Jo. 20.27-28 Certamente o foco desses versos recai sobre a expressão “meu Senhor e meu Deus” (ὁ κύριός μου καὶ ὁ θεός μου). A questão é sabermos se Tomé estava identificando quem era o que estava diante dele, a exemplo da revelação que Pedro teve, ou se dirigindo a Ele expressando admiração ou espanto pelo que via ser possível acontecer pelo poder de Deus.

O fato do apóstolo João não haver registrado a forma vocativa do grego em Jo. 20.28, algo que era de se esperar se fosse intenção de Tomé direcionar aquelas palavras exatamente a pessoa de Jesus, tem feito alguns trinitarianos reivindicarem a existência do vocativo com caso nominativo (fato que poderia acontecer no grego koiné) para esse versículo em específico, mas embora o vocativo possa se servir de nominativo, deve-se destacar que o nominativo “ο κύριος” (ho kyrios), como vocativo articular é o tipo de exceção que não se manifesta em lugar algum do evangelho de João, nem antes, nem depois da ressurreição. Sempre que alguém se dirige a Cristo o chamando de Senhor usa “κύριε” (kyrie), o vocativo, nunca o nominativo “κύριος” (kyrios). O nominativo da palavra “Senhor”, indicando Jesus, mas não se dirigindo a ele ocorre em cinco lugares nesse evangelho, são elas: Jo. 4.1; 13.13,14; 21.7,12. Todas as outras ocorrências da palavra “Senhor” quando alguém se dirige a Jesus no evangelho de João é usado o vocativo, expresso como tal: κύριε. Assim, era de se esperar que, se fosse intenção de Tomé dirigir as palavras a Jesus, referindo-se a ele, dizer-lhe, então: “κύριε μου”, seguindo o padrão de registro de como se dirigir ao Senhor Jesus. Isso, por se só já deveria nos fazer refletir sobre as reais intenções de Tomé. No entanto, poderá se reivindicar justamente a questão do uso vocativo com nominativo grego para descaracterizar essa reflexão (embora que João seja uniforme em seu evangelho em todas as 29 ocorrências da palavra “Senhor” no vocativo se dirigindo a Jesus) e dizer que Tomé estava se referindo, de fato, a Cristo em Jo. 20.28, mas vale ressaltar que mesmo que Tomé houvesse usado o vocativo no caso nominativo este refere-se ao seu Deus, O Imortal, O Pai, e não a Jesus, que voltara a vida por aqueles dias.

