que são israelitas, dos quais é a adoção de filhos (Deus bendito eternamente), e a glória (Deus bendito eternamente), e as alianças, e a lei (Deus bendito eternamente), e o culto (Deus bendito eternamente), e as promessas (Deus bendito eternamente);” Deus seria, e é bendito eternamente por todas essas coisas e pelas coisas do verso seguinte. Paulo mostra um conjunto de fatos onde Cristo, que veio segundo a carne, é um componente desse conjunto e listado na parte final. A expressão “segundo a carne” encerra a ideia dando sentido completo e pleno a frase em si mesma. O Apóstolo termina com uma Glorificação a Deus: “Deus bendito eternamente. Amém”. Expressão semelhante Paulo usou em II Co. 11.31 “O Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que é bendito eternamente, …”. Ou seja, o final não é dedução da frase anterior, mas uma louvação a Deus pelas coisas elencadas desde os versos antecedentes e o próprio “Amém” no final do versículo mostra se tratar de uma frase doxológica. Alonso Schökel, católico romano, assim verte os versos: “São israelitas, adotados como filhos de Deus, têm sua presença, as alianças, as leis, o culto, as promessas, os patriarcas; de sua linhagem segunda a carne descende o Messias. Seja para sempre bendito o Deus que está acima de Tudo. Amém

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1 Mounce, William D. In Fundamentos do Grego Biblico (Livro de Gramática) 1º Edição – 2009, pág. 17

2 Idem

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