Jo. 8.58 diz: “Respondeu-lhes Jesus: Em verdade, em verdade vos digo que antes que Abraão existisse, eu sou.” O verbo grego εἰμί (eimi)contido no final desse verso, pode ser traduzido por “SOU”, “ESTOU”, “EXISTO” e sentidos similares, daí precisamos verificar qual desses verbos em português, melhor se aplica ao caso.

Ora, no verso anterior os judeus perguntaram “ainda não tens cinqüenta anos, e viste Abraão?”, isso é uma pergunta temporal, de indagação sobre preexistência. A partícula πρὶν (antes), usada por Jesus para responder aos judeus, introduz uma cláusula temporal, e, foi seguida pelo verbo γίνομαι, verbo afim ao verbo εἰμί, que só não foi usado também porque não possui a forma para o aoristo. Logo, a comparação clara do contexto das palavras de Cristo indica a intenção do Senhor Jesus em declarar-se anterior a Abraão e isto já estava delineado no verso 38 do mesmo capítulo “Eu falo do que vi junto de meu Pai, …“. Assim, o verbo em português que melhor traduz o contexto é o verbo “EXISTIR”. Das raras versões, em português, que preferiram concordar com o contexto encontramos a Bíblia do Peregrino: “Asseguro-vos: antes que Abraão existisse, eu existo.”(grifei), não há contraste entre o verbo γίνομαι e εἰμί nessa passagem.

Para preferir “eu sou”, o tradutor, precisará rebaixar o contexto ao segundo plano, diminuir a intensidade da cláusula temporal, desvinculando, por completo, o verbo εἰμί dela, fazendo uso da sua própria crença de que Jesus é o “EU SOU” de Ex. 3.14 (expressão que está se tornando um termo técnico), quando o contexto daquela passagem de Êxodo não se relaciona com a de João. Alguns Tradutores/Editores chegaram ao exagero de usarem o “EU SOU” com letras maiúsculas, para fazer lembrar a expressão de Êxodo, foi o caso da Bíblia de Jerusalém e da Almeida Revista e Atualizada, ao passo que Almeida Revista e Corrigida, usou todas as letras em minúsculas. No hebraico de Êxodo, nem no grego da Septuaginta e do Novo Testamento não havia diferenciação de maiúscula e minúscula.

Fatalmente a escolha do verbo para o português, ou outra língua, dependerá da fé e do ponto de vista do tradutor. O normal seria todas as traduções para o português trazerem a tradução “EU EXISTO”.

Não estou afirmando que a tradução “eu sou” não é correta e que “eu existo” seja a correta, ambas estão corretas porque o verbo εἰμί permite as duas; apenas acho que se Jesus quisesse fazer alusão ao “ὁ ὤν” (ho On) de Ex. 3.14, teria usado a idêntica construção, e não precisaria tomar por base a existência de Abraão.

A propósito, vale dizer que Deus em Ex. 3.14 não disse ser um certo “Ego Eimi” (eu sou), ele disse ser “Aquele que é” ( ho On), a ideia foi dizer “Eu sou AQUELE QUE É’”, tanto é que quando Moisés perguntou o que diria quando fosse indagado sobre quem o enviou, Deus manda Moisés responder “HO ON (AQUELE QUE É) me enviou a vós”, Ele não disse “’Ego Eimi’ me enviou a vós”. O problema é que há traduções que verteram HO ON como “AQUELE QUE É’” na primeira ocorrência e o mesmo HO ON como “Eu Sou” na ocorrência seguinte. A expressão HO ON não está em Jo. 8.58. Todos os livros e comentários que você já leu, digo com simplicidade e sem medo de errar, estão equivocados quando tentam comparar Jo. 8.58 com Ex. 3.14 dizendo que Jesus é o EU SOU do Antigo Testamento, porque simplesmente as construções são diferentes. Se considerarmos o hebraico, que é a língua em que originalmente foi escrito o livro de Êxodo ai é que se descarta mesmo, porque a construção verbal do hebraico, daquela passagem, é causativa e em João é, seguramente, grego no presente do indicativo ativo. Se for os dois em grego, um é particípio e o outro presente do indicativo ativo.