Mas além dessa questão gramatical reflitamos, agora, contextualmente. A primeira aparição de Jesus após a ressurreição, Tomé não estava presente, causou pavor entre os discípulos Lc. 24.37 “E eles, espantados e atemorizados, pensavam que viam algum espírito”. Uma conclusão imediatista, que inclusive é, com relação a essa passagem bíblica, a usual nos dias de hoje, passa pela desconsideração total sobre qual era a paisagem em que o Novo Testamento se formou. Tomé precisaria ser um judeu muito leviano, a despeito do que todos os escritos históricos, salmos, proféticos e sapienciais em milênios de história ensinaram acerca de Deus, inclusive na sua época e mesmo depois, ao dizerem em passagens como Dt. 10.17 “Pois Yahweh vosso Deus é o Deus dos deuses, e o Senhor dos senhores, o Deus grande, poderoso e terrível, que não faz acepção de pessoas, nem aceita recompensas”, I Rs. 8.27 “Mas, na verdade, habitaria Deus na terra? Eis que os céus, e até o céu dos céus, não te poderiam conter…”, Ex. 33.20: “Nenhum homem verá a minha face e viverá”, II Sm. 22.14 “Do céu trovejou Yahweh, o Altíssimo fez soar a sua voz.” Sl. 76:7 “Tu, sim, tu és tremendo; e quem subsistirá à tua vista, quando te irares?”, Sl 89:7 “um Deus sobremodo tremendo na assembleia dos santos, e temível mais do que todos os que estão ao seu redor?”, Jr. 23.24 “… Porventura não encho eu os céus e a terra? diz o Yahweh.” Ou ainda para nós, Ap. 20.11 “E vi um grande trono branco e o que estava assentado sobre ele, de cuja presença fugiram a terra e o céu; e não foi achado lugar para eles.”. O próprio apóstolo Paulo mostrou que essa percepção de Deus não havia mudado com a vinda de seu Filho Jesus. A graça e a verdade que a Bíblia diz ter vindo por Jesus Cristo Nosso Senhor não passa pela mudança da percepção de quem é o Deus Eterno de Israel, Aquele conhecido pelos antigos patriarcas, profetas, reis e etc., pois o apóstolo escreveu: I Tm. 6. 16 “Aquele que tem, ele só, a imortalidade, e habita na luz inacessível; a quem nenhum dos homens viu nem pode ver, ao qual seja honra e poder sempiterno. Amém.” Nas Escrituras ainda estão escritos “Não executarei o furor da minha ira; não voltarei para destruir a Efraim, porque eu sou Deus e não homem, o Santo no meio de ti; eu não entrarei na cidade.” (Oz. 9.11), e “Deus não é homem, para que minta; nem filho do homem, para que se arrependa; porventura diria ele, e não o faria? Ou falaria, e não o confirmaria?” (Nm. 23.19). Qualquer que seja a interpretação dada a todos esses versículos e outros semelhantes, tais informações certamente não leva ninguém a acreditar que Yahweh, o Deus Eterno, iria se materializar se fazendo carne diante dos homens e se tornando aquilo que ELE disse não ser: o homem. Tomé como judeu que era, acostumado a recitar o Shemá: “Ouve, Israel, Yahweh nosso Deus, Yahweh é um”, acostumado a perceber Deus como um e único, imortal, invisível, imensurável, indescritível e etc., passar, agora, a entender Deus como mortal, visível e, quem sabe, revelado por “hipóstases” como sendo pelo menos dois, passando a admitir que Ele, Deus, havia morrido, ressuscitado e estava em “carne e ossos” ali diante dele palpável é algo completamente sem nexo se considerarmos que para a Bíblia existe um contexto não somente histórico, mas, também, religioso; muito mais quando nos lembramos que um recado foi endereçado aos discípulos, versículos antes, pelo próprio ressuscitado Senhor Jesus Cristo, nos seguintes termos Jo. 20.17 “mas vai para meus irmãos, e dize-lhes que eu subo para meu Pai e vosso Pai, meu Deus e vosso Deus”. Tomé mesmo foi testemunha das palavras de Jesus em João 5.30: “Eu não posso de mim mesmo fazer coisa alguma” e o mesmo Evangelista registra em vários momentos essa dependência de Jesus em relação a Deus. Além do mais Jesus mesmo testifica qual era a compreensão que os apóstolos tinham dele e a confirma em Jo. 13.13 “Vós me chamais Mestre e Senhor, e dizeis bem, porque eu o sou.”, não Deus e Senhor, mas Mestre e Senhor É realmente muito difícil imaginar que diante de tudo isso Tomé tenha contrariado o próprio Jesus Cristo, que ao endereçar um recado aos discípulos inclui o próprio Tomé, chamando todos de “meus irmãos” e afirmado eu subo para…meu Deus”, passasse, agora, a afirmar ser Ele (Jesus) exatamente aquele conhecido como O Deus de Israel, O Eterno.