Vamos, para ficar didaticamente mais visível, dividir o verso de Êxodo em duas partes: A + B.

A) “καὶ (e) εἶπεν (disse) ὁ θεὸς (Deus) πρὸς (a) μωυσῆν (Moisés) ἐγώ (eu) εἰμι (sou) ὁ ὤν (AQUELE QUE É).

Pergunto o seguinte: Deus em “A” disse ser “ego eimi” ou Deus disse ser “HO ON”?

B) καὶ (e/também) εἶπεν (disse:) οὕτως (assim) ἐρεῖς (dirás) τοῖς (aos) υἱοῖς (filhos [de]) ισραηλ (Israel) ὁ ὢν(AQUELE QUE É [aqui, desuniformemente as Bíblias vertem para EU SOU, donde decorre a associação com Jo.8.58]) ἀπέσταλκέν με (enviou-me) πρὸς (a) ὑμᾶς (vós).

A pergunta que faço agora é a seguinte: Moisés identificou Deus, em “B”, como “ego eimi” ou como “HO ON”?

Onde está a expressão “ego eimi” na parte “B” para os tradutores verterem “EU SOU” ao invés de “AQUELE QUE É”? Percebamos que não existe um “ego eimi” nessa parte e que estranhamente, praticamente todos os tradutores colocam nessa parte “B” a tradução como “Eu sou me enviou a vós”? E a Bíblia de Jerusalém ainda faz mais e coloca em maiúsculo “EU SOU me enviou a vós?” Quando o procedimento uniforme seria “AQUELE QUE É me envio a vós”.

Ora, se “ego eimi” significa “eu sou” e “HO ON” significa “eu sou” exatamente com a mesma semântica, então, a parte “A” deveria ser traduzida por “Disse Deus a Moisés: Eu sou Eu sou” (ego eimi ho on[?]), e ai teríamos, ao menos, uniformemente na segunda com “Eu sou me enviou a vós”. Mas se HO ON é traduzida por “AQUELE QUE É” na parte “A” não há razão para não ser, também, na parte “B” pela mesma expressão, a não ser que haja a intenção de criar a associação que os trinitários hoje defendem1.

Uma outra comprovação da irregularidade cometida pelos defensores da co-igualdade entre o Pai e o Filho usando esses versos são as funções sintáticas que envolvem a questão. ὁ ὤν (HO ON) é um particípio, e conforme pode ser encontrado em qualquer gramática do grego bíblico: “um particípio pode funcionar, ou como adjetivo, ou como verbo. Para descobrir de que maneira um particípio está sendo usado, é importante observar duas coisas: o contexto, principalmente, o artigo. … – Com artigo: é usado como adjetivo atributivo ou como adjetivo substantivo.”2 . Com artigo é o caso de Ex. 3.14. O artigo ὁ (HO) acompanhado do particípio do verbo “ser” ὤν (ON).

O mesmo autor diz “Um particípio e seu artigo podem estar relacionados a um pronome ou substantivo para descrever ou qualificá-lo. Aparecem, então, na posição e com a função de um adjetivo atributivo. Nesse uso, o particípio e seu artigo concordam com a palavra que modificam em gênero, número e caso. Representam uma oração subordinada adjetiva.3. Fica fácil identificar que “HO ON”, qualifica o substantivo Deus (Theos), e seu correspondente pronome “eu” (ego – aquele mesmo do ego eimi que confundem com um declarativo e que aqui é pronome junto ao verbo que liga os elementos da oração) é modificado pelo “HO ON”. Depois de Deus ser qualificado ou descrito como “HO ON”, segue-se a declaração “HO ON me enviou a vós”, e não “ego eimi me enviou a vós.” Lembremos, mais uma vez, que o particípio não é usando em Jo. 8.58.

A ausência de relação entre Ex. 3.14 com João 8.58 pode-se ver inclusive nas versões hebraicas da Bíblia. Em Êxodo encontramos a expressão “אהיה” ( ‘AHIEH) 3 (três) vezes e esta não ocorre nenhuma vez no NT em hebraico da Sociedade Bíblica Trinitariana, lá em Jo. 8.58 está “אני הוא” (‘ANI HU).

Ainda podemos falar da própria identificação bíblicas dos personagens envolvidos nos versos comentados. Veja que em Ex. 3.15, o verso imediatamente posterior encontramos: “E Deus disse mais a Moisés: Assim dirás aos filhos de Israel: Yahweh Deus de vossos pais, o Deus de Abraão, o Deus de Isaque, e o Deus de Jacó, me enviou a vós; este é meu nome eternamente, e este é meu memorial de geração em geração.”, agora compare com At. 3.13 “O Deus de Abraão, de Isaque e de Jacó, o Deus de nossos pais, glorificou a seu filho Jesus” É fácil perceber que O Deus que foi identificado em Êxodo é identificado como o Pai de Jesus e não como sendo o próprio Jesus.

Outra questão que deveríamos levar em conta é a preferência dos tradutores em verter Ex. 3.14 pela forma presente ao invés de futuro, como podemos ver na primeira versão da Bíblia de Almeida. Traduzem em Ex. 3.12 “E disse: Certamente eu serei contigo”, אהיה por “Eu Serei” e dois versos depois a mesma palavra é traduzida por “Eu Sou”, se houvesse um padrão com o verso 12, teríamos além de todas as evidências, mais uma mostrando o equívoco trinitário.

Com relação ao v.59, que diz que os judeus procuravam matá-lo, o que faz alguns pensarem que foi pelo fato de uma suposta identificação de Jesus com o Eterno, devemos lembrar do verso 40 do mesmo capítulo onde o próprio Jesus diz: “Mas agora procurais matar-me, a mim, homem que vos tem dito a verdade que de Deus tem ouvido; Abraão não fez isto.” Veja que já havia uma predisposição real anterior para se matar Jesus mesmo antes de sua afirmação de preexistência no v.58. Ora um homem dizer que era antes de Abraão não podia esperar outra reação dos judeus. Perceba que ele não disse ser Deus, ao contrário, disse ser homem. Assim, o uso das pedras sempre estavam à mercê do que os judeus da época entendiam por blasfêmia, Mt. 23.37, At. 7.58, II Co. 11.25 e Hb. 11.37. Muitos trinitários chegam a apresentar um lista do que a Lei reconhecia como blasfêmia para tentar legitimar uma suposta tentativa de identificação de Jesus com Deus em Jo. 8.58, o que teria gerado aquela reação dos judeus, mas como já foi visto não há relação daquela passagem com Ex. 3.14. Além do mais o próprio Jesus disse muito claramente: “Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas, e apedrejas os que te são enviados!” (Mt. 24.37); mostrando que não é razoável supor que todos esses profetas e enviados que foram apedrejados e mortos pelos judeus tenham blasfemado, pelo contrário, sem blasfemarem em absolutamente nada foram mortos. Jesus seria, na lista dos fariseus, mais um dos profetas que seria morto. Para um fariseu só o fato de Jesus dizer que era antes de Abraão, já seria o suficiente para querer matá-lo, mas seguramente não foi pela expressão “eu sou” (ego eimi), pois essa expressão, além de não ser a mesma usada em Ex.3.14, era super comum. Até nós se vivêssemos naquele lugar e época a usaríamos. Observe, por exemplo, as palavras do cego de nascença que fora curado em Jo. 9.9: “Uns diziam: É ele. E outros: Não é, mas se parece com ele. Ele dizia: Sou eu.” A expressão “Sou eu” é a mesmíssima usada por Cristo no episódio que estamos comentando. No grego temos o cego dizendo: “ἐκεῖνος ἔλεγεν ὅτι ἐγώ εἰμι”, literalmente é: “ele dizia: Eu sou.”

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1 Depois de vários e vários anos defendendo a associação de Ex. 3.14 com Jo. 8.58 há trinitários, hoje, que estão, ante as evidências, declinando dessa defesa.

2 Lourenço Stélio Rega in Noções do Grego Bíblico, Editora Vida Nova – 2004 , pág. 200, 201

3 Idem, pág. 222