Há quem ache impossível Tomé haver respondido a Cristo e não estar se referindo diretamente a Ele, ainda que Jesus mesmo não tenha feito nenhuma pergunta a Tomé. Mas, é interessante saber que fato semelhante já havia acontecido com Jesus ao ser tentado pelo Diabo, quando este pede que Jesus o adore temos as seguintes palavras do Salvador: “Vai-te para trás de mim, Satanás; porque está escrito: Adorarás o Senhor teu Deus, e só a ele servirás” (Mt. 4.10). Ora, diante de tudo aquilo que a Bíblia relata a respeito de Satanás é difícil que o pai da mentira considere Yahweh seu Deus. O pedido que ele fez a Jesus reflete isso pelo desrespeito, e o próprio Yahweh já condenou o Diabo, de modo que uma ordem a um condenado dessa natureza não seria dada e nem seria acolhida. Logo, a citação de Jesus não é dirigida ao Opositor embora tenha sido dita a ele. É, portanto, uma referência ao mandamento dado por Moisés para informar ao maldizente que Jesus só adoraria e serviria a Deus, seu Pai e não um aconselhamento ao Maldizente.

Paralelamente Tomé ao dizer “Senhor meu e Deus meu” usa ou cita uma expressão muito parecida com a do Salmo 35.23 “Desperta e acorda para o meu julgamento, para a minha causa, Deus meu e Senhor meu”. O Salmo está inserido em um contexto de perseguição e acusações. Tomé havia passado 8 (oito) dias dizendo não acreditar na afirmação dos apóstolos (Jo. 20.26), por não tê-lO visto, certamente deve ter temido ser acusado pelos demais discípulos depois da Prova do milagre estar ali diante dele. Muitos procuram descaracterizar essa verdade alegando que essa afirmação de Tomé seria blasfema se fosse uma citação não dirigida ao próprio Jesus, pois no entender deles estaria usando citando Deus em vão. Alguns alegam, ainda, que Tomé deveria está habituado com as teofanias de Deus nas Escrituras portanto acharia normal Deus está ali diante dele e estaria, por conta disso dirigindo as palavras ao Senhor Jesus como sendo o próprio Deus, mas essa é uma análise incompleta dos fatos. Como já vimos Tomé não precisava, forçosamente, direcionar as palavras a Cristo, os Salmos nos ajuda nesse entendimento e é difícil defender que as teofanias de Deus no passado tenha convencido Tomé que Jesus fosse o próprio Deus, pois as teofanias são manifestações temporárias de Deus através de algo ou alguém, e essa descrição de teofania não se encaixa na pessoa de Jesus Cristo, que tinha uma mãe conhecida por todos, além de irmãos e irmãs, e um pai adotivo.

Um detalhe adicional a observar é que o milagre da ressurreição não seria o suficiente para uma conclusão trinitária por parte Tomé, pois ele não tinha ciência por qual tipo de ressurreição Jesus havia passado, e, pela quantidade de dias, o corpo de Lázaro havia ficado mais tempo no túmulo do que o de Jesus. Assim, o conceito trinitário só é possível se for considerado o texto isolado de seu contexto.

Admitir que Tomé tenha VISTO, aquele que MORREU e ressuscitou, e o reconhecido como sendo o Deus Eterno fere frontalmente I Tm. 6.16 que diz: “Aquele que tem, ele só, a imortalidade, e habita na luz inacessível; a quem nenhum dos homens viu nem pode ver…”. 1

Se levantarmos a questão coloquial, há ainda o fato de que na antiga escrita grega não existia pontuação, o que não permitiu registrar a entonação da frase de Tomé. Isso poderia dar também a real dimensão do que nos disse o apóstolo, mas como não sabemos como ele entonou é preferível ficar com a contextualização bíblica que por si só já dá informações suficientes para se compreender perfeitamente as palavras de Tomé.

João fecha a questão, no mesmo capítulo, de forma muita clara em 20.31 “Estes, porém, foram escritos para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais vida em seu nome.” ou seja, o que ele escreveu não foi para que creiamos que Jesus é Deus, mas “que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus

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1 Esse verso é interessante porque também desfaz a reivindicação feita por alguns de Jo. 14.9, para dizer que Jesus é o próprio Deus. Ora se João estivesse querendo dizer que Jesus era Deus mesmo, então, I Tm. 6.16 seria uma mentira. Mas, se vê o Pai em Jesus significa que ele veio de Deus, então, ambos os versos continuam harmônicos